quarta-feira, setembro 30, 2009

O “caso” do Barão (Republicação)

Para finalizar esta comemoração de aniversário com várias republicações (de agora em diante será uma por mês), vou postar este “caso” (1) de um dos redatores mais criativos e inteligentes que conheci. E, antes de mais nada, um bom copo.

Minas Gerais me abrigou por quatro anos (2). Foram anos em que, sem dúvida, fiz grandes amigos. Amigos como o Luis Márcio Vianna, o Sérgio Torres, o Roberto Quintas (Boca), a Lucinha Lobo, o Newton Silva, o Juninho, a Claudinha, o Cid, o Maurilo, a Katia Becho e tantos, mas tantos outros. Até hoje, quando volto por aquelas montanhas encantadas, tenho que reunir a moçada toda num almoço festivo, geralmente no Minas I, ou no Dona Lucinha (putz, a comida do Dona Lucinha!) para poder matar a saudade de todos eles ao mesmo tempo. Senão, não dá tempo.

Mas tem um redator que eu conhecí nas Gerais, uma figura inesquecível, marcante mesmo, que é o Jackson Drummond Zuim. Ou simplesmente Zuim, como é conhecido.

Zuim tem uma característica ímpar. É extremamente sincero. Claro, além de ser um dos melhores redatores que eu conheci, é tambem, como todo bom mineiro um senhor papo e um puta levantador de copos. Além disso, tem a particularidade de chamar todo mundo de barão. Você está num papo com ele, e ele vira pra você e diz: "ô barão, o negócio é o seguinte..." E vai por aí afora.

Quando fui eleito presidente do Clube de Criação de Minas, dividi a presidência com o Zuim. Criamos a "Zorra da Criação", que eram encontros nas agências, bancados por elas. Detalhe: toda agência mineira que se preze tem que ter uma boa cozinha, algumas com fogão de lenha, outras com churrasqueira ou coisa similar, e muito, muito chope.

As reuniões semanais da diretoria do Clube eram feitas nos bares da vida. Muitas vezes chegava em casa já amanhecendo. Por isso eram quase sempre feitas às sextas.

Mas tinha uma conta em Minas que era dose. Chamava-se Credireal. Porque era dose? Olha, era aquele banco estatal com cara de Ministério da Transilvânia. Tinha até sua "momenklatura" interna. Formalidade, cerimônia. Paúra mesmo. Quando você andava nos corredores sombrios sentia o peso da atmosfera reinante. Dava arrepios. A diretoria tinha uma idade limite: não aceitava membros com menos de 80 anos. E eu sei disso porque atendi a conta. Quando era diretor de criação na ASA tive que apresentar uma campanha lá. O negócio foi todo ensaiado na agência. Quem falava e quando. Mesmo assim eu tremia.

Agora, tem um caso do Zuim que realmente deve passar pra história da propaganda. Não só da mineira, em que ela já está devidamente registrada, mas de toda a nossa propaganda. Vale ressaltar aqui que este caso eu não presenciei, até porque ele aconteceu antes da minha chegada em Minas. Mas é fato corrente. Conversa nos bares.

Conta a lenda que Zuim foi certa vez apresentar junto com a equipe da agência uma campanha no Credireal. Ali, na mesa de reunião (daquelas longas que chegam a ter linha do horizonte) estava reunido todo o estafe da agência e a dita "momenklatura" do politbureau do banco. E, conversa vai, conversa vem, lá pras tantas o presidente do banco pede a palavra. Todos se viram para ele. O ancião começa a tecer comentários sobre a campanha. E a cair de pau, coisa que era, aliás, sempre comum por ali. E o Zuim, autor da ideia, quietinho no seu canto, caladinho, se mordendo. De repente, surge aquela cabeça que se projeta para a frente, levanta o dedo como que pedindo um aparte na sala de aula de uma escola inglesa. O presidente se cala. As atenções voltam-se para o Zuim, e ele pausadamente com seu vozeirão de baixo diz: "ô barão... isso aí não é bem o que você está pensando não, tá!"

