terça-feira, setembro 01, 2009

O “caso” do Nelson Rodrigues (Republicação)

“Casos” da Propaganda está não ar desde agosto de 2006. Nada melhor para festejar todos estes anos com este texto, publicado originalmente no Jornal do Clube de Criação do Rio de Janeiro (CCRJ) em 1998 e que foi também o primeiro “caso” postado aqui, no dia 24/08/2006. Um bom momento para relembrá-lo.

A campanha de TV do Banco Nacional naquele ano de 1979 ficou inédita. Quer dizer, na verdade entrou no ar uma colcha de retalhos com cenas – nada inéditas, se bem que inesquecíveis – de filmes que marcaram época na história do banco. Até aí tudo bem. Afinal era uma campanha de aniversário e o que foi pro ar não deixou a gente envergonhado, não. Mas é que a campanha original, a que o Favilla e eu tinhamos bolado era simplesmente do caralho. Tinha depoimentos de pessoas que estiveram de alguma forma envolvidas com um banco que sempre apoiou a cultura, os esportes, etc. Entre elas João Saldanha, Grande Otelo e Nelson Rodrigues. E com um detalhe: a gente produziu parte da campanha em vídeo para mostrar ao cliente.

A gravação do Grande Otelo, por exemplo, foi tão emocionante que deixou gente chorando e arrepiada. Foi desses momentos inesquecíveis. A do Saldanha teve uma característica marcante que foi o seu cronômetro mental. A gente dizia fala aí 10 segundos e ele falava 10 segundos. Depois a gente pedia para ele falar 35 segundos e ele falava os 35 segundos. Cravados. Foi uma coisa fantástica.
Mas o melhor mesmo foi o dia em que nós fomos fazer o vídeo com o Nelson Rodrigues. Foi tudo marcado no apartamento dele lá no Leme. Chegamos pontualmente na hora marcada. Aquele clima de se estar na casa de um gênio era uma coisa emocionante. Entramos e lá estava o dito cujo sentadão numa poltrona, com aquela voz que ninguém igualou até hoje. Aquele falar compassado, aquele tom cavernoso. O pessoal da produtora montando toda a parafernália de som e luz. Um puta dum reboliço no ar.

De repente Nelson, o próprio, o dito cujo, himself, diz que queria ver o texto do comercial. E ele enfiou a cara no texto. Leu, releu, parou, olhou em todas as direções e perguntou: “De quem é esse texto?”. Favilla levantou-se e encaminhou-se à mesa da sala de jantar, onde o mestre estava sentado. Humildemente, tal qual fosse um aluno na sala de aula levantou o dedo e disse que era dele. Ele virou-se lentamente na sua direção e retrucou: “Esse texto tem um problema grave...”. – Todos gelaram, atônitos. – “...Nelson Rodrigues não é um dos maiores autores de teatro do Brasil... Nelson Rodrigues é o maior autor de teatro do Brasil!”. Finalizou, olhando em torno com ar desafiante. Foi um tal de conserta daqui, pigarreia dali, até que o silêncio instalou-se por alguns infindáveis segundos na sala.
O que se seguiu foi um tentar desfazer o que se tinha feito, um jogar panos quentes, uma sucessão de sorrisos amarelos, “não é nada disso” e por aí afora. E a gente vendo a hora do cara falar “não ga-ra-vo” no melhor estilo Alberto Roberto. O que afinal de contas e graças a deus, ou sei lá o quê, acabou não acontecendo. Uf!

Bom, a verdade é que o comercial foi gravado e ficou supimpa. Como aliás ficou toda aquela campanha que acabou não saindo. Well, as a matter of fact eu sei lá quantas campanhas do cacete a gente cria e não vão para o ar. Faz parte da vida da gente. A Y&R tem até uma premiação interna em Nova Iorque para esse tipo de trabalho. Mas a verdade é que dói quando eu me lembro desta inédita na minha vida. E na do Favilla, do Eugênio e sua produtora. Enfim... Coisas da propaganda.

