segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Um exemplo de sabedoria

Corria o ano de 1970 e eu havia saído da Nova Proudon, que cerrara as portas devido às loucuras do seu dono, que jogou pela janela uma agência que havia crescido, tinha até filial em Belo Horizonte e, de lambuja, entre outras, a conta da Itambé. Fora as do Rio, como a Servenco (1), que à época já propiciava trabalhos bastante criativos e inovadores, a Chosil, a Crisauto ou a Adocyl, cujo lançamento nacional foi feito naquela agência.

Acabei indo trabalhar numa gráfica em São Paulo, a Sografe, que editava uma revista mensal chamada AB-Alimentos e Bebidas. Foi uma senhora experiência diagramar aquela revista, numa saleta ao lado das máquinas que a imprimiam. Isto porque pude aprender muito do processo gráfico, coisa que me foi muito útil numa época em que tudo era artesanal e o conhecimento dessas particularidades técnicas era dominado por poucos diretores de arte, limitando-se mais ao universo dos produtores gráficos.

Para se ter uma idéia, após criar e aprovar os leiautes de cada número, eu fazia a produção, determinava a fonte e calculava o corpo. Depois vinham tiras de celofane com o texto impresso. As cortava e colava com vasilina em grossas folhas de astralão (2), com um gabarito sobre uma mesa de luz, utilizando pinças para manuseá-las, além de réguas e esquadros para manter o esquadro. Uma tarefa precisa, que requeria uma atenção redobrada. As folhas saiam dali e ia-se fazer o fotolito, etapa que eu acompanhava por inteiro. Em seguida, chapas devidamente gravadas, entrava em máquina. Para mim, era só cruzar uma porta e ver duas Solnas (3) maravilhosas a trabalhar. Era emocionante ver tudo aquilo se transformar na revista impressa e tê-la em mãos.

Meses depois, recebi uma proposta e fui trabalhar numa agência, a De Mello & Leonardo, que funcionava no mesmo prédio e cujos donos eram amigos do pessoal da gráfica. Um dos sócios dela era o Zuza Homem de Mello, dos maiores experts do país em música, especialmente o jazz. Tínhamos ótimos papos sobre isso e muito aprendi sobre um gênero musical que sempre me interessou muito. A agência era pequena, no entanto fiz bons trabalhos ali, pois tinha contas como, por exemplo, a Champion Celulose, fabricante de papéis que propiciava a criação de peças criativas, desde embalagens a anúncios em revistas.

Mas, minha mãe tinha uma grande amiga – que eu até chamava de tia –, e conhecia muito a Teresa, casada com o Mauro Salles. E a Salles Interamericana era na época uma das mais promissoras agências que surgiam no Brasil. Com sede em São Paulo, começara seu vôo num quarto do Hotel Jabaquara, onde os profissionais que a fundaram criaram, na calada da noite e a “sete chaves”, a campanha para o “Modelo M” da Willys Overland do Brasil, o carro que viria a ser o Aero-Willys. Depois, com a conta na mão, Mauro fundou a agência.

Consegui agendar um encontro com ele, que me recebeu com muita atenção e boa vontade, tendo me mostrado todas as instalações da sua agência, inclusive me apresentado a outros profissionais. Ao final, disse que assim que tivesse alguma coisa me avisava. Eu saí dali radiante, mas, passou o tempo e não surgiu nada. Alguns anos depois, trabalhando na Salles, agência para qual fui por outros caminhos, os meus mesmos, a conversar com o Mauro, tocamos no assunto e ele me disse que eu estava ali pelo meu próprio mérito, fato que o deixava muito feliz.

Naquele dia eu compreendi muito da sabedoria de Mauro Salles (4)...

(1) A Imobiliária Servenco foi a conta que originou o surgimento da Estrutural Propaganda, que, sob a direção de Rogério Steinberg, foi uma das agências mais criativas do Rio de Janeiro em todos os tempos.

(2) Astralão é conhecido no Rio como acetato.

(3) Solna é uma marca de impressoras suecas de grande qualidade.

(4) Existem alguns casos em que o Mauro Salles é citado neste blogue, mas outro caso que vale a pena ser lido – até por um exemplo de sabedoria – foi publicado em 5 de março de 2007.