quarta-feira, janeiro 07, 2009

Um dia na fama, o outro na lama

Nosso parceiro Delano D’Ávila nos envia mais um caso.

Bermudas e sandálias brancas. Estreava uma blusa amarelo gema com fivelas, tiras e cintas dentre outros penduricalhos e bolsos inúteis, óculos Ray Ban. Tudo isso me dava um ar de felicidade primavera-verão. E bota feliz nisso Foi assim que fui naquele sábado pra JMM quando nem precisava ir.
Nem os documentos peguei. Esqueci, sei lá. Peguei o Corcel verde alface rumo a Avenida Almirante Barroso não fazer nada.

Mal chegando ouço gritos em uníssono nos corredores da agencia; “Enfim o nosso homem!!!” Como assim?
Rubinho, nosso gerente faz tudo tomou a frente e disse num tom agoniado de um problema sério no rótulo da cerveja Port numa gráfica em BH. Que o Marcelo Martinez, diretor de arte da peça estando fora só mesmo eu teria condição técnica, possibilidade de viajar e resolver a coisa. A gráfica teria que rodar alguns milhares deles com distribuição de garrafas já comprometida e atrasada.
Mas se nem os documentos estavam comigo, como viajar? perguntei.
“Ora Delano, sou amigo do Coronel Fulano Cicrano da Líder e resolvo essa parada.” disse o professor Cid Pacheco saboreando poder ao lado de Lula Vieira, então diretor de criação e sócio do Medeiros. “Deixa comigo, vamos já pra lá!”

Verdade. Em poucos minutos lá estava eu dentro do nada discreto visual esportivo, nada no bolso ou nas mãos, rumando para BH.
Hora e pouco depois céu 85 por cento de preto, uma água só. No aeroporto, o cicerone ainda sequinho achou graça do meu visual turístico.
O táxi também voou e nos vimos numa pirambeira de barro puro. A rua da gráfica parecia uma mistura de afluente do Tietê com pista de motocross. Chegar na calçada só saltando e aí scataplaaaaaaaassssssshhhhhhhhhhh. Passei de amarelo e branco para marrom. Todo marrom. Uma cor que se em si já era comprometedora, no decorrer da história, de nervoso, fui ficando mais ainda.

A publicidade tem dessas coisas. Num dia você está num festival do Copacabana Palace, perfumado, elegante, cercado de colegas e clientes. Num outro, todo borrado, fedorento, duro, e pior, tendo que, diante de pessoas aborrecidas querendo te engolir, solucionar a falha dos cariocas irresponsáveis, que só pensam naquilo e praia. Que ironia.

Imagine então quando o tal imbroglio a resolver ficava bem no meio daqueles textos legais, em corpo 4, tendo que enfiar no dito cujo (pelo menos era só no dito cujo) uma palavra maior do que a “errada” e junto a ela um número de doze dígitos. Pra quem de geração mais recente e talvez não saiba, essas mexidas se faziam com meia gilete quebrada de modo a ficar bem pontiaguda. Só assim se cortava entre as letrinhas minúsculas de uma cópia do texto impresso em papel couché antes fixado com spray que produzia uma película transparente. Isso para não borrar enquanto fresco. Quem se borrava era eu no terror da pressão e ficava ainda mais marrom.
Resolvi. Precisava agora voltar pois lembrara só então do aniversário da Telma. 4 de março. E já anoitecera. Da turma que ficou nem obrigado. Do cliente muito menos, não olhou na minha cara.
Nem precisaria dizer que me senti péssimo com todo mundo me olhando no avião como a um mendigo. Foda-se! Não conhecia mesmo ninguém e em hora e pouco estaria no colo da noivinha... Caramba! Que horas são?
Se já não havia celular, estar num avião bloqueava qualquer possibilidade de comunicação. 8 da noite, chegaria em casa no mínimo as dez. Xiiii!!! A história estava mais marrom ainda. Quase preto.

O ônibus de transferência para o prédio do aeroporto deveria comportar sentadas umas 28 pessoas. Como fui o vigésimo nono a entrar fiquei totalmente na berlinda. Todos me olhando. Quase berrei geral: Que que é? Nunca viram um milionário excêntrico voltando de um rallye de moto? Não berrei. Me limitei a olhar por baixo dos óculos escuros, ver as horas no relógio e imaginar ter perdido a mulher. Já passava das 10.

Dez dias depois. Só 10 dias depois consegui convencer a noiva que o fato tinha acontecido mesmo. Que o ofício tinha dessas coisas repentinas e urgentes. Cara de pau limpei a barra e o barro.

10 comentários:

jr disse...

Acho que o Delano é dos que mais tem mandado causos para este blog. Confere?

Jonga Olivieri disse...

Sim. Juntamente com o Redatozim ele é dos que mais publicou "casos" ou "causos" neste blogue.

Anônimo disse...

O mundo da publicidade tem dessas surpresinhas que a gente nao espera que acontecam. Lembro de uma vez que entrei na agencia numa quarta e so sai de la no sabado. E mole?

Anonymous
New York

Jonga Olivieri disse...

Vou deixar os comentários futuros com o autor da postagem, a não ser que a pergunta tenha alguma coisa a ver comigo.
Fica mais adequado.

redatozim disse...

Nessas horas o cel quebra um galho, don Oliva. A Fernanda não iria cair nessa nunca rs

Jonga Olivieri disse...

Outros tempos Redatozim. Outros tempos...

Julio Negri disse...

Delano, pode se dizer (como disse o Caetano) que você viajou sem lenço e sem documento. Que situação!

F... disse...

Segundo sua própria descrição: "Bermudas e sandálias brancas. Estreava uma blusa amarelo gema com fivelas, tiras e cintas dentre outros penduricalhos e bolsos inúteis, óculos Ray Ban."
Delano, que coisa mais cafona! Blusa amarelo gema cheia de fivelas e penduricalhos. Minha Noooossa!
F...

Anônimo disse...

É hoje a história seria bem diferente!
Amélia

Professor Texto disse...

É sempre um prazer ler as histórias de Delano "borboleta" D'ávila. Mas ele omitiu um detalhe importante de sua indumentária na época: sua bolsa onde haviam mil e uma utilidades, todas impublicáveis para não denegrir a sua imagem. Dizem até que o famoso sucesso musical daqueles tempos, "Telma eu não sou gay", foi composta em sua homenagem. Intriga, é claro.
=)