Dá para imaginar o reboliço que foi. Bom. Quem conheceu o Credireal sabe. E, sem dúvida, foi uma atitude ousada e memorável dessa personalidade histórica que é o Jackson Drummond Zuim . O "barão".

(1) Publicado em agosto de 2006.

(2) Trabalhei em Minas nos períodos de 1985 a 1988 e 1999 a 2000. Este caso aconteceu no primeiro.

Nota ao pé da página: que eu saiba o Zuim não anda bem de saúde. Operou-se, está sem a sua famosa voz. Em suma, ontem ainda tentei saber notícias novas dele, mas não consegui. Espero que esteja a se recuperar, melhorar mesmo. São os meus votos mais sinceros.

terça-feira, setembro 29, 2009

O "caso" do disco (Republicação)

Até porque nesta semana o Ivan entrou como meu seguidor no twitter, eu achei que valia a pena republicar este “caso” escrito em 1999 e publicado neste blogue em 2 de outubro de 2006.

Foi numa daquelas tantas e incontáveis viradas dos tempos de L&M. Carlinhos Chagas e eu jantando no Paisano (restaurante de massas que já não existe mais), em plena Avenida Rio Branco. Aliás, muitas vezes íamos lá. Era um restaurante bom e barato.

Deviam ser umas nove e meia, mais ou menos. De repente, ao nosso lado, o Ivan Lins e o Mariozinho Rocha. A gente conhecia muito o Ivan por causa da Zurana, uma produtora de jingles que era dele com o Tavito e o Paulo Sérgio Vale. Um dia eu perguntei ao Tavito o porque de Zurana. E ele respondeu que a origem do nome era "um bando de zuretas a fim de grana".

Mas estavam os dois lá, e quando íamos sair, passando pela mesa deles, começamos a conversar. O assunto, claro, a esta altura era trabalho. Nós contando que estávamos numa virada doida, mas que o trabalho já estava alinhavado. Que, se de repente, a gente acabasse na manhã seguinte, tudo bem. Tínhamos adiantado bastante. Daí eles emendaram que também estavam numa virada, mas que era por causa do novo disco do Ivan. E ele, Ivan, se encontrava realmente entusiasmado com a história. O disco era uma guinada na carreira artística dele e por aí afora.

Convidaram a gente para ouvir o disco.

Seguinte: a Odeon, ou melhor o estúdio da Odeon, naquela ocasião era no prédio bem em cima do Paisano. Nós acabamos optando por subir e ouvir o disco, deixando definitivamente o restante que tínhamos da campanha para a manhã seguinte.

Quando chegamos lá em cima, o Ivan ainda confessou para nós, que fora a equipe artística e técnica envolvida com o disco, nós seríamos os primeiros a ouvir a referida obra. E foi realmente do cacete e muito emocionante a gente ter ouvido em primeiríssima mão todas as faixas de "Somos todos iguais esta noite".

Aliás, até hoje quando escuto alguma música daquele disco, lembro-me daquele dia. Parece que foi ontem.

domingo, setembro 27, 2009

O "caso" da modelo estreante (Republicação)

Mais um “caso” interessante. Este foi publicado em setembro de 2006, mas se refere a acontecimentos de dezembro de 1983.

Quando eu trabalhava na Provarejo (leia-se Grupo Mesbla), fui dirigir uma foto para a chamada Linha Branca.

Na verdade, o anúncio ‘Linha Branca’ era um página dupla veiculado todos os anos pelo Magazine Mesbla na primeira contra capa e na página ao lado da revista Veja. Uma senhora colocação. Também um senhor problema, porque a contra capa era impressa em processo diferente da primeira página, além do que em papéis também diferentes. Isso sempre dava uma diferença brutal nas cores, na textura. Detalhes de uma profissão cheia deles.

O anúncio tinha esta denominação porque era composto de várias modelos – quase sempre eram só mulheres – todas vestidas de branco. A veiculação era na última edição do ano da revista, e, portanto as modelos sugeriam um clima de passagem de ano.

