quinta-feira, novembro 05, 2009

Modelo por acaso



Foi na Salles, e corria o ano de 1980. Criamos uma campanha para Agrotex, uma graxa lubrificante especial para tratores agrícolas fabricada pela Texaco. Fizemos dois anúncios e os habituais materiais de ponto de venda, como lâminas, cartazetes e displays.
Aprovada a campanha, era tocar o “pau no burro”. E assim chegou o dia da produção das fotos. Tudo combinado, nós, quer dizer o fotógrafo, Peter Schneider da “Câmera 3”, eu, a equipe do fotógrafo e os dois modelos escolhidos a dedo numa seleção criteriosa de possíveis (e convincentes) “fazendeiros”. O encontro foi marcado em Santa Teresa, onde ficava o estúdio. E como teríamos que ir a uma fazenda em Posse, nos arredores de Petrópolis, o combinado era sair bem cedo.

Cheguei ao local pouco antes das seis da matina. Estacionei o carro bem na porta (ê tempo bão, quando isto ainda era possível) e subi as escadas para ver se estava tudo ok. Um dos modelos já havia chegado. O outro não. Ficamos a esperar, esperar e nada. Passados uns 15 minutos, o Peter já meio impaciente virou-se para mim e sugeriu que fossemos assim mesmo. Tínhamos que aproveitar uma boa luz pela manhã (antes das 10), as boas condições do tempo, etc., etc.
Eu retruquei que, afinal de contas eram dois anúncios e nós precisávamos fazer as duas fotos no mesmo dia. Pensei em adiar, mas... Não dava. O prazo de fotolitos e rotofilmes (1) para as revistas já estava em cima da bucha.

Daí o Peter teve uma idéia e sugeriu que eu fizesse a outra foto. “Mas, ieeeuuu?!” Perguntei-lhe entre espantado e surpreso. E ele respondeu com um sorriso a dizer que eu até tinha “pinta” de fazendeiro, que era só botar o chapéu, pois até a camisa xadrez e o bigode já ajudavam. Convencido pelas circunstâncias, dez minutos após, premidos pelo tempo, seguimos viagem.
Juro que fiquei temeroso do resultado, mas na hora “h”, tirei os óculos, enfiei o chapelão branco na cabeça, e, pela primeira vez na vida passei para o lado de lá da câmera, convencido de que tinha que fazer o papel de um fazendeirão. Bati a foto ao lado da lata do produto, com um trator desfocado ao fundo, tudo emoldurado pela linda vegetação da locação escolhida. Aliás, todos elogiaram muito, tanto a foto como o modelo... Modelo? Por acaso, mas pelo menos um sucesso... E ainda recebi o merecido cachê!

(1) Para a turma nova que circula pelas agências, naquele tempo era assim, não havia nada digitalizado, como hoje. O material tinha que ser feito de forma artesanal, retoques de pincel nas gráficas, e então seguia, via malote ou outro tipo de postagem... Por vezes, um “boy” pegava um avião e ia entregar o fotolito na Editora Abril ou outras mais longe... Dureza, sô!

18 comentários:

Anônimo disse...

Saiu bem na foto, hem.
Também há tanto tempo, iiih!
Cantídio

Jonga Olivieri disse...

Há de convir que quase 30 anos dão uma diferençazinha, né?

Anita disse...

Fazendeirão bonitão!
Mas o caso tem seu lado didático ao falar de tempos em que parecia ser bem mais difícil realizar os trabalhos em publicidade.

Jonga Olivieri disse...

Bonitão, sei lá se era tanto? Mas pelo menos convenceu!
Quanto às dificuldades, eram muitas, mas havia tambem mais poesia e as próprias dificuldades eram muito profissionais.
Falei em retoques... Havia verdadeiros artesãos no manejo de um fotolito.
Fora o paste-up em que a montagem dos anúncios, folders e fosse lá o que fosse dava um trabalhão danado.

redatozim disse...

Don Oliva, o rei do gado. Sensacional!

Jonga Olivieri disse...

Iiiaaahuuuuuuu!

Leonardo disse...

Com a foto, a piada foi revelada logo de cara. Sem trocadilho.
Mas o caso é muito bom e mostra muito bem um tempo da publicidade.

Jonga Olivieri disse...

É verdade. Mas tambem não havia a intenção de ser alguma surpresa final. O anúncio ajuda a compreender tudo melhor.

Anônimo disse...

Graaaande Jonga. Parece até um mocinho de cinema. Gostei do chapéu.
Ernani

Jonga Olivieri disse...

Um dia na vida pelo menos.
Obrigado pelo chapéu, mas agradeça à produção da foto... Nunca mais o vi.

Anônimo disse...

Essas coisas acontecem. E na maioria das vezes o modelo improvisado se sai bem. Parabens, sua performance foi muito boa.

Anonymous
New York

Jonga Olivieri disse...

Às vezes é o contrário.
Eu já vi modelos profissionais se darem mal na hora de desempenhar algum papel.
Tá certo que este meu não implicava em textos e coisas do gênero.
Talvez aí a coisa pegasse pra valer. E eu, certamente, nem toparia.

Anônimo disse...

Belo trabalho, por acaso a direção de arte não é do J. Galhardo? Lembra bem o - excelente - estilo dele, da época, texto serifado etc.Inté. Anônimo II

Jonga Olivieri disse...

Caro Anônimo II. A direção de arte, neste caso é minha mesmo.
E se o Galhardo trabalhou na Salles, foi em outra época e não nos quase três anos que fiquei por lá.
Que eu saiba, nestes tempos ele estava na MPM Rio...
Aliás, trabalhei com ele na VS, mais de 10 anos depois...

Anônimo disse...

Como é que este anônimo II não sabia que quando se dirige uma foto é layout do próprio diretor de arte?
Anônimo III

Jonga Olivieri disse...

Sim. geralmente o D.A. que cria é quem dirige a foto.
E foi o caso deste anúncio.
Essa questão de tipologia, nesta época da vida publicitária se usava muito a combinação de título em Franklin Gothic com texto em Times Roman (ou News n. 2), que é o caso do anúncio.
Mas uma vez tive que dirigir fotos de um colega que estava de férias.
Pegar um bonde andando assim é um rabo.
Porque na verdade era outra cabeça que criou, fica difícil.

Maria Celia Olivieri disse...

Está excelente, como sempre um gato!!!!
bjssssssssssssssss

Jonga Olivieri disse...

Miaaauuu!