segunda-feira, março 14, 2011

Pliés e pirouettes

Gente, não é por nada não, mas este mais novo parceiro deste blogue... Não é “qualquer um” não!
Vejam bem, todos aqueles que colaboram no “Casos” da Propaganda são profissionais da mais alta estima e categoria. Só que o Carlos Pedrosa... Bem, o Pedrosa, como é mais conhecido, é o Pedrosa e ponto final. A última vez em que o encontrei, num agradável encontro de ex Contemporâneos (1), eu falando com alguém disse: “... o Pedrosa é um ícone da publicidade”. Ele, como bom gozador curtiu a minha cara pela expressão “ícone”. Mas o fato é que ele, queira ou não queira é um dos mais geniais criativos que pisaram este solo...
Mas vamos ao "caso":


Não sou muito de ficar contando casos ou causos de propaganda. Pelo menos não por escrito. Acho que essa área já está bem coberta pelo Jonga e pelo Lula Vieira.
Além do mais, se todo mundo se mete a contar histórias, quem sobrará para vivê-las?
Mas ocorreu que num momento de desvario qualquer, acabei prometendo ao Olivieri mandar um recuerdo de mi vida para o blog.
Virou promessa e promessa é dívida, ou seja: você tem que pagar, se não houver jeito de fugir a tempo.
Bom. Que a história seja curta, pelo menos, para não incomodar os leitores.
Aconteceu há muito e envolveu a mim e a um colega do Atendimento.
(Digo logo: não tenho preconceito cultural contra qualquer publicitário que não faça parte da Criação).
Houve, por exemplo, um outro Atendimento, que não era esse da história que se segue, que me apresentou às Cantigas de Amor e de Amigo da Literatura Portuguesa do Século X , e que sabia de cor a maior parte das trovas de El Rey Dom Diniz, escritas há quase mil anos.
(Mas esse não era aquele da história que eu queria contar.)
Esse, a quem chamaremos de Passione, atendia a uma das duas maiores contas da McCann Erickson quando eu fui redator lá. Muito esperto, muito querido, ele era contudo um poço de ignorância, e seu encanto estava justamente em saber contar com graça e despudor as piadas mais sujas, mais cabeludas, que acabavam divertindo clientes e secretárias, num periodo da Publicidade em que ainda existiam clientes e secretárias.

Pois naquela época, acreditem, eu era muito mais presunçoso do que sou hoje. Devia ter lido Pigmaleão ou assistido My Fair Lady por aqueles dias e resolvi dar uma de Master Higgins, melhorando o status cultural do Passione.

Coincidiu que veio ao Rio, numa de suas últmas temporadas, o fantástico bailarino Eugene Nureyev. Coincidiu mais ainda que ganhei um ingresso extra e resolvi presenteá-lo ao Passione. Ele relutou, falou que não gostava nada de balé, que o espetáculo devia ser longo demais. Mas eu consegui convencê-lo, dizendo que era uma das supremas artes, ele iria ficar encantado com a Morte do Cisne, emocionado com o Príncipe Siegrifed, ia até chorar.

Veio a noite do espetáculo. E depois, veio a manhã seguinte.

Logo cedo, ansioso, corri até a sala do Passione.

– E então? Gostou?

– Adorei, disse ele com os olhos brilhantes.

Durante quatro exatos segundos, meu coração se fez em festa. Eu era a Virgem de Guadalupe e tinha acabado de salvar uma alma errante do inferno da ignorância. Só que então, impiedosamente, o Passione concluiu a frase:

– Adorei mesmo.COMO PULA AQUELE VIADO, HEIN?

Aprendi minha lição .Por isso desde então eu nunca mais ensinei nada a ninguém e hoje me recuso até a informar a quem quer que seja, qual é o ônibus que passa na Praça Mauá.

(1) Encontro de ex funcionários da Contemporânea, agência do Armando Strozemberg, Mauro Matos e José Calazans em que tive a honra de também ter trabalhado... E o Pedrosa, infelizmente em época diferente da minha também labutou lá.

16 comentários:

Mariflor disse...

Só o Pedrosa mesmo...
Concordo com o final. Em alguns casos, se não em todos, não se deve ensinar nem o número ou o caminho do ônibus.
Muito bom o causo... rsrsrsrs

Jonga Olivieri disse...

Lincoln Pires, meu amigo e um profissional de mão cheia em finalizações, mandou este comentário que publico abaixo entre aspas:
"Ótimo esse "caso" do mestre Pedrosa.
Grande abraço,
Lincoln"

Jonga Olivieri disse...