O layout que eu apresentara e fora aprovado tinha umas seis modelos, todas com taça de champanhe na mão. As cores ficavam por conta de serpentinas e confetes caindo, compondo um ambiente, cujo fundo de um azulado mais escuro realçava a cor branca das roupas. Essas, o produto. A razão de ser do anúncio.

Cheguei mais cedo no estúdio, que era em Santa Teresa. E, com o fotógrafo, começamos a adiantar o cenário e outros detalhes, como luz, angulação etc. Além de acomodar a maquiadora, a produtora.

Sempre pensei o quanto as pessoas não sabem o trabalho que dá produzir uma foto, por mais simples que possa parecer.

Lá para as tantas, começaram a chegar as modelos. Conhecia algumas, como a Elzinha, que na época era casada com o filho do Clício Barroso, por acaso também Clício, e era então uma super badalada modelo. Havia outras que eu conhecia de fotos ou de catálogos de agências. Porém, algumas nem isso. Era gente nova mesmo.

Uma dessas me chamou uma atenção especial. Era linda. Devia ter uns vinte aninhos, se tanto. Um rostinho vivo. E um corpo que sai da frente. Estava mais para uma ilustração do Benício do que para algo real. Um sonho de menina. Além do mais, a roupa que ‘caiu’ para ela era extremamente sensual.

Durante os preparativos a gente vai conversando, descontraindo, trocando idéias. Normalmente o diretor de arte tem que passar para as modelos o que quer delas, o clima da foto, etc. E tentar deixá-las bem à vontade para poderem render o máximo na hora do clique.

Em determinado momento estava eu conversando com a tal lindézima criatura descrita acima. Perguntei o nome dela. Antes de qualquer coisa ela disse:

- Eu sou irmã da Ísis de Oliveira... Conhece?

Claro que eu conhecia. Naquela época, a Ísis era atriz badalada, e estava na crista da onda.

- Estou começando agora nesta profissão... Acrescentou timidamente, desviando o olhar para os lados. Ai, que coisa mais linda! E continuou:

- ... O meu nome é Luma.

Não sei se foi aquela a sua estréia como modelo, mas, tenho certeza de que foi uma das primeiras vezes que pousou.

terça-feira, setembro 22, 2009

O “caso” da estagiária (Republicação)

Agência grande tem alguns probleminhas. Um deles é a quantidade de estagiários que pintam. Vá lá, quando o dito cujo tem talento, é bom. Quando não tem, é um saco só de ficar imaginando que aquela figura vai ficar pelo menos uma semana na sua sala, e você terá que aturar; porque afinal de contas, geralmente são filhinhos de clientes importantes.

Na Salles era assim. Os mais de dois anos que passei naquela agência, posso contar nos dedos os dias em que ficamos sem um estagiário na sala. Havia aqueles que somavam. O Valois foi um exemplo. Ganhamos até um prêmio com um anúncio para a Souza Cruz. Posteriormente chegamos a formar uma dupla em outra agência.

A Bebel, sobrinha do Mauro Salles, foi outro exemplo de uma estagiária motivada. Tanto que anos depois, tive uma reunião na Mesbla Móveis e ela estava lá, como diretora de marketing.

Mas tinham as garotinhas vazias, que às vezes salvavam-se por serem pelo menos um colírio para os olhos. E pior, os garotinhos mimados, que nem isso eram.

Um dia surgiu a Beth. Uma graça de estagiária. Ao mesmo tempo, revelou-se logo excelente. Participativa, curiosa, produtiva. Tudo na medida certa, sabendo o seu lugar na engrenagem. Ficou uma semana conosco.

Lá pela metade de sua estadia, fiquei sabendo uma coisa sensacional. Ela era filha de Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. Isso mesmo: filha do Tom Jobim... Vê se pode !?

Num desses dias em que passou na nossa sala, a Beth foi almoçar conosco. Eu não aguentei, virei pra ela e disse:

- Olha Beth... Você está fazendo estágio com a gente... Tudo bem... Mas, na verdade eu vou lhe pedir uma coisa... Será que você se importa?

