quinta-feira, julho 02, 2009

Eleições do barulho

O diretor de criação da ITP (1), Cleber Neves, resolveu candidatar-se às eleições do Clube de Criação do Rio de Janeiro. Na ocasião eu era diretor de arte na casa. Cleber era um profissional sério e competente e entrei numa época em que o Pirralho, o “P” de ITP, (também diretor de arte) estava a deixar a sociedade.

Um pequeno parênteses: havia um novo sócio chegando cujo sobrenome era Peralta. Eu brincava muito com eles, dizendo que aquilo não podia ser uma agência séria, pois tinha um pirralho saindo e um peralta entrando.

Nas raras horas vagas, entre uma criação e outra, Cleber conversava comigo sobre as eleições no Clube. Ele alegava que o CCRJ era dominado pelo Monserrat (2), que era necessária uma mudança, um novo pensamento, outras direções. Em parte eu até concordava. Apesar de sempre ressaltar que José Monserrat havia conseguido ganhos para os publicitários como a lei de nacionalização dos cartazes de cinema (3). Mas ele contrapunha que o Galvão, seu sucessor era dominado por ele, que o considerava um “ditador”, etc, etc...

O Cleber me convenceu em definitivo porque queria transformar o CCRJ num modelo mais aos moldes do bem sucedido Clube de São Paulo, que tinha sede própria e era rentável. Hoje vejo que aquilo, além de meio impossível, era ilusório. O nosso CCRJ era um clube mais politizado e consciente de seu papel político contra a ditadura.

Conversas daqui e dali, acabou que ele conseguiu reunir um grupo de profissionais da criação (inclusive eu) e formou uma chapa concorrente. Pela primeira vez no Clube haveria duas candidaturas. Criativamente, Cleber denominou a chapa de “Reclame”. Um perfeito duplo sentido entre a denominação inicial de anúncio e de reclamar.

Numa tremenda gozação, o outro grupo criou uma chapa cujo nome era “Vem cá meu bem” (4), chamou o Carlos Pedrosa, um dos profissionais mais queridos e competentes do mercado. Então começou a disputa, através de folhetos, cartazetes, e, claro, propaganda boca a boca nas agências e nos bares mais frequentados por publicitários.

No dia das eleições – ao notar que o Cleber estava um tanto quanto alterado –, conversei com ele antes de sair da agência no sentido de, principalmente manter a calma. O local foi a Churrascaria “Brazão da Torre” (no mesmo lugar onde hoje é o “Porcão” de Ipanema). Eu me lembro que bebi pra dedéu. Aliás, numa dessas todos entornaram de verdade.

Momento da votação. Voto secreto, apuração e uma espetacular vitória da “Vem cá meu bem”. O Cleber foi ficando vermelho, vermelho, vermelho e lá pras tantas explodiu, avançou para cima do Monserrat a querer agredi-lo. Foi um vexame... E, moral da história, como naquela época a oferta era bem maior do que a procura, um mês depois eu estava indo da ITP para a Sinal Propaganda, empresa criada para atender o Banco Nacional.

(1) A ITP (Iglesias, Trindade e Pirralho), uma agência de publicidade que não existe mais, que chegou a ter boas contas, como a Lan Chile entre outras, além de uma boa coleção de prêmios. Chegou a ser uma das mais premiadas do Rio.

(2) José Monserrat Filho, na ocasião diretor de criação da Caio, um dos mais premiados redatores do Rio de Janeiro, também passou por agências como Standard e Denison. Há alguns anos deixou a atividade publicitária, sendo desde então diretor da revista “Ciência Hoje” do Instituto do mesmo nome.

(3) Esta lei obrigava as multinacionais a criar cartazes para todo e qualquer filme a ser exibido no Brasil com artistas tupiniquins. Pena que foi esquecida com o passar do tempo, e o dedo dos honestíssimos congressistas deste pais, com todo o apoio dos militares no poder.

(4) Segundo soube depois o Monserrat e o Cleber tiveram algum tipo de desentendimento no início da gestão do primeiro e ficaram com a relação estremecida. Daí a originalidade e ironia do nome da chapa... e, claro, as "vias de fato" no final.

14 comentários:

redatozim disse...

O CCPMG durou 4 ou 5 anos e não teve sequer uma briga digna de nota. Um vexame.

Jonga Olivieri disse...

Não sabia que o CCPMG havia terminado!
Participei como jurado em duas edições dos Anuários. Aliás, de dar banho nos do Rio.
Mas o quê que houve? O Donald desistiu e o Mickey não o substituiu?

Anônimo disse...

Me lembro dessas eleicoes porque ainda estava no Rio. Ainda longe de vir para New York (Isso aconreceu em 1978 ou 79).
Lembro que o Toninho Lima levantou da cadeira e gritou: Montserrat voce e um ditador! E sentou-se bruscamante com uma expressao meio apatetada.
Sei disso porque estava perto dele.

Anonymous
New York

Jonga Olivieri disse...

Toninho era um dos membros da chapa Reclame.

Anônimo disse...

Eu estava lá também.
Mas não vi esta parte da porrada.
Deve ter sido uma coisa muito escrota!
Ernani

Jonga Olivieri disse...

Ainda bem que nem eu vi este momento. Creio que a "turma do deixa disso" chegou logo e apartou a briga.
Foi-me contado logo a deguir por uma amigo que presenciou a cena inteira.

anita disse...

Que coisa horrorosa. Fiquei chocada com este Caso de que nunca ouvira falar
Mas como eu devia ser uma garotinha naquele tempo.

Jonga Olivieri disse...

Talvez você nem tivesse nascido. Isto foi em 1978...

Anônimo disse...

Conheci esse Kleber Neves de Araújo. O cara era doido de pedra. Ainda tá vivo?

Jonga Olivieri disse...

Olha ò Anônimo, eu também não sei do paradeiro do Cleber (acho que é com "cê").
Quem souber avise!

Anônimo disse...

Mas afinal era uma eleição para presidente do clube de Criação ou uma exibição de luta livre?

Cantídio Tarsitano

Jonga Olivieri disse...

Podia ser uma luta de boxe... Quem sabe?

Anônimo disse...

Uma vitória espetacular do Monserrat. E a reação baixíssima de um baixinho. Em todos os sentidos.
Anselmo

Jonga Olivieri disse...

Dá pena mesmo!