sexta-feira, junho 26, 2009

Antônio Torres na Casa do Saber

Reproduzo abaixo o texto que me foi encaminhado com o programa das oficinas literárias ministradas por Antônio Torres (1) na Casa do Saber do Rio de Janeiro (2), toda terça-feira às 19 horas no mês de julho. Caso tenha interesse, corra para se inscrever. O endereço e os telefones estão no final desta postagem:

“Desde Dom Quixote, cuja primeira parte data de 1605, o romance tornou-se um espaço entre a ficção e a biografia, e um território entre o real e a imaginação, sendo tudo isso ao mesmo tempo e nada disso, levando o leitor ao terreno da dúvida. O gênero cresceu na Inglaterra com a revolução industrial, no século 18, e chegou ao apogeu no século 19, pelo conjunto da obra de um elenco de gigantes (Tolstoi, Dostoievski, Dickens, Flaubert, Balzac, Sthendal, Eça de Queirós, Machado de Assis...) No século 20 teve sua estrutura virada pelo avesso, a partir das inovações formais e estilísticas introduzidas por James Joyce. Depois de todas as experimentações que sofreu daí em diante, e já com sua morte tantas vezes anunciada, afinal, qual o romance que se quer ler (ou escrever) hoje? Apenas uma velha e boa história bem contada? E mais: alguns segredos da criação de um romance, do título ao ponto final.

4 aulas

7 JUL – Breve introdução ao gênero, sua história, desenvolvimento e impasses na contemporaneidade. Títulos, inícios e finais de romances memoráveis. A criação de personagens, dos diálogos, e a relação tempo cronológico-tempo psicológico. O narrador. Leitura em voz alta pelos participantes de um capítulo exemplar de romance. Impressões sobre o texto lido. O romance que cada um gostaria de ter escrito. E o que tem na cabeça – ou na gaveta – e nunca teve coragem de contar.

14 JUL – A estratégia narrativa e a originalidade de Memórias póstumas de Brás Cubas, o romance dentro do romance, exemplo de obra literária do século 19 cujas inovações continuarão causando impacto pelos séculos afora. Leitura de alguns de seus capítulos. Exibição de trechos da adaptação do livro para o cinema, por André Klotzel. Confabulações em torno da construção e do texto machadiano, do Rio e da sociedade brasileira na visão ao mesmo tempo irônica e melancólica do autor.

21 JUL – Outro caso exemplar de estratégia narrativa. Este, do século 20: O Grande Gatsby, no qual Scott Fitzgerald atingiu a quintessência do seu sonho de arte e beleza. Está tudo lá: ritmo, cadência, e a comprovação de uma crença do autor de que “ação é personagem”. E, em vez da ironia machadiana, a prosa melódica da era do jazz; em vez do toque de melancolia por trás do riso de Brás Cubas, que se narra, o olhar de desencanto do narrador diante da misteriosa opulência de Gatsby, e, por extensão, das extravagâncias da sociedade norte-americana do primeiro pós-guerra, como se antevisse o desfecho trágico que deu no crack de 1929 e na depressão dos anos de 1930, de que hoje tanto se fala. Leitura em voz alta de trechos do pequeno grande romance de Scott Fitzgerald. Comentários.

28 JUL – Século 21: a desconstrução das formas canônicas, quando o romance prima pela incorporação de outros gêneros à sua estrutura, como o ensaio, a reportagem, a biografia etc., o que já vinha acontecendo no século anterior, mas agora parece dominar o cenário literário, sobretudo o brasileiro. Caso a ser analisado: O filho eterno, que ganhou praticamente todos os prêmios nacionais, levando o autor, Cristóvão Tezza, a ser distinguido com o Faz a diferença do jornal O Globo, este ano. Em foco: quando o real leva à invenção a atingir o status romanesco. Podem as vivências particulares resultar em histórias de interesse geral? O que faz a diferença entre a realidade e a ficção, ou mesmo entre um romance e outro? - considerando-se este outro o que desperta o interesse da crítica e do público. Comentários finais, envolvendo os participantes do curso.”

(1) Para quem não sabe quem é Antônio Torres (se é que haja), para além de ter exercido funções de Diretor de Criação e Redator em agências de publicidade no Rio e São Paulo, por exemplo: Salles, Denison, Lintas, é autor de livros como Um cão uivando para a lua, Os homens dos pés redondos, Essa terra, Carta ao bispo, Adeus, velho, Balada da infância perdida, Um táxi para Viena d’Áustria, O centro das nossas desatenções, O cachorro e o lobo, O circo no Brasil, Meninos, eu conto, Meu querido canibal, O Nobre Sequestrador, Pelo Fundo da Agulha, Sobre pessoas, entre outros. Tem suas obras publicados na Argentina, além de França, Alemanha, Itália, Inglaterra, Estados Unidos, Israel, Holanda, Espanha e Portugal. Foi agraciado como “Chevalier des Arts et des Lettres” pelo governo francês.