Fiz uma breve pausa, respirei fundo e continuei:

- Posso colocar isso no meu currículo?

sábado, setembro 19, 2009

Revivendo o "Almoço com as Estrelas"


Este anúncio foi criado pelo Sergio Torres e por mim, como convite para o “Almoço com as Estrelas” realizado em 1999.

A narrativa abaixo (com pequenos retoques) havia anteriormente sido publicada neste blogue em outubro de 2006.

..............................................................................

A coisa começou em 1985, quando toda sexta feira a turma da criação da ASA, e o Luis Márcio Vianna, o diretor de planejamento da agência, fazíamos um "rega bofe" daqueles. Saiamos na hora do almoço, escolhíamos um restaurante em Beagá, e lá íamos nós. Geralmente, voltávamos todos um pouquinho "altos" lá pelas três ou quatro da tarde, nem que isso implicasse em que trabalhássemos um pouquinho mais naqueles dias.

O programa, não só tornou-se um hábito, como também, pelo fato de Belo Horizonte ser uma cidade rica em bons restaurantes, transformou-se numa farra gastro-etílica. Somente para citar alguns, o Dona Lucinha, o Minas I e o Minas II (estes do clube do mesmo nome), o Alpino, o Chez Bastião, o saudoso Germânia, etc, etc.

Mas, o negócio é que a coisa foi se espalhando. No final de um certo tempo ia não somente a turma da ASA, como também da Livre, da Setembro, da DNA, da JMM e muitas outras agências. Tornou-se um encontro semanal de publicitários, um acontecimento. O mais notável é que eu deixei a direção de criação da ASA e assumi a da Livre mas a coisa continuou. Cada vez mais repleta de gente. Até optamos em definitivo pelo Minas I, porque era um restaurante grande, tinha um excelente buffet, e dava para juntar diversas e grandes mesas.

Nessa ocasião, a Gláucia, que havia sido tráfego na ASA, foi para o Jornal de Domingo, um semanário de Belo Horizonte, onde escrevia a coluna publicitária. Ela, então, batizou o encontro (com certa ironia) de “Almoço com as Estrelas”.

Saí de Belô e voltei para o Rio. Mas, acontece que quando ia lá, de férias ou a trabalho, a gente dava um jeito de se encontrar. Rapidamente o Luis Márcio, ou o Sérgio Torres acionavam a turma e lá estávamos nós. Desta feita em jantares.

Voltei para aquela cidade em 1999. Fizemos um primeiro (também um jantar), e foi gente pra dedéu. O Minas ficou repleto de publicitários. Pra mais de 40, com certeza. Já no ano seguinte foram apenas cinco pessoas: Luis Márcio Vianna, Tonico Mercador, Paulo Giordano, Hermínio Naddeo e eu. Pelo menos, bebemos todas, comemos bem pra cacete e nos divertimos. Até ver estrelas.

quinta-feira, setembro 17, 2009

O futuro já é

Da esquerda para a direita: PV (web), Joana Lopes (atendimento), Milla Rodrigues (direção de arte), Carol Carrinho (mídias digitais), Bruno Magalhães (web), Rodrigo Roussoulieres (vídeo-imagens), Flávio Campos (atendimento), Priscila Maia (produção)
..................................................................

Estava eu na Adega Pérola onde fui tirar umas fotos para o blogue do professor Setaro (link ao lado), quando, ao tomar um chopinho, acabo escutando o papo da mesa à minha frente. Inevitável. Ainda mais porque começaram a tocar em assuntos que me pareciam familiares, do tipo agência, mídia, atendimento, etc.

Bom, meus ouvidos ficaram mais atentos. De repente me passou pela cabeça que aquela turma era de estudantes de comunicação, ou até de publicitários. A segunda hipótese venceu, apesar de todos serem muitos jovens. O que certamente não afastava a outra.

Após tirar as fotos do bar, falei com eles e me apresentei. Em instantes parecia que os conhecia há tempos. Tirei uma foto (1) que publico neste blogue e logo que cheguei em casa acessei o portal da agência em que trabalham (2) onde se encontram notícias, vídeos e uma revista chamada “Comunicação 360º”. Vale a pena conhecer.

