sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Coisas da vida - 1

Esta é uma série que fala um pouco da minha trajetória na publicidade. Das chances aproveitadas e das oportunidades perdidas. Bom, essas coisas acontecem com toda a gente... E agora então, que me aposentei, elas podem ser contadas com mais conforto.

Caso Nizan Guanaes

Conheci o Nizan Guanaes em Salvador, uns três ou quatro dias após ter chegado para trabalhar na DM9 (a do Duda Mendonça), naquela cidade, em março de 1982. O próprio Duda, aliás, foi quem me apresentou ao estagiário que estava saindo da agência para trabalhar numa emissora de rádio.
Muitos prazeres pra lá e prá cá, e durante o período de um ano que fiquei pela “Boa Terra”, nunca mais vi ou estive com o Nizan. Uma vez um tio meu –minha família é da Bahia— perguntou se eu o conhecia, pois ele fazia parte de algum movimento da igreja católica. Como sou anticlerical ao extremo, disse a meu tio que o conhecia, mas não costumo frequentar igrejas... E ficou por isso mesmo.

Passei um bom tempo sem saber nem ver o Nizan. Neste ínterim, o Duda me transferiu para a filial/Rio da DM9 como Diretor de Criação, pois ele havia conseguido a conta de um grande fabricante de armários modulados, que, no entanto, exigiu que ele instalasse uma agência completa aqui. Duda Mendonça, que nunca pensou pequeno, montou um puta dum escritório no Edifício Cândido Mendes, na Rua da Assembléia, 35º andar. Coisa de babar... Só a vista valia!
Mas o cliente era um trambiqueiro dos diabos, e Duda fechou a “filial Rio” cerca de nove meses depois de todo o investimento e com cerca de 15 funcionários. Inclusive eu! Perguntou-me se queria voltar pra Bahia, mas, apesar de ser baiano, preferia ficar no Rio (1). Bom, naquela época, o que eu ia receber de FGTS, mais as outras cositas más, dava pelos meus cálculos pra viver uns dez meses folgado... Economizando, mais de um ano. E o melhor, um mês após o acontecido, consegui um emprego na Provarejo.

Um belo dia assisti um comercial da Caixa Econômica na TV, e alguém me falou que a campanha era do Nizan. Daí eu pensei: “esse cara é bom!”. Nizan estava na Artplan, onde o Diretor de Criação era o Chico Abreia, que eu conhecia desde os tempos de DM9/Bahia, pois era um dos diretores de cinema preferidos de Duda.
Um dia toca o telefone e era Chico Abreia me convidando para ir trabalhar na Artplan... E propondo fazer dupla com o Nizan. Balancei . Mas fiquei numa tremenda “saia justa”, primeiro porque quando entrei na Pro, o Diretor de Criação era o Zeca Barroso; simplesmente filho de meu amigo, colega de trabalho na Bahia, o Clício Barroso (Tio Clício) (2), uma figura honesta, um grande caráter da publicidade, etc, etc...
E acontece que o Zeca, quando eu entrei me pediu para ser o seu Supervisor de Criação, dar um apoio às duplas (que eram muitas). E explicou-me que em função da quantidade de reuniões que ele tinha com a diretoria da Pro e da própria Mesbla (3), precisaria de alguém (com a minha experiência) para fazer este trabalho.
Segundo porque eu sempre disse para mim mesmo que existiam duas agências no Rio em que eu nunca trabalharia. E uma delas era a Artplan. Em função de tudo isto não aceitei a minha ida para aquela agência. Apesar de saber que estava perdendo a oportunidade de tabelar com um redator que despontava com brilhantismo e competência.

Bem, continuei meu caminho profissional saindo, no ano seguinte, da Provarejo para a Contemporânea. Depois Belo Horizonte onde fui ser Diretor de Criação da ASA. Depois voltei para o Rio onde fiz um bom trabalho na VS Escala (4). Fui para Portugal em 1990, quando, para além de trabalhar na Europa, fui Diretor de Criação na Opal Publicidade, onde fiquei três anos e ajudei a construir o que hoje é uma das maiores agências (5) daquele país.

Quanto ao Nizan, em 1985 foi chamado pelo Washington Olivetto para a DPZ. Depois, a sua carreira é conhecida de todos. Washington o levou para a W/GGK, sua primeira agência, onde trabalhou por alguns anos. Depois disso, fazendo seu vôo solo, em 1989, comprou a marca DM9, com o objetivo de transformá-la, a partir de São Paulo, em uma empresa de atuação nacional. A agência protagonizou rápido crescimento, chamando a atenção do mercado internacional . Em 1997, associou-se à DDB, tornando-se DM9DDB. Depois inauguraria a Africa (dezembro 2002). Em 2005, a Loducca se juntou ao grupo e hoje forma a Loducca/MPM.

