segunda-feira, maio 11, 2009

Ana quase Dória

Delano D’Ávila, nosso parceiro mais presente manda mais um caso para salvar o mês. A verdade é que meu estoque de historinhas está se esgotando e a participação dos colaboradores pode ajudar bastante este blogue.

Não queria, mas fui. Fui deportado pra São Paulo. Aos vinte e poucos anos.

Chegara um pouquinho antes de mim um novo gerente na JMM de lá. Versátil, Sergio Dória acumulava funções de atendimento e redação. Acumulava também uma birita pesada desde as primeiras horas da manhã. Era no entanto muito culto, inteligente, divertido e quase sempre responsável pelos seus atos. Quase.

Muita coisa aconteceu neste período de ano e pouco na casa da Goitacás. Os tres meses de Hotel Lord na rua das Palmeiras em companhia de jogadores do clube do mesmo nome (parecia merchandising) compartilhando viagens de elevador com um Leão ainda jovem mas já muito vaidoso e arrogante. No restaurante antes do jantar sentir o valor de uma dosezinha de Saint Raphael e em segundos estalar uma idéia que perseguia havia meses.
As partidas de palavras cruzadas emocionantes com o Sergio Munhoz (aquela da femoral foi com ele).
O trambique das sardinhas Hello! quando recebi míseros 10% do combinado, tentei ligar várias vezes sem sucesso para a cidadezinha de Camboriú em Santa Catarina e relaxei e entubei confiando que o projeto havia sido abortado. Deparei tempos depois - já no Rio- com a gôndola do FreeWay lotada de latinhas em molho de tomate e em óleo comestível. Nesta hora senti vontade de atacar as prateleiras e quebrar tudo. Não quebrei. Iriam me ter como louco, me prenderiam e ainda pagaria pelo prejuízo maior que os 10%.
Foi tudo naquele tempo. Mas foi bom. Ganhei experiência profissional, ganhei vivência.

O Sergio me contava todos os perrengues da uma vida conturbada e cada vez mais alcoólica. Numa segunda-feira pela manhã contou que em seu retorno de trem do Rio conheceu no (adivinha) vagão do bar um casal interessante. O noivo, um jovem descendente de árabes, rico, ela uma linda judia, olhos cintilantes muito azuis, cheia de vontade de viver e trabalhar na área de investimentos. Um livro sobre Economia de autoria de alguém de sobrenome Dória teria provocado Ana Storch a visitá-lo já na terça.
Papo daqui, papo de lá, o entendimento com a moça foi instantâneo. Então a coincidência do sobrenome teria sido um mero pretexto feminino ou o desespero de querer largar todo seu cotidiano e mudar a paisagem? Nunca se iria saber. O que sei e testemunhei é que em menos de 15 dias já moravam juntos num apezinho alugado, claro, pago pela agencia e pertinho da casa.
O ex-noivo apelou, contratacou com promessas de mundos e fundos, o céu, as estrelas, lua-de-mel no Canadá, traquilidade financeira, mas não houve jeito. Chifre consumado. Ana Storch trocou a figura e todos seus atributos por um outro duro, bebum, envelhecido, cheio de problemas, mas pelo menos divertido. Quem sabe o Sergio tinha mais talento e jeito para escutar as diferenças dela com o pai, judeu ortodoxo e ditador de um monte de posturas sociais e modus vivendi. Coisa que ela odiava, não escondia. Cuspia fogo e palavrões em série.
Aconteceu então um triângulo de companheirismo. Cada um com seus problemas, diariamente, eu que morava sozinho me juntava a eles para papear. Ora em jantares por conta de clientes fictícios falando de vida e trabalho, trabalho este que Ana, curiosa, curtia saber e palpitar, ora jogar conversa fora no tal apezinho. Nos intervalos a moça de 24 anos deixava escapar os fortes traumas da relação com o pai. Eu só ouvia calado e apreensivo. Já o Sergio ironizava, chamando de fogo de palha, assim menosprezando a ira de Ana sem admitir que ela levasse adiante declarações tão assustadoras.

A cada manhã eu perguntava a ele se já havia rolado o acasalamento carnal, o que ele levemente encabulado negava e tampouco explicava. Coisa mais estranha aquela. Os tempos no quesito virgindade já haviam evoluído e a esquisitice se acentuava por conta do tempo de convivência entre quatro paredes: três meses!
Mas foi assim até o quarto mês quando a água mole furou a pedra dura. Festejamos algo que só fui saber dias depois quando Sergio me contou com o canto da boca. Estava feliz.