Sai feliz daquele encontro. Pois certamente o que me entusiasma é olhar para o novo com olhos novos sabendo que o futuro chegou. Sempre se aprende um pouco mais com isso.

(1) Gente, desculpe se errei alguém, mas de ontem para cá...

(2) O acesso ao site é http://www.nosdacomunicacao.com/

segunda-feira, setembro 14, 2009

O “caso” da bruxa (Republicação)

Continuando a postar “casos” mais antigos, segue este que considero memorável. E é uma homenagem que faço a um dos maiores criativos e empresários de publicidade que conheci. Além de excelente pianista.

Quem me contou esta foi o saudoso Daniel de Freitas, um dos sócios da DNA, durante um jantar em Belo Horizonte, na última vez em que trabalhei naquela cidade entre abril de 1999 e setembro de 2000.

Estava ele uma noite, num bar, quando notou que seus charutos haviam acabado. Daniel que não passava sem um bom cubano, pegou o telefone, e ligou para a agência, que não estava muito longe. Atendeu o vigia. O Daniel pediu a ele que procurasse uma caixa de charutos que estava na gaveta de sua mesa, pegasse uns três ou quatro, e levasse para ele.

Continuou no papo, no uísque, e o tempo foi passando.

Após uma longa e “paciente” espera, voltou a ligar pro cara. Ele atendeu e o Daniel perguntou por que não havia chegado até aquele momento.

“Ih, Seu Daniel! Eu achei os seus charutos... eu peguei os seus charutos... eu desci com os seus charutos... mas acontece, que quando eu cheguei na rua... vinham duas bruxas andando na minha direção, e... eu... bom... eu voltei pra agência... e tô com medo até agora...” disse o zelador com a voz trêmula.

Era noite de Halloween.

terça-feira, setembro 08, 2009

Uma edição histórica... 20 anos depois

Clique na foto para ampliá-la
...............................................................................

Quando republiquei “O ‘caso’ do leão”, deu-me vontade de editar a foto de que falava na narrativa E foi o que fiz. Pois bem, daí em diante fui acometido de um irresistível impulso de publicar a capa daquele número, que é do Cristóvão, juntamente comigo, um dos editores gráficos.
Finalmente, resumir quem escreveu naquela edição que vale a pena lembrar, sem dúvida uma das mais completas que o CCRJ publicou nesses mais de 35 anos de existência.
Podemos começar pelo próprio Mauro Matos, na ocasião o presidente do Clube. Mas seguem (em ordem de publicação por página): Barbara Santusa, Henrique Meyer, Pauline Luise Milek, Antônio Torres, Lula Vireira, Lauro Escorel, Ulisses Tavares, Heloisa Daddario, Cândida Monteiro, Tutty Vasques, Eleonora V. Vorsky (leia-se Alexandre Machado), Adilson Xavier, Fábio Fernandes, Hayle Gadelha, Lucia Rito, Helena Lopes, Wanderley Dóro, Karin Sá Rego, João Bosco, Pamela Jean Croitorou, Toninho Lima, Arnaldo Rozencwaig, Carlos Chagas, Carlos Pedrosa, Cláudio Sendin, Fábio Siqueira, Gustavo Bastos, Paulo Brandão, Ronaldo Conde e Maria Célia Salgado.

segunda-feira, setembro 07, 2009

O “caso” do leão (Republicação)


Página (está virada) que reuniu o pessoal que foi a Cannes em 1989,
e que trouxe apenas um Leão, criação de Eduardo Martins
e Karin Sá Rego (o penúltimo e a última da esquerda para a direita)
Clique na foto para ampliá-la
...............................................
Resolvi continuar a republicação de alguns “casos” mais antigos deste blogue neste mês – a comemorar seu aniversário – com este, escrito em abril de 1997, e publicado no Blue Bus (no mesmo ano), no Jornal do CCRJ em 1998 e aqui em agosto de 2006.

