terça-feira, julho 21, 2009

O “caso” da pizza

Este é engraçado, rapidinho e nunca me saiu da cabeça desde que foi contado.

Um redator que trabalhou comigo em uma agência – nos anos 80 – contou que tinha um tio que morava sozinho em São Paulo.
Quase toda noite o tal do tio passava por uma pizzaria praticamente em frente ao prédio onde morava e tomava um chopinho saboreando uma Margherita a palito.

O proprietário do tal estabelecimento estava a lançar um delivery, coisa ainda pouco conhecida naquele tempo. Talvez algumas farmácias fizessem este tipo de serviço, mas fora essas necessidades emergenciais, a entrega em casa era muito pouco utilizada.

Numa noite daquelas, o tio estava lá “drincando” com seu tira-gosto de pizza, quando o italianão virou-se para ele e disparou naquele português “macarrone”:
– Bambino, porque non encomêndare una pizza a la tua cassa? Nui entregamo la mercadoria quentínia!
O tio, sem entender a razão daquilo, já que morava tão perto, respondeu:
– Mas eu moro aqui em frente... Não há necessidade disso!
A questão era que para agravar a situação, ainda por cima ele não tinha telefone em casa.

Resumo da ópera: o sujeito encheu tanto o saco, que um belo dia ele começou a descer, ir até o orelhão mais próximo, fazer a encomenda e voltar correndo pra casa. Afinal, corria o risco que o entregador chegasse antes dele.

sábado, julho 11, 2009

Um artista inesquecível

Conheci o Flávio Colin (1) quando comecei meu estágio em publicidade – na McCann Erickson – no ano de1965.

Para além de ficar seu fã, um admirador (de carteirinha) do seu trabalho artístico, frequentei durante muito tempo a sua casa, sempre muito bem recebido pela Norma, sua simpática esposa. Na época, ambos morávamos em Botafogo e sua casa ficava a alguns quarteirões da minha.

Ia às noites de sexta-feira, e batia longos papos com ele, que considero um dos melhores contadores de “causos” que tive oportunidade de conhecer. Enquanto contava as suas ricas histórias, cheias de detalhes, ele ficava a desenhar seus projetos de HQ e frilas para agências de publicidade, e era comum eu sair de lá, já o sol nascendo, após muitas e muitas garrafas de cerveja.

Ficava escutando e admirando a sua grande imaginação e poder de descrever os acontecimentos com detalhes preciosos. E, claro, o seu primoroso trabalho artístico em seu estúdio montado num quarto no pátio de sua casa, em uma típica vila carioca. Era um local tão agradável que o tempo passava sem que se notasse. Ali, acompanhei o lançamento de “Vizunga” (2) passo a passo. E era emocionante ver a sua vibração com o personagem. Que, aliás, considero um dos melhores que tivemos aqui por terras tupiniquins.

Flávio faleceu aos 72 anos em 2002. Eu estava a fazer campanha política em Recife e soube de sua morte somente quando voltei para o Rio de Janeiro. O Brasil havia perdido um dos maiores quadrinistas de sua história (3). E eu um amigo inesquecível.

(1) Se quer saber mais sobre a vida e a obra do autor acesse este link:
http://www.bigorna.net/index.php?secao=biografias&id=1148261005

(2) Existem muitos textos sobre “Vizunga” na web, mas o link abaixo é muito esclarecedor:
http://www.universohq.com/quadrinhos/vizunga_intro.cfm

(3) Flávio Colin amava tanto o seu trabalho em HQ, tendo abandonou a publicidade, que lhe proporcionava muito mais dinheiro pelo seu ideal.

quinta-feira, julho 02, 2009

Eleições do barulho

O diretor de criação da ITP (1), Cleber Neves, resolveu candidatar-se às eleições do Clube de Criação do Rio de Janeiro. Na ocasião eu era diretor de arte na casa. Cleber era um profissional sério e competente e entrei numa época em que o Pirralho, o “P” de ITP, (também diretor de arte) estava a deixar a sociedade.