(2) A Casa do Saber fica na Avenida Epitácio Pessoa, 1.164 – Lagoa - Tel. (21) 2227-2237
e-mail: inforio@casadosaber.com.br
site: http://www.casadosaber.com.br/

domingo, junho 21, 2009

O “caso” do fotógrafo chorão

Trabalhava na DM9 em Salvador. Havia um excelente estúdio fotográfico na agência, no qual tirávamos fotos, revelávamos e com um fotógrafo safo dotado de um grande jogo de cintura ótimo para a “pauleira” da agência, e, principalmente a solução para as urgências.

Acontece que este fotógrafo também (e consequentemente) estava quase sempre atolado. Bom, na cidade havia outros profissionais competentes e sérios. E os usávamos quando a verba era maior ou quando o nosso não estava disponível para o trabalho no momento necessário.

Eu tinha que fotografar alguns automóveis na garagem de um cliente, uma revenda Volkswagen. E a foto tinha que ser no local porque deveria mostrar o seu grande tamanho. Não adiantava, portanto utilizar aquelas fotos cedidas pelos fabricantes, sempre de boa qualidade.

Pouco tempo antes, havia visto o portfolio de um fotógrafo estadunidense que muito me impressionou. Peguei o telefone e liguei pro cara. Marquei a foto, o dia e o horário para nos encontrarmos no endereço da garagem do cliente. O que aconteceu, com uma pontualidade britânica.

Realmente era uma área espetacular pelo seu tamanho. Eu havia marcado no layout uma foto em que havia um carro bem na frente e com uma grande angular, via-se o resto da área mostrando sua imensidão. Mas aí surgiram os problemas. O ianque começou a reclamar que fotos de automóvel não podiam ser feitas daquele jeito, que os reflexos incidindo sobre o veículo que estaria na frente seriam tétricos e yada yada yada (1).

Eu expliquei que sabia disto, que o ideal era usarmos um pano branco (no caso de enormes proporções) para evitar aqueles reflexos todos (2), mas o guy não cedia. No final de mais de 40 minutos de conversas e trocas de idéias, ele sentou-se no chão e pôs-se a chorar. Copiosamente.

Acabamos realizando a foto. E não ficou tão ruim. Afinal, o tal carro que estava em primeiro plano tinha alguns reflexos, mas juro que já vi coisas piores. Até porque a foto era uma das que estavam numa composição.

Nunca mais fiz nenhuma foto com o tal “gringo neurótico-depressivo”...

(1) Blá-blá-blá em inglês...

(2) É bom lembrar que não havia Photoshop naquela época. Retocar um slide era caríssimo e ficaria inviável.

segunda-feira, junho 01, 2009

Marcadores, etc

Quando eu comecei em publicidade havia coisas fantásticas a que dávamos muito valor naquela época. Era o caso de marcadores para leiaute. Na McCann tinha um estadunidense chamado Flo-Master. Era prateado e em formato de caneta mesmo. As pontas eram de espessuras diferentes e trocadas de acordo com a necessidade para cada ocasião ou propósito. E para se marcar, dava-se uma apertadinha contra outro papel e a tinta ficava mais intensa. Como era bom. E como soltava o traço.

Naqueles tempos, marcar um leiaute levava um bom tempo e requeria um grande aprendizado. Um diretor de arte investia alguns anos de aprendizado para se formar dentro das técnicas para marcação e de uma linguagem não tão simples, com toda uma série de macetes que identificavam uma boa apresentação. Começava com o rough (leia-se ráfe). Este devia passar com poucos traços tudo o que seria o leiaute final. Na maioria das vezes, marcava-se o ráfe e passava-se para o estúdio, onde vários profissionais aprimoravam com ilustrações e letras bem acabadas aquele esboço inicial. Mas, muitas vezes, um ráfe bem marcado podia ser levado ao cliente, dependendo da pressa na veiculação da peça ou da qualidade deste.

Por isso, tínhamos uma infinidade de marcadores. Muitas das vezes, nossos mesmo. Os importados eram os melhores e mais cobiçados. Quando os tínhamos, guardávamos a sete chaves em armários. Eles facilitavam e embelezavam o ráfe e às vezes um leiaute – que normalmente era marcado a guache ou ecoline – quando bem estruturados com marcadores eram dignos de apresentação. No momento em que acabavam e não os encontrávamos no mercado e não tinha quem os trouxesse dos Estados Unidos ou Europa, a solução era usar mesmo o pincel atômico ou o velho Pilot. Mas... era difícil se chegar a um bom resultado com este material mais simples.

Com o passar do tempo, no entanto começamos a desenvolver técnicas que valorizavam mesmo este material mais vulgar. Eu usava-os muito em papel manteiga, marcando pela frente e pelo verso. A transparência do papel ajudava a criar tons variados e o produto final ficava interessante, atraente e bem marcado. Detalhes que a gente ia aprimorando e desenvolvendo com a experiência e o passar dos anos.

Bem, hoje não existe mais nada disso. Senta-se na frente de um computador, aprende-se o manuseio de alguns softwares e estamos no ponto para desenvolver qualquer trabalho. Mas houve uma fase assim. Houve um tempo em que a perícia era necessária, em que o trabalho era artesanal e o seu aprendizado era uma conquista atrás da outra. E é importante que os profissionais mais novos tenham um conhecimento desta época heróica da propaganda. Não tão longínqua assim, pois se voltássemos apenas uns quinze anos ainda nos encontraríamos nela. Parece que foi ontem!