quinta-feira, junho 10, 2010

Um diretor inesquecível

Conheci e trabalhei com o Carlos Manga em alguns filmes (comerciais para TV), e posso dizer que foram experiências que somente acrescentaram e me fizeram apurar os horizontes.
Estar numa mesa de reunião e ouvir os seus casos sobre cinema e TV, era algo fascinante e engraçado, dado o seu fino humor e ironia ao narrar acontecimentos vividos por ele, sempre ligados a fatos que fazem parte da história da comunicação neste país, desde os anos 1950 até os mais recentes.

Num dos filmes que realizamos com ele, com a grande maestria do experiente artesão cinematográfico que sempre foi, o diretor reproduziu com detalhes os cenários de “Janela Indiscreta” de Hitchcock. Era um comercial para o Procel (1).

Posto aqui uma entrevista --em duas partes-- que ele fez que dá um apanhado de sua carreira (ver vídeos), como diretor de filmes na Atlântida, onde realizou o que, sem dúvida foi a maior ”chanchada” de todos os tempos: “O homem do Sputnik” com Oscarito, Grande Otelo e grande elenco, encabeçado por Norma Bengell e trazendo um estreante gorduchinho chamado Jô Soares.
A entrevista em duas partes, se estende à sua atuação na TV e na publicidade (quando tive contato com ele) e era, ao lado de Cyll Farney --famoso galã de cinema dos anos 1960-- um dos diretores da Tycoon, sua empresa produtora.

As entrevistas abaixo foram realizadas pelo Canal 16 da Net/Rio (Universidade Gama Filho) e apresentadas por Bruno Meier para o programa “Mosaico”.
http://www.youtube.com/watch?v=m8MqBj2o-cI
http://www.youtube.com/watch?v=bG93c0s0MDk&feature=related

(1) Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica

14 comentários:

André Setaro disse...

Carlos Manga pode ser considedrado um dos maiores artesãos do cinema brasileiro (o que difere do autor de filme ou, mesmo, do estilista). Sua artesania na confecção das chanchadas tem um trabalho de carpinteiro da narrativa cinematográfica. Dotado de ritmo, com exata noção do 'timing' (que poucos possuem), Manga sofreu incompreensões na época da chanchada, quando quase todos os críticos se voltavam (obtusamente) contra elas. E as chanchadas, vê-se hoje, tornaram o cinema brasileiro amado pelo público, disputado pelos exibidores. Manga tem em sua rica filmografia paródias inesquecíveis, a exemplo de "Nem Sansão, Nem Dalila" (aos épicos históricos à la DeMille), "Matar ou correr" (alusão a "Matar ou morrer"/"High noon", western de muito sucesso em sua época, com Gary Cooper e Grace Kelly), ou comédias satíricas inteligentes e pontuais com os acontecimentos de seu tempo, a exemplo de "O homem do sputnick", com um Oscarito delirante e aquela sequência antológica na qual ele fica embasbacado diante dos apelos sensuais de uma exuberante Norma Bengell imitando Brigitte Bardot.

Entre muitos outros filmes, não se pode deixar de contemplar a graça e o engenho de "De vento em popa", com Oscarito, Sônia Mamede, Cyll Farney. Há uma sequência neste filme muito bem feita, quando Doris Monteiro canta para um Farney apaixonado ao piano.

Manga realizou um 'thriller' de classe, classudo: "O Marginal", com Tarcísio Meira e Anselmo Duarte, nos anos 70, que a crítica deixou passar em branco preocupada que estava com os desvarios do cinemanovismo e com a eclosão da pornochanchada.

Inovador, estabeleceu novo padrão para a televisão brasileira, principalmente nos primeiros "Chico Anísio Show", com trucagens artesanais que marcaram época.

Jonga Olivieri disse...