Será que eu estaria neste barco? Não sei, mas certamente esta foi uma oportunidade que eu perdi! E uma pergunta que sempre ficou no ar...
Estive com o Nizan Guanaes por duas vezes após o episódio. Uma na W/Brasil quando fui visitá-lo e outra em Portugal, quando ele foi fazer uma palestra num evento do Clube de Criação de Lisboa.

(1) Quando Duda me ofereceu vir para o Rio, não sabia que ele ia fazer a sua filial no Rio e estava negociando com uma agência voltar para cá. Ele então cobriu a proposta e me falou do cargo que exerceria na DM9/Rio... Não tinha interesse em voltar pra Bahia, até porque achava o mercado de lá meio limitado.

(2) Clicio tinha o apelido de “Tio Clício” por dois motivos. Era um verdadeiro tio para o pessoal do estúdio, pela grande criatura que era. E havia um cliente da DM9, as lojas “Tio Correia”, grande varejo em Salvador.

(3) A Provarejo era uma ‘house agency’ do Grupo Mesbla.


(4) Na VS Escala, fomos a primeira agência "não multinacional" a conquistar a conta do Citibank no mundo. E eu fui o diretor de arte deste trabalho maravilhoso.

(5) Quando cheguei em Portugal, a Opal estava entre as 40 maiores agências do país. Quando saí de lá, três anos depois ela já era uma das 10 de maior porte.

10 comentários:

Popeye disse...

Se foi assim, foi uma senhora bobeira a sua! KKKKKKKKKKKKKKKKK!

almagro disse...

Bem lembrado Jonga, lembro dessa campanha -q realmente 'catapultou' o Nizan para o estrelato(merecido)-
complementando que o mesmo briefing ("Poupança da CEF") foi passado para todas as 5 ag. que, na época, atendiam à Caixa: Caio, Artplan, MPM, Premium e SGB, numa espécie de "concorrência" e o resultado suscitou comentários de "certo favorecimento" já que - gov.militar- rolava a campanha das "Diretas Já" e um dos parlamentares governistas (Rubem Medina) era irmão do dono da ag. vencedora, só que diante do belo trabalho do Nizan (e do Luís F. Guimarães) não havia mesmo o que contestar. Pbéns pela nova e interessante série, se eu não estiver atrapalhando, tentarei outras contribuições, desde que pertinentes ao 'case', claro, abs.

Jonga Olivieri disse...

Ô Popeye (cujo nome é Melden Alves), talvez tenha sido bobeira mesmo. mas antes de mais nada procurei ter um comportamento ético. Mas a verdade é que "o inferno está cheio de gente bem intencionada"...

Jonga Olivieri disse...

Almir. Se tiver contribuições para este blogue, manda. Isto porque já tenho alguns colaboradores, os quais sempre dou crédito aos nomes e, inclusive os incluo na chamada do blogue, logo abaixo do título.

Popeye disse...

O título Coisa da Vida casou perfeitamente com o seu objetivo nesta historinha ou caso.
Muita gente fala muito mal de Nizan Guanaes. Outros falame bem. Não sei julgar ele. O importante é que você não dependeu dele para construir sua carreira e o seu reconhecido sucesso não tão grande quanto o dele, porque você sempre foi um profissional low profile, que se dedicava apenas a fazer um bom trabalho.
Mas eu lembro de você naquele Encontro com as Estrelas (era isso?), junto com o Lula Vieira.

Jonga Olivieri disse...

A vida tem seus caminhos e temos que aproveitá-los, mesmoq ue perdendo oportunidades, Até porque não se sabe mo que iam dar outras decisões. Poderia até ser pior!
Quanto ao sucesso do Nizan, primeiro ele mereceu porque soube se promover. É o tal do mrl=keting pessoal. Uns teem mais desenvolvido, outros menos.

Anita disse...

E qual era a outra agência que você não gostaria de trabalhar?

Jonga Olivieri disse...

Esta é uma longa história, Anita. Mas já tenho até um caso contado neste blogue sobre isto.
Trata-se do “Caso” do hipersalário* contado em 12 de junho de 2008 em que eu conto... Bom, confere lá, Anita. O link está abaixo.

(*)http://jongaoliva.blogspot.com/2008/06/o-caso-do-hipersalrio.html

Cantídio disse...

A vida é assim mesmo! E a gente vai levando.

Jonga Olivieri disse...

Meu caro Cantídio, também acho isto. E nada do que aconteceu fez-me arrepender da minha decisão.
Somente me deixou com a pulga atrás da orelha... Coisas da vida.