19 comentários:

redatozim disse...

Esse é o problema (e a maravilha) de se trabalhar com gênios, Don Oliva. Posso postar no pastelzinho?

Jonga Olivieri disse...

Foi muto engraçado tudo aquilo. Quer dizer, no dia foi uma gelada, mas depois que passa...
Quanto a postar no Pastelzinho, mas é claro que sim.

Anita disse...

Este caso é mesmo sensacional. Eu já o havia lido pois pesquisei todo o seu blog e fui pescando algumas postagens. Não li todas, mas garanto que passei dos 60% de índice de leitura.

Jonga Olivieri disse...

Que bom, Anita.
Muito pouca gente relê os velhos casos.
Daí inclusive eu resolvi, passados quatro anos republicar alguns a partir de agora.
Pretendo fazer isto pelo menos uma vez por mês.

Anônimo disse...

Isso é mesmo a cara do Nelson Rodrigues.
Sei disso porque conheci o hômi.
Cantídio Tarsitano

Jonga Olivieri disse...

Figuraça, não é mesmo Cantídio?

Leonardo disse...

Sempre ouvi dizer que o Nelson Rodrigues era uma pessoa difícil.
Mas imagina em 1979, um ano antes da morte do "Anjo Pornográfico"?

Jonga Olivieri disse...

Embora ainda não tivesse 70, o Nelson Rodrigues realmente parecia mais velho.
Aquela voz pausada e cavernosa talvez ajudasse a reforçar esta impressão.

Anônimo disse...

Você tem que localizar uma cópia desses comerciais. Principalemte o do Grande Otelo que pelo que descreveu é de chorar. E obviamente este do Nelson Rodrigues.
Já tentou no Youtube?
Otávio

Jonga Olivieri disse...

Se existem cópias desta campanha, não são do meu conhecimento.
Primeiro porque não chegou a ir para o ar.
Segundo porque perdi contato com a empresa que o produziu. Pra dizer a verdade nem sei se a Produtora ainda existe.
E o pior nem me lembro do nome dela.

Anônimo disse...

É uma pena que não se consiga recuperar uma reprodução desta campanha. Mesmo não tendo sido veiculada, ela foi gravada e deve ter alguma cópia em algum lugar.
Ernani

Jonga Olivieri disse...

Talvez tenha. Mas eu perdi contato com todo mundo que fez parte da produção, inclusive o Eugênio, que dirigiu os VT's... É uma pena.

André Setaro disse...

Caso muito interessante. Nelson Rodrigues é, sem dúvida, o maior dramaturgo brasileiro de todos os tempos.

Jonga Olivieri disse...

Tudo bem que o seja, caro André. Reconheço. Aliás, todos reconhecíamos. Tanto que fizemos a gravação com ele.
Mas daí a querer que isto entre no texto é meio que demais da conta!

Professor Texto disse...

Yonga, vamos por partes:
parte 1 - vc foi gentil, Mas a verdade é que fui expulso da casa do Nelson Rodrigues. Não é pra qualquer um. =)
parte 2: cara, eu tenho cópia beta destas gravações. Nem ideia do estado das ditas cujas, é fato. São do século passado, mas podemos tentar recuperar. Falemos.
Ah: grande idéia republicar os causos, toca o trem. =)
(luiz favilla)

Jonga Olivieri disse...

Luiz... Esta foi a melhor notícia que tive nos últimos anos!
Vamos nos falar e ver se gonseguimos algum lugar que faça isso.

Jonga Olivieri disse...

Em tempo: não me lembrava de você ter sido expulso da casa do Nelson Rodrigues!

Anônimo disse...

Estava fazendo uma pesquisa sobre Nelson Rodrigues, quando apareceu este caso.
Gostei tanto que queria pedir autorização para publicar no meu trabalho da Faculdade sobre o autor, incluindo o crédito de sua autoria.
Júlio José de Mesquita

Jonga Olivieri disse...

Tudo bem Júlio.
Acho que você foi bem honesto em pedir autorização.