terça-feira, novembro 16, 2010

O "caso" da sangria desatada

Este caso foi publicado originalmente em 26 de julho de 2007

Fui quase um fundador da Contemporânea. Entrei naquela agência no início de 1984. Certa vez, cheio de trabalho, fiquei até umas oito da noite. É certo que este horário para aquela agência era mais do que normal. Mas, fato curioso, foi um daqueles raros dias em que quase todos haviam saído lá pelas sete. Como tinha que acabar alguns trabalhos, não me foi possível acompanhar os demais, inclusive o Bernardo, redator que trabalhava comigo.

Terminadas as minhas tarefas, com a consciência tranquila e a sensação do dever cumprido, reuni meus pincéis, marcadores e outros apetrechos comuns à época, e me arrumei para sair. Como o Mauro Matos não estava na sala, não me despedi dele. Desci as escadas da criação, cansado, e me encaminhei para o portão de saída daquela aprazível casa na Urca. Quando ia chegando no portão, deparei com o Armando Strozemberg de pé, com um ar pensativo na porta principal da agência, um tanto quanto preocupado.

-- Jooongaaa... meu querido... que bom que você está aquí... Exclamou ao me ver.

Pela reação, senti que vinha “chumbo grosso”. Chamou-me para entrar na sala de reunião que ficava bem ao lado da recepção. Entrando na sala, lá estava o Mauro, cheio de papéis rabiscados. Conclui que estavam em reunião. Rapidamente me colocaram a par da situação. O BarraShopping ia fazer uma expansão (aliás a primeira de uma série delas), e precisava de um folhetaço para divulgar o fato. Pequeno detalhe: o cliente precisava ver a peça na manhã seguinte, sem falta.

Ali mesmo comecei a trocar idéias com o Mauro e o Armando. Nesta altura, num estalo, lembrei-me que precisava de alguém do estúdio para me dar um suporte. Saí correndo e, por sorte, encontrei o Ricardo, ainda bem que um profissional tarimbado. Mas um apenas, num estúdio de muita gente. Expliquei a ele a situação e voltei para a reunião. Esta se prolongou até cerca das dez da noite. O Armando me explicou que eu podia recortar fotos de revistas e colar nas páginas, que não era preciso marcar as ilustrações. Devido à falta de tempo, o importante era passar o espírito da coisa com belas imagens.

Ainda saí dali e fomos, o Mauro e eu para a sala dele tecer alguns ajustes finais do trabalho, como títulos e outros detalhes. Enquanto isso, o Ricardo, coitado, lá em baixo esperando. Quando acabei a reunião, desci e conversei com ele para acertar um esquema de trabalho, já que éramos apenas dois para aquela tarefa hercúlea. Principalmente pelo prazo. A esta altura, já estávamos além das onze, e eu ainda tinha que rafear tudo. Nessas horas, sempre dá um friozinho na barriga. Mas, não resta outra coisa a não ser arregaçar as mangas e “mandar pêra”. Passei para o Ricardo a medida e o número de páginas (calculado rapidamente) para ele começar a montar o esqueleto do folheto. Noite adentro, fomos selecionando, recortando e colando fotos, marcando letras de títulos, colando bodytipes nas áreas de texto, refilando as páginas. Enfim, eu também virava profissional de estúdio e letrista. Senão não dava tempo. Naquela época, isto era muito comum em boa parte das vezes.

Resumo da ópera. Varamos a noite nessa lenha. O dia já amanhecia quando terminamos o trabalho, e lá estava prontinho o folhetão (2) de mais de vinte páginas, bolsa para plantas e os cambál. Deixei o trabalho na mesa do Mauro, conforme combinado e me mandei. Fui dormir. Acho que merecia.

Voltei na agência às cinco da tarde daquele dia. Meio ressaqueado, mas curioso em saber de resultados. E aí aconteceu o pior. Por questões de horário e disponibilidade do cliente, o trabalho ainda não havia sendo apresentado. Argh! Voltei pra casa na mesma hora. Muito puto da vida.

(1) Termo (muito usado em Minas) para dizer que uma coisa é urgentíssima.

(2) Até hoje, passados tantos anos, tenho este folheto guardado. Ele ainda é um belo trabalho,e, importante, na opinião das pessoas que o vêem.

9 comentários:

cantídio disse...

Mas isto era tão comum em publicidade.
Nós cançavamos de criar campanhas às pressas e só eram apresentadas dias, às vezes semanas depois.

Jonga Olivieri disse...

É o tal negócio. Mas daquela vez não me pareceu! Será?!

anita disse...

Já diz o ditado: soldado no quartel quer é trabalho!

Jonga Olivieri disse...

Tem toda razão Anita.
E o pior é que isto já havia acontecido comigo... Na L&M, anso antes.

Anônimo disse...

Isto faz parte da profissao da gente. As vezes o planejamento e suplantado pelo atropelamento. Ossos do oficio!

Anonymous
New York

Jonga Olivieri disse...

Sou capaz de jurar que daquela vez não foi o "velho golpe" de atendimento.

Anônimo disse...

Faz-me rir ao afirmar ue não foi o velho golpe de sempre. Será???

Ernani disse...

Você foi uma vítima do destino. Mas, como falou a Anita: soldado no quartel arranja é trabalho. quem manda ficar dando sopa!

Jonga Olivieri disse...

Você tem toda razão, Ernani!