Foi quando a gente ia publicar o Jornal do Clube, lá pelos idos de 89. Mauro Mattos era o presidente. O Cristóvão e eu tínhamos peitado a parte gráfica, junto com a Maria Célia. Era um corre-corre danado. Reuniões de pauta. Reuniões para diagramação. Naquele tempo ainda não tinha Macintosh aqui pelas bandas do Rio. Toninho Lima, o Zé Gui, e tantos outros - se eu fosse citar um por um ia encher a página só com eles - todos envolvidos naquele desafio. “Vamos botar o jornal na rua. Ele tem que sair, ele tem que sair!” Bom, ele saiu. Aliás, pra quem não conheceu, um senhor número! Tamanhão tablóide, muita matéria, entrevistas polêmicas. E um trabalho do cão... ou do leão.

Um belo dia, me liga o Henrique Meyer. “Jonga. Pra fechar o jornal... tá quase tudo pronto... só falta fazer uma foto com o pessoal que foi a Cannes.” Resumindo, a foto ia ser no Hamdam na noite daquele mesmo dia.

Lá pelas oito eu cheguei no estúdio do Hamdam. Aquela animação. “O jornal tá quase pronto, - era o comentário geral - vamos ver se na semana que vem a gente está estourando com ele nas agências.” Um puta dum clima.

Começou a chegar o pessoal pra foto. Era a turma carioca que tinha ido a Cannes. Eduardo Martins, João Bosco, Fábio Fernandes. No meio, como figuração, a Luciana Vendramini. De repente o Henrique solta aquela: “Tá faltando o convidado mais importante da foto.” Quem será o convidado mais importante? Pensei eu com meus botões. Mas, papo vai, papo vem a gente esqueceu isso. Comecei a conjecturar com o Hamdam, qual seria a melhor maneira para fazer o Anuário do Clube. Como viabilizar essa tarefa hercúlea e até então inédita. Foi um papo longo.

De repente o Henrique anuncia com um sorriso de um lado ao outro do rosto que o convidado mais importante acabara de chegar. Olhei na direção da porta e eis que vejo surgir um leão. Mas olha gentem, não era aquele leão brocha dos comerciais do Imposto de renda não! Não era aquele leão velho, pulguento, sonolento que a gente estava acostumado a ver por aí. Era um leão de verdade, em carne, osso e mandíbulas. Um leão jovem, cheio de tesão e babante. Olhar fixo, persistente. Um leão de arrepiar.

- Não se apavorem. Tudo bem - disse o Henrique firmemente - o leão tem um domador ao seu lado. Ele é obediente. Fiquem calmos.

A essa altura, sentia minhas pernas bambearem e pensava o que eu, que tinha medo de cachorro estava fazendo por aquelas bandas. É a mesma sensação de quando a gente está subindo na montanha russa, antes daquela primeira queda brusca.

Fiquei atrás do bar. Pelo menos tinha a ilusão de que ali havia uma parede divisória entre mim e aquela fera assassina. E olha que ela, a fera, no seu instinto realmente selvagem chegou a morder a calça de couro da Lúcia Ritto, segundo o seu domador porque ela era de couro de animal africano ou coisa que o valha. Fato que não aconteceu com a Karin que estava com uma de couro artificial.

- E quando começarem os flashes? Fiz esta pergunta ao Hamdam num determinado momento de lucidez. Meu medo era aquele bicho enlouquecer, desbundar numa overdose de luzes pipocantes.

No final da fita, entre mortos e feridos salvaram-se todos, suados, descabelados. Só respirei quando o leão finalmente cruzou a porta e eu ainda esperei um bom tempo pra colocar o pé no elevador e me mandar, para acabar uma história que, literalmente, foi dose pra leão.