As discussões de Ana com o pai pioraram. Ameaças de parte a parte, sei lá quais. Ao mesmo tempo minha noiva pressionava para que eu voltasse, caso contrário iria partir pra gandaia, enjoada que estava de recusar convites para festas e afins na minha ausência. Preparei um belo portfolio misturando tudo. De peças fantasmas a ilustrações fictícias. E colou.
Minha pasta foi parar na Salles e o convite pra voltar pro Rio rapidíssimo. Começaria já na segunda-feira seguinte, cinco dias de quando recebi a notícia. Sergio que era parceirão nem pestanejou, entendeu e decretou que fazia questão de matar dois coelhos: passar no Rio o fim-de-semana e me levar de volta, no seu fusquinha mostarda. Quase matou dois humanos.

Foram cinco as paradas na viagem. Cada uma premiada com doses variáveis de Dreher, ou seja, chegamos vivos por mero acaso. Com uma mãozinha na consciência, Sergio Doria iria se sentir um assassino e, tanto eu como Ana, suicidas requintados. Acertei em parte. Errei a data.

Das nove de segunda às quatro e meia de sexta estava tudo normal quando pintou uma ligação de São Paulo. Era a Lia, mídia de lá. Estranhei. Teria deixado algo incompleto na criação? Mas se fosse isso não seria a Lia a me ligar, enfim... “Alô! É o Delano?” -Sim, sou eu. “O Sergio está indo para o Rio, só fala em você, quer que você faça companhia a ele amanhã, sábado. Vai se hospedar no Hotel Carlos Gomes, na Praça Serzedelo Correa.” -Ok, mas o que houve? perguntei já aflito. “A Ana se matou.”

Quase não dormi. Quando levantei, refleti, e pensei que fosse um pesadelo aquela história.
Combinei ir com Telma depois do almoço. E fomos.
Lá chegando deparamos com nosso figuraço em silhueta sentado em frente a uma mesinha redonda, contra a luz que entrava pela larga porta da varanda. Uma garrafa de líquido dourado brilhava na cena. Sergio nos recebeu em silêncio, me abraçou por mais de dois minutos e continuou calado até chorar convulsivamente. Aí por dez ou quinze. Só então começou a contar a tragédia.

Sentamos os três no sofá, eu e Telma recusamos o álcool oferecido. Nem água quisemos. A história sim precisávamos beber e então tentar ajudar o cara de alguma maneira.

Contou ele que desde a minha volta tudo corria igualzinho. Fim-de-semana no Hotel Gloria, volta pra SP regada a outros conhaques, e, de segunda a quinta nada diferente. Até as brigas com o pai iguaizinhas, tão repetitivas que ele nem prestava mais atenção. Bem, na sexta ele costumava levar marmita para almoçar com ela no quarto e sala do Pacaembu. Levava os especiais rangos da sexta, naquela o filé de peixe com molho de camarão feito pela Dona Lindaura, contratada como cozinheira da agencia. Naquele dia isso não foi exceção.

“Abri a porta, caminhei em diagonal em direção à sala assoviando as 7 notinhas costumeiras para avisar minha chegada. Sem resposta atravessei a cozinha em direção à varanda e assoviei de novo. Nada. Na varanda ninguém. Então girei nos calcanhares para retornar à sala e olhando em frente estremeci soltando a marmita.
A porta do banheiro aberta deixava ver quase por inteiro o corpo de Ana pendurado na torneira do hidrante.
Nervos à flor da pele nem fui ver de perto. Corri para a portaria e pedi para chamarem a polícia.”

No necrotério, Sergio ao encontrar com o pai de Ana –seu inimigo feroz- pela primeira vez, ao lado do corpo e recebendo no ombro a mão pesada do homem, ouviu dele a pergunta que sintetizava aquele drama em 3 segundos: “Viste a última que a Aninha me fez?”

Para completar a bizarrice dos fatos ao sair Sergio pediu a companhia da Lia e foram beber em algum boteco. Lá pelas tantas resolveram ir ao tal apartamento, cenário do terrível episódio. E não é que foram pra cama? Só soube disso alguns anos depois quando ele me convidou para um papo antes de se transferir para uma agência de Vitória.

Nelson Rodrigues e Plínio Marcos ficariam chocados com essa história que custei pra escrever e mais ainda pra mandar pro Jonga
Aconteceu em 82.
Sergio Doria faleceu de cirrose hepática em 86, antes dos 50.