segunda-feira, junho 01, 2009

Marcadores, etc

Quando eu comecei em publicidade havia coisas fantásticas a que dávamos muito valor naquela época. Era o caso de marcadores para leiaute. Na McCann tinha um estadunidense chamado Flo-Master. Era prateado e em formato de caneta mesmo. As pontas eram de espessuras diferentes e trocadas de acordo com a necessidade para cada ocasião ou propósito. E para se marcar, dava-se uma apertadinha contra outro papel e a tinta ficava mais intensa. Como era bom. E como soltava o traço.

Naqueles tempos, marcar um leiaute levava um bom tempo e requeria um grande aprendizado. Um diretor de arte investia alguns anos de aprendizado para se formar dentro das técnicas para marcação e de uma linguagem não tão simples, com toda uma série de macetes que identificavam uma boa apresentação. Começava com o rough (leia-se ráfe). Este devia passar com poucos traços tudo o que seria o leiaute final. Na maioria das vezes, marcava-se o ráfe e passava-se para o estúdio, onde vários profissionais aprimoravam com ilustrações e letras bem acabadas aquele esboço inicial. Mas, muitas vezes, um ráfe bem marcado podia ser levado ao cliente, dependendo da pressa na veiculação da peça ou da qualidade deste.

Por isso, tínhamos uma infinidade de marcadores. Muitas das vezes, nossos mesmo. Os importados eram os melhores e mais cobiçados. Quando os tínhamos, guardávamos a sete chaves em armários. Eles facilitavam e embelezavam o ráfe e às vezes um leiaute – que normalmente era marcado a guache ou ecoline – quando bem estruturados com marcadores eram dignos de apresentação. No momento em que acabavam e não os encontrávamos no mercado e não tinha quem os trouxesse dos Estados Unidos ou Europa, a solução era usar mesmo o pincel atômico ou o velho Pilot. Mas... era difícil se chegar a um bom resultado com este material mais simples.

Com o passar do tempo, no entanto começamos a desenvolver técnicas que valorizavam mesmo este material mais vulgar. Eu usava-os muito em papel manteiga, marcando pela frente e pelo verso. A transparência do papel ajudava a criar tons variados e o produto final ficava interessante, atraente e bem marcado. Detalhes que a gente ia aprimorando e desenvolvendo com a experiência e o passar dos anos.

Bem, hoje não existe mais nada disso. Senta-se na frente de um computador, aprende-se o manuseio de alguns softwares e estamos no ponto para desenvolver qualquer trabalho. Mas houve uma fase assim. Houve um tempo em que a perícia era necessária, em que o trabalho era artesanal e o seu aprendizado era uma conquista atrás da outra. E é importante que os profissionais mais novos tenham um conhecimento desta época heróica da propaganda. Não tão longínqua assim, pois se voltássemos apenas uns quinze anos ainda nos encontraríamos nela. Parece que foi ontem!

12 comentários:

Anônimo disse...

Tempinho bom. Da ate saudades.

Anonymous
New York

Jonga Olivieri disse...

E como!

Leonardo disse...

Os marcadores americanos eram desejados por todos. A minha primeira caixa fiquei admirando por dias e dias. E quando usava, tinha um cuidado danado para não gastar.

Jonga Olivieri disse...

Depois ficou até mais fácil encontrar no Brasil em boas lijas de desenho. Mas realmente no início, a gente tinha que encomendar... Era difícil!

redatozim disse...

Pra quem é redator, como eu, a evolução da máquina de escrever pro computador foi um ganho inquestionável. Primeiro porque máquina de escrever fazia um barulhão da porra, segundo porque era errar uma palavrinha e a gente tinha que tirar a folha e começar tudo de novo.

Mas que o clima era outro, era.

Jonga Olivieri disse...

Isto me faz lembrar um outro recurso que alguns redatores usavam que era o de recortar e colar trechos datilografados, numa entevisão do que seria o "cortar/colar" nos computadores. Só que com tesoura e durex mesmo.

Anônimo disse...

O negócio é que hoje os DA nem precisam marcar. E o pior de tudo, não conhecem tipologia, distorcem as fontes sem conhecimento nenhum Barbaridade sô. E nãó é saudosismo não. É indignação mesmo.

Cantídio Tarsitano

Jonga Olivieri disse...

Este desconhecimento de fontes e suas origens é uma das coisas que mais me revoltam... sai da reta...

anita disse...

Coisa mesmo do arco da velha. Mas é o tal negócio da formação clássica. Essa questão de respeito a fontes é de quem não conhece nada do histórico da coisa. Um péssimo briefing, manja?

Jonga Olivieri disse...

É a mesma fonte do comentário do Cantídio quando se refere justamente à falta de conheciemnto das fontes.

Anônimo disse...

Meu caro Jonga, você fala de uma época em que existiam Diretors de Arte criativos e cultos. Este segundo item é importante porque no momento até existem alguns criativos, mas de cultura rasteira.
Além do mais formar um DA na época era mesmo um curso completo de Belas Artes.
Ernani

Jonga Olivieri disse...

Teem até alguns não tão ignorantes assim. Mas estão muito mais preocupados com o visual do que com conceitos; O que senti nas últimas vezes em que trabalhei em agências é que está havendo uma separação entre redatores e diretores de arte.
Nos meus tempos se discutia mais. O d.a. participava mais da elaboração do anúncio como um todo. A dupla de criação era participante. De parte a parte.
Hoje não!