Texto na legenda abaixo da foto: “Fotógrafo: Hamdam – Produção do leão: Hyran Guarino – Diretor de Arte: Jonga Olivieri – Criação: Henrique Meyer – Leão: Magno – Domador do Magno: Demétrio – Domadora do Demétrio: Tânia Mara Parra – Nariz de Porco – Adereço de cena: Luciana Vendramini”

terça-feira, setembro 01, 2009

O “caso” do Nelson Rodrigues (Republicação)

“Casos” da Propaganda está não ar desde agosto de 2006. Nada melhor para festejar todos estes anos com este texto, publicado originalmente no Jornal do Clube de Criação do Rio de Janeiro (CCRJ) em 1998 e que foi também o primeiro “caso” postado aqui, no dia 24/08/2006. Um bom momento para relembrá-lo.

A campanha de TV do Banco Nacional naquele ano de 1979 ficou inédita. Quer dizer, na verdade entrou no ar uma colcha de retalhos com cenas – nada inéditas, se bem que inesquecíveis – de filmes que marcaram época na história do banco. Até aí tudo bem. Afinal era uma campanha de aniversário e o que foi pro ar não deixou a gente envergonhado, não. Mas é que a campanha original, a que o Favilla e eu tinhamos bolado era simplesmente do caralho. Tinha depoimentos de pessoas que estiveram de alguma forma envolvidas com um banco que sempre apoiou a cultura, os esportes, etc. Entre elas João Saldanha, Grande Otelo e Nelson Rodrigues. E com um detalhe: a gente produziu parte da campanha em vídeo para mostrar ao cliente.

A gravação do Grande Otelo, por exemplo, foi tão emocionante que deixou gente chorando e arrepiada. Foi desses momentos inesquecíveis. A do Saldanha teve uma característica marcante que foi o seu cronômetro mental. A gente dizia fala aí 10 segundos e ele falava 10 segundos. Depois a gente pedia para ele falar 35 segundos e ele falava os 35 segundos. Cravados. Foi uma coisa fantástica.
Mas o melhor mesmo foi o dia em que nós fomos fazer o vídeo com o Nelson Rodrigues. Foi tudo marcado no apartamento dele lá no Leme. Chegamos pontualmente na hora marcada. Aquele clima de se estar na casa de um gênio era uma coisa emocionante. Entramos e lá estava o dito cujo sentadão numa poltrona, com aquela voz que ninguém igualou até hoje. Aquele falar compassado, aquele tom cavernoso. O pessoal da produtora montando toda a parafernália de som e luz. Um puta dum reboliço no ar.

De repente Nelson, o próprio, o dito cujo, himself, diz que queria ver o texto do comercial. E ele enfiou a cara no texto. Leu, releu, parou, olhou em todas as direções e perguntou: “De quem é esse texto?”. Favilla levantou-se e encaminhou-se à mesa da sala de jantar, onde o mestre estava sentado. Humildemente, tal qual fosse um aluno na sala de aula levantou o dedo e disse que era dele. Ele virou-se lentamente na sua direção e retrucou: “Esse texto tem um problema grave...”. – Todos gelaram, atônitos. – “...Nelson Rodrigues não é um dos maiores autores de teatro do Brasil... Nelson Rodrigues é o maior autor de teatro do Brasil!”. Finalizou, olhando em torno com ar desafiante. Foi um tal de conserta daqui, pigarreia dali, até que o silêncio instalou-se por alguns infindáveis segundos na sala.
O que se seguiu foi um tentar desfazer o que se tinha feito, um jogar panos quentes, uma sucessão de sorrisos amarelos, “não é nada disso” e por aí afora. E a gente vendo a hora do cara falar “não ga-ra-vo” no melhor estilo Alberto Roberto. O que afinal de contas e graças a deus, ou sei lá o quê, acabou não acontecendo. Uf!

Bom, a verdade é que o comercial foi gravado e ficou supimpa. Como aliás ficou toda aquela campanha que acabou não saindo. Well, as a matter of fact eu sei lá quantas campanhas do cacete a gente cria e não vão para o ar. Faz parte da vida da gente. A Y&R tem até uma premiação interna em Nova Iorque para esse tipo de trabalho. Mas a verdade é que dói quando eu me lembro desta inédita na minha vida. E na do Favilla, do Eugênio e sua produtora. Enfim... Coisas da propaganda.