No tocant ao cinema, sua contribuição é incontestável.
Mas na TV, Manga realizou coisas e revolucionou ´rogrmas e a linguagem com o "Jornal de Vanguarda", o primeiro teleornal a fugir dos padre normais do locutor (tipo Reporter Esso) e a notícia, inovando com diversos apresentadores (entre os quais Sergio Porto [Stanislaw Ponte Preta] e outros como "Haroldo Hollanda, aquele que fala de banda" e seus comentários políticos de Brasília). Detalhe: Haroldo Holanda falava meuio de lado mesmo. E comentaristas para esporte, etc.
Hoje isto parece 'corriqueiro', mas à época foi uma nova abordagem.
Seu diferencial nos comerciais para publiciadade era a sua puta experiência nas comédias da Atlântida (as ditas 'chanchadas') levada a filmetes de 30" ou um minuto.
Uma figura memorável!

Popeye disse...

Carlos Manga. Grande diretor de cinema. O faro de vocêr te conhecido êle é para colocar no see Curriculum Vitae.

Jonga Olivieri disse...

De fato, Sailor man.

maria disse...

Muito boa a entrevista do Carlos Manga de quem pouco conheço os filmes.
Aqui não existem filmes da Atlantida (não é Atlantida) à venda.
Já procurei e não consigo encontrar.
Meu pai sempre fala num filme que se chama O Homem das 7 Cadeiras, segundo ele diz com Oscarito.
Euzinha nunca assisti um filme com este que dizem ser um excelente cômico.
Mas não sabia do tanto que o Carlos Manga também fez na televisão

Jonga Olivieri disse...

Sim, é Atlântida sim, Mary.
Mas os filmes são difíceis de encontrar mesmo. Mas procure no Google. Tem um endereço http://www.desenhoseseriadosantigosclub.com/loja/ que vende seriados e filmes diversos. Pode ser que você encontre por lá!

Cantídio disse...

Trabalhar com um diretor com a cancha do Carlos Manga deve ser muito bom mesmo.

Jonga Olivieri disse...

Só foi, amigo!

Ernani disse...

O Homem do Sputnick deve ser a melhor comedia do cinema brasileiro. Mais do que Absolutamente Certo, mais do que todas as de Amâncio Mazzaroppi, incluindo o Jeca Tatu, sua obra máxima.
Considero o Carlos Manga um grande diretor e não sei o que o Setaro quer dizer com "artesão", "autor" ou "estilista". mas acho que ele tem que estar ente os melhores.

Jonga Olivieri disse...

Vou passar o seu comentário para o André Setaro, porque, creio, compete a ele responder.

André Setaro disse...

Caro Ernani,

AUTOR seria aquele realizador cinematográfico que possui um universo ficcional próprio e uma maneira toda particular de se expressar cinematograficamente. Aquele que possui um estilo, constantes temáticas e constantes estilísticas. Uma visão de mundo e uma visão de cinema (Orson Welles, Ingmar Bergman, Chaplin, Carl Theodor Dreyer, Pedro Almodóvar, Federico Fellini, Glauber Rocha...)

ESTILISTA seria aquele que, ainda que tenha uma maneira, um estilo, de expressão cinematográfica, não possui um universo ficcional próprio.

ARTESÃO, no caso, não possui nem uma coisa nem outra. Não possui universo ficcional próprio nem um estilo particular. Mas tem uma eficiência narrativa e sabe contar bem uma história, desenvolvê-la cinematograficamente.

Há bons e maus autores, assim como bons e maus estilistas e artesãos.

Manga é um excelente artesão, nunca, porém, um autor ou um estilista.

Ernani disse...

Setaro, meus conhecimentos de cinama não vão até este nível de conhecimento. Portanto não me sinto à altura para rebater os seus argumentos. Mas continuo a achar O Homem do Sputinick a melhor comédia do cinema brasileiro de todos os tempos.

Jonga Olivieri disse...

É isto aí, meu caro. Mas pelo menos o Setaro enumerou e explicou as variações entre artesãos e autores. Certo?

Jonga Olivieri disse...

Quero agradecer a todos os que se tornaram meus seguidores o fato de terem atendido ao meu convite.
Como já agradeci a quase todos, mas pode ter sobrado alguem, deixo aqui o meu registro de agradecimento!