Um pequeno parênteses: havia um novo sócio chegando cujo sobrenome era Peralta. Eu brincava muito com eles, dizendo que aquilo não podia ser uma agência séria, pois tinha um pirralho saindo e um peralta entrando.

Nas raras horas vagas, entre uma criação e outra, Cleber conversava comigo sobre as eleições no Clube. Ele alegava que o CCRJ era dominado pelo Monserrat (2), que era necessária uma mudança, um novo pensamento, outras direções. Em parte eu até concordava. Apesar de sempre ressaltar que José Monserrat havia conseguido ganhos para os publicitários como a lei de nacionalização dos cartazes de cinema (3). Mas ele contrapunha que o Galvão, seu sucessor era dominado por ele, que o considerava um “ditador”, etc, etc...

O Cleber me convenceu em definitivo porque queria transformar o CCRJ num modelo mais aos moldes do bem sucedido Clube de São Paulo, que tinha sede própria e era rentável. Hoje vejo que aquilo, além de meio impossível, era ilusório. O nosso CCRJ era um clube mais politizado e consciente de seu papel político contra a ditadura.

Conversas daqui e dali, acabou que ele conseguiu reunir um grupo de profissionais da criação (inclusive eu) e formou uma chapa concorrente. Pela primeira vez no Clube haveria duas candidaturas. Criativamente, Cleber denominou a chapa de “Reclame”. Um perfeito duplo sentido entre a denominação inicial de anúncio e de reclamar.

Numa tremenda gozação, o outro grupo criou uma chapa cujo nome era “Vem cá meu bem” (4), chamou o Carlos Pedrosa, um dos profissionais mais queridos e competentes do mercado. Então começou a disputa, através de folhetos, cartazetes, e, claro, propaganda boca a boca nas agências e nos bares mais frequentados por publicitários.

No dia das eleições – ao notar que o Cleber estava um tanto quanto alterado –, conversei com ele antes de sair da agência no sentido de, principalmente manter a calma. O local foi a Churrascaria “Brazão da Torre” (no mesmo lugar onde hoje é o “Porcão” de Ipanema). Eu me lembro que bebi pra dedéu. Aliás, numa dessas todos entornaram de verdade.

Momento da votação. Voto secreto, apuração e uma espetacular vitória da “Vem cá meu bem”. O Cleber foi ficando vermelho, vermelho, vermelho e lá pras tantas explodiu, avançou para cima do Monserrat a querer agredi-lo. Foi um vexame... E, moral da história, como naquela época a oferta era bem maior do que a procura, um mês depois eu estava indo da ITP para a Sinal Propaganda, empresa criada para atender o Banco Nacional.

(1) A ITP (Iglesias, Trindade e Pirralho), uma agência de publicidade que não existe mais, que chegou a ter boas contas, como a Lan Chile entre outras, além de uma boa coleção de prêmios. Chegou a ser uma das mais premiadas do Rio.

(2) José Monserrat Filho, na ocasião diretor de criação da Caio, um dos mais premiados redatores do Rio de Janeiro, também passou por agências como Standard e Denison. Há alguns anos deixou a atividade publicitária, sendo desde então diretor da revista “Ciência Hoje” do Instituto do mesmo nome.

(3) Esta lei obrigava as multinacionais a criar cartazes para todo e qualquer filme a ser exibido no Brasil com artistas tupiniquins. Pena que foi esquecida com o passar do tempo, e o dedo dos honestíssimos congressistas deste pais, com todo o apoio dos militares no poder.

(4) Segundo soube depois o Monserrat e o Cleber tiveram algum tipo de desentendimento no início da gestão do primeiro e ficaram com a relação estremecida. Daí a originalidade e ironia do nome da chapa... e, claro, as "vias de fato" no final.