quarta-feira, abril 21, 2010

O "caso" das quartas sem lei (Republicação)

Anúncio criado por mim em parceria com Tonico Mercador na Livre

Escrito em maio de 1997. Publicado neste blogue em setembro de 2006.

A Livre Propaganda Brasileira é um caso muito especial na minha vida profissional. Era uma agência poética, solta, livre mesmo, como dizia o seu sugestivo nome.

O meu caso com a Livre estendeu-se por muitos meses de paquera, e em seguida um curto casamento. Bom, isto porque, característica do mercado mineiro, conta de governo era um negócio que sustentava naquela época cerca de 70% do faturamento das grandes agências. No caso da Livre, era mesmo 99,9%. E acontece que a Livre, numa dessas desastrosas mudanças políticas (1), ficou com seu 0,01% de contas privadas e ela obviamente naufragou. O que não quer dizer que os oito meses que lá passei não tenham sido realmente inesquecíveis.

Começou quando eu estava na ASA. Com a saída do Zuim, o pessoal da Livre precisava de um novo diretor de criação. E começaram a me sondar. Foram alguns meses de papo, algumas negativas e, finalmente, aquela famosa "de uma boa cantada ninguém escapa".
Arrumei minhas malas e lá fui eu para a Livre. Uma agência sui generis, que tinha um boxer perambulando pelas suas dependências, um papagaio e um pátio interno que mais parecia uma miniatura do paraíso. Tinha fogão de lenha, muitas plantas e uma frondosa mangueira. Uma equipe que eu achava perfeita: o Boca, o Alvinho, o Wanderley. Depois ainda veio o Tonico Mercador para reforçar esse time. No RTVC o Juninho e sua assistente, a Claudinha, que alem de competente era um colírio para os olhos.

A Livre era uma agência tão dupirú, que todo mês tinha lá um regabofe sortido e fartamente mineiro, repleto de chope e cachaça da melhor em torno do seu fogão de lenha. E o melhor é que o pessoal que ia lá com frequência, alem dos clientes eram nada mais nada menos do que a turma do "Clube da Esquina". Eles mesmos, Toninho Horta, Milton Nascimento e outros. Gente da pesada, porque a Livre tinha surgido como Quilombo, e depois desdobrou-se. O Marcinho, um dos seus sócios prematuramente desaparecido recentemente, continuava inclusive como produtor musical de Milton e sua turma e a Quilombo continuava a existir numa casa próxima a ela, e que também tinha papagaio, cachorro, e um ambiente que mais parecia um quadro da Djanira. A propósito, os outros sócios eram o Murilo Antunes, um poeta, um performático, um intelectual mineiro de primeiro time e o Pardal, pintor, uma figuraça.

Mas, embora da Livre eu tenha outros casos, que um dia sem dúvida eu conto, tem um que é marcante: o das quartas sem lei. "Segunda sem lei" era o título de um programa da Band que só passava faroestes e fazia sucesso. Pelo menos para os fãs do gênero.
Mas na Livre o negócio era um pouquinho diferente. Quando chegava o final das quartas-feiras, a turma já começava a ficar meio ouriçada esperando o que ia acontecer. E em geral o que acontecia mesmo era que um dos sócios poetas, pintores ou músicos pegar um extintor de incêndio e começar a disparar aquela geringonça numa guerra contra os outros sócios, que naturalmente respondiam na mesma moeda.

Era uma zorra, um corre-corre e uma gritaria geral. Uma das maiores loucuras coletivas de que já participei na minha vida. Algo realmente ducacete.

Vale aqui uma observação importante. A Livre Propaganda Brasileira era uma agência séria. O trabalho era tocado com muita, mas com muita responsabilidade. E a enorme quantidade de prêmios que ela acumulou nos breves anos de sua vida estão lá, nos anais da propaganda mineira.
É que criação é isso aí. Quanto mais livre, melhor.

(1) "O 'caso' do sonho que não decolou" explica essa história toda e foi postado neste blogue em outubro de 2007.

12 comentários:

Anita disse...

Acordei cedo demais hoje. E no meu passeio virtual encontro este maravilhoso post sobre uma agencia que não sei se existiu mesmo ou foi o fruto de alucinação coletiva.
Gente, que qui é isso?
Um lugar que pelo que você falou era mesmo um paraíso. Porque não pode existir um lugar tão bom assim. Até pela doidêra geral.

Jonga Olivieri disse...

Aquilo era uma loucura!
Havia um 'boy'... Um belo dia descobriram que todas as sextas o tal garoto todas as sextas feiras ia para a casa dos pais (em local não muito distante de BH) usando a companhia de táxis que servia à empresa.
Já pensou?

Popeye disse...

Os caras eram muito doidos. Também não eram eles que iam limpar, não é mesmo?

Jonga Olivieri disse...

Claro...

Anônimo disse...

Agencias assim existiam no passado. Ate aqui nos USA tinham este descompromico.
Hoje e tudo careta. O universo publicitario perdeu aquela graca. Eu, por estar em cargo de comando numa Multinacional perduro, mas a garotada que vem surgindo e tudo executivo de criacao Muito triste isso.

Anonymous
New York

Jonga Olivieri disse...

É, amigo, você que tem uma longa trajetória pegou um período em que a publicidade, para além de criativa era gostosa. Não que não tenha mais criatividade. Até a tem, mas eu creio que aquele ambiente doidaço que vivíamos dentro de nossas vidas & viradas era algo indiscritível.
Essa turminha nova que está “pelaí”, sente-se o nível pelo que se assiste na TV, ou se lê nas revistas e jornais. São ‘lambs’ a reproduzir uma mesma “ladainha”... Medíocres que não entendem o um tempo, o tempo de Olivettos, Neils Ferreiras, Jarbas de Souzas, etc...
Por isso mesmo não suportam os “velhos” que põem eles no chinelo...

Cinara Medeiros Marinho de Andrade disse...

Tenho acompanhado seu blog. SVP nao deixe de escrever.
Bjos.

Jonga Olivieri disse...

Bom receber seu comentário, Cinara...

Leonardo disse...

Esta Livre Propaganda Brasileira marcou época mesmo nos anais da publicidade 'trás-os-monte' brasileira.
Fizeram a campanha para governador de Minas de Tancredo Neves e conseguiram uma virada no placar naquele Estado dominado por 'Eliseus & Francelinos'.
E colocaram no ar ua agência que pela criatividade colocou-se no mercado em sua curta história.
Mas as 'quartas em lei' deviam ser um barato.

Jonga Olivieri disse...

Falou e disse, Leonardo... Com conhecimento de causa.
Mas a propósito, as "quarta sem lei" podiam ser um barato pros seus autores (Pardal, Murilo e Du), os donos da agência.
Agora, imagina para a "mulher da limpeza"?
Apesar de que o tumulto e a gritaria das meninas valia a experiência...

Cantidio disse...

Excelente "causo" de uma agência mucho loca!

Jonga Olivieri disse...

E põe louca nisso, meu!
Mas era tudo "maluco beleza"...