quarta-feira, setembro 30, 2009

O “caso” do Barão (Republicação)

Para finalizar esta comemoração de aniversário com várias republicações (de agora em diante será uma por mês), vou postar este “caso” (1) de um dos redatores mais criativos e inteligentes que conheci. E, antes de mais nada, um bom copo.

Minas Gerais me abrigou por quatro anos (2). Foram anos em que, sem dúvida, fiz grandes amigos. Amigos como o Luis Márcio Vianna, o Sérgio Torres, o Roberto Quintas (Boca), a Lucinha Lobo, o Newton Silva, o Juninho, a Claudinha, o Cid, o Maurilo, a Katia Becho e tantos, mas tantos outros. Até hoje, quando volto por aquelas montanhas encantadas, tenho que reunir a moçada toda num almoço festivo, geralmente no Minas I, ou no Dona Lucinha (putz, a comida do Dona Lucinha!) para poder matar a saudade de todos eles ao mesmo tempo. Senão, não dá tempo.

Mas tem um redator que eu conhecí nas Gerais, uma figura inesquecível, marcante mesmo, que é o Jackson Drummond Zuim. Ou simplesmente Zuim, como é conhecido.

Zuim tem uma característica ímpar. É extremamente sincero. Claro, além de ser um dos melhores redatores que eu conheci, é tambem, como todo bom mineiro um senhor papo e um puta levantador de copos. Além disso, tem a particularidade de chamar todo mundo de barão. Você está num papo com ele, e ele vira pra você e diz: "ô barão, o negócio é o seguinte..." E vai por aí afora.

Quando fui eleito presidente do Clube de Criação de Minas, dividi a presidência com o Zuim. Criamos a "Zorra da Criação", que eram encontros nas agências, bancados por elas. Detalhe: toda agência mineira que se preze tem que ter uma boa cozinha, algumas com fogão de lenha, outras com churrasqueira ou coisa similar, e muito, muito chope.

As reuniões semanais da diretoria do Clube eram feitas nos bares da vida. Muitas vezes chegava em casa já amanhecendo. Por isso eram quase sempre feitas às sextas.

Mas tinha uma conta em Minas que era dose. Chamava-se Credireal. Porque era dose? Olha, era aquele banco estatal com cara de Ministério da Transilvânia. Tinha até sua "momenklatura" interna. Formalidade, cerimônia. Paúra mesmo. Quando você andava nos corredores sombrios sentia o peso da atmosfera reinante. Dava arrepios. A diretoria tinha uma idade limite: não aceitava membros com menos de 80 anos. E eu sei disso porque atendi a conta. Quando era diretor de criação na ASA tive que apresentar uma campanha lá. O negócio foi todo ensaiado na agência. Quem falava e quando. Mesmo assim eu tremia.

Agora, tem um caso do Zuim que realmente deve passar pra história da propaganda. Não só da mineira, em que ela já está devidamente registrada, mas de toda a nossa propaganda. Vale ressaltar aqui que este caso eu não presenciei, até porque ele aconteceu antes da minha chegada em Minas. Mas é fato corrente. Conversa nos bares.

Conta a lenda que Zuim foi certa vez apresentar junto com a equipe da agência uma campanha no Credireal. Ali, na mesa de reunião (daquelas longas que chegam a ter linha do horizonte) estava reunido todo o estafe da agência e a dita "momenklatura" do politbureau do banco. E, conversa vai, conversa vem, lá pras tantas o presidente do banco pede a palavra. Todos se viram para ele. O ancião começa a tecer comentários sobre a campanha. E a cair de pau, coisa que era, aliás, sempre comum por ali. E o Zuim, autor da ideia, quietinho no seu canto, caladinho, se mordendo. De repente, surge aquela cabeça que se projeta para a frente, levanta o dedo como que pedindo um aparte na sala de aula de uma escola inglesa. O presidente se cala. As atenções voltam-se para o Zuim, e ele pausadamente com seu vozeirão de baixo diz: "ô barão... isso aí não é bem o que você está pensando não, tá!"

Dá para imaginar o reboliço que foi. Bom. Quem conheceu o Credireal sabe. E, sem dúvida, foi uma atitude ousada e memorável dessa personalidade histórica que é o Jackson Drummond Zuim . O "barão".

(1) Publicado em agosto de 2006.

(2) Trabalhei em Minas nos períodos de 1985 a 1988 e 1999 a 2000. Este caso aconteceu no primeiro.

Nota ao pé da página: que eu saiba o Zuim não anda bem de saúde. Operou-se, está sem a sua famosa voz. Em suma, ontem ainda tentei saber notícias novas dele, mas não consegui. Espero que esteja a se recuperar, melhorar mesmo. São os meus votos mais sinceros.

16 comentários:

redatozim disse...

Zuim, o homem, o mito, a lenda.

Jonga Olivieri disse...

Disse tudo.
O Zuim, por vezes inacreditável.
Mas, gênios são assim.

Popeye disse...

Gostaria de ter conhecido alguém tão engraçado assim. E o melhor é que além de tudo é inteligente.

Jonga Olivieri disse...

O Zuim era divertido por si só.
Digo com isso que certas reações ou comentários dele saiam de uma forma que não se esperava.
O que tornava surpreendente.

Anita disse...

Fechou o mês de aniversário com um causo muito bom.
Gostaria de conhecer este Zuim. Que sobrenome! Parece mais um apelido.

Anônimo disse...

Me deixou preocupado a saúde do Jackson Zuim.
O fato de estar sem a sua voz (baixo) também entristece e preocupa. O que houve com a sua garganta?
Olha, a cabecinha saindo numa mesa enorme cheia de "burrocratas" é impagável. Parece mais comédia com o Peter Sellers ou Jewrry Lewis
Salviano

Leonardo disse...

Que coisa o Credireal. Tenebroso

Jonga Olivieri disse...

É rewalmente um sobrenome curioso...

Jonga Olivieri disse...

Ao que parece ele está bem. Ou melhor dizendo não piorou.

Jonga Olivieri disse...

Parecia mesmo um filme de terror... Tenebroso!

Anônimo disse...

Um personagem digno de registro. Porque não tenta colocar o currículo dele na coluna do Marcio Erlich?

Jonga Olivieri disse...

Vou falar com o Márcio. Mas antes disso tenho que conseguir o currículo do Zuim...

Anônimo disse...

Figuraça.
Otávio

Jonga Olivieri disse...

E põe figuraça nisso, meu!

Rodrigo Moreira - BH disse...

Jonga, triste notícia, o Zuim faleceu hoje, após um período ruim, com câncer e tal. Fica a memória e a saudade dessa grande figura. Agora, ele tá rindo da gente no céu...

Jonga Olivieri disse...

Caro Rodrigo. Apesar de saber da doença do Zuim, me entristeceu muito a notícia. Afinal, quem o conheceu sabe o seu valor como profissional e ser humano...