Nota-se pelo estilo* que é o texto de um "senhor" publicitário.

(*) Sempre diziam que texto de redator publicitário não devia ter "estilo". Mas olha só, a gente sabe quando um texto é do um Antônio Torres, um Mauro Matos ou um Carlos Pedrosa.
Porque como os grandes escritores, eles teem um estilo, sim 'sinhô'...

Saulo Silveira disse...

Jonga, este é o estilo do papo, com um chopp, depois é rir a arrebentar as medidas, adorei. Agora entendo, porque o Pedrosa, é tão querido pelos publicitários.

Jonga Olivieri disse...

Saulo, o Pedrosa é especial. O Pedrosa, para além de um icone é uma personalidade 'sui generis' que deixava a cinza do cigarro cair num papo com a gente.
Conta a lenda que um dia, tão desligado que é, saiu com as meias trocadas; uma de uma cor e outra de cor diversa.
Mas os gênios são assim mesmo... Não se preocupam com essas besteirinhas do dia a dia!

Jonga Olivieri disse...

E quando refiro gênios desligados é porque há um caso célebre do Einstein, que parou, conversou com seus alunos e na hora de sair lhe pergintaram:
- Professor, o senhor já almoçou?
Ele olhou vagamente, levantando os olhos e perguntou:
- Eu estava vindo ou indo para lá -apontando uma direçao.
Os alunos responderam que de lá pra cá, ao que ele retrucou:
- Então... Eu já almocei.

Jonga Olivieri disse...

"Grande aquisição! Abração, velho Jonga"

Esta mensagem foi-me passada por e-mail pelo Antônio Torres a quem muito estimo e admiro.
E da mesma forma que na mensagem do meu amigo especial Lincoln Pires, estou a copia-la-la aqui nos comentários desta postagem.
Isto porque, como no caso do Pedrosa, o Torres, também é o Torres... E ponto final!

Anita disse...

Mas afinal de contas aonde você trabalhou com o Pedrosa?

Jonga Olivieri disse...

Anita, querida 'sempre' contestadora... Tem um redator amigo meu que anda meio puto da vida c'ocê por causa de um comentário lá pelos idos de 2006 ou 2007 neste blogue.
Bem, trabalhei com o Pedrosa quando entrei na McCann, onde estagiei e depois fui contratado para o departamento de arte. Naqueles idos de 1965, a redaçao trabalhava separada dos diretores de arte.
No entanto conheci o Pedrosa, o Athayde, o Pedro Camargo, Mauro Matos no depto. de redação.
Mas o Pedrosa, como um dos profissionais mais queridos do mercado a gente sempre via por aí, na cidade ou no mercado publicitário.
Tenho inclusive alguns "casos" dele postados neste blogue.

Cantidio disse...

(GULP!) Não desmeredo os outros, mas você já falou nisso, já até desculpou-se e blá, blá, blá. Mas desta vez o seu blog (CRASH!) arrebentou a boca do balão. (SMACK!) e (FIM) de papo por hoje porque acho que já disse tudo que tinha de dizer.

Jonga Olivieri disse...

Todos os Parceiros deste blogue são excelentes, não somente publicitários, mas seres humanos de primeira categoria...

Jonga Olivieri disse...

Recebi um e-mail de uma prima que publico a seguir:
Oi Jonga
O "causo" é muito saboroso e a chegada do Pedrosa (que desconheço por não ser da área) é, pelo que li, uma preciosa adesão. Que cheguem outras como essa.
Beijos,
Ana"

Anônimo disse...

Muito bão...
Ancelmo

Jonga Olivieri disse...

Houve um tempo em que era muito gostoso trabalhar em agências de propaganda.
Hoje, pelo que vejo, o ambiente é bem menos engraçado. E por isso mesmo (talvez) menos... "Xá pra lá" gente. Perdeu um pouco da graça!
E na minha opinião as pessoas soltas e leves criam melhor mesmo.

Anônimo disse...

Aqui em direto de N.Y. transmito os meus parabens ao Carlos Pedrosa, porque ele tem mesmo um estilo solto e gostoso de escrever. E nao sao palavras soltas ao vento. Achei muito saborosa a leitura deste "causo".
E a voce, Olivieri parabens tambem pela aquisicao.

Anonymous
New York

Jonga Olivieri disse...

É isso aí! Reconhecimento internacional nãoé para qualquer um!