domingo, abril 24, 2011

O “Kaso” da campanha que foi pro chão antes de ir pro ar.


(ou: o cliente recusou, mas os “sem-teto” aprovaram).

Mais um caso de Almir Gomes. Se quiser conhecer outros clique em “Puracatapora” nos links ao lado.

Até os pombos da Cinelândia e as ostras da Praia Vermelha sabiam que seria lançada, em 1984, uma nova cerveja no mercado nacional, por um fabricante de bebidas, que não direi o nome, só o endereço da sede: Atlanta, Geórgia, USA. A conta foi para a primeira agência do ranking, onde eu trabalhava, e a campanha de lançamento logo encomendada, sendo o briefing entregue a uma das mais consagradas duplas, da agência e do mercado (Líber/Galhardo).

O que não se podia saber, claro, eram as estratégias, o posicionamento, a mídia, as peças de apoio, enfim, nem uma parte do trabalho. Um sigilo natural que, sem trocadilhos, também não era segredo pra ninguém. Mas fazia-se necessário. Ocorre que o cliente mostrou-se birrento, pediu alterações, houve umas idas e vindas de material, já considerado, na agência, “dukacete, nota 10...” (e era mesmo) entre eles, as peças carro-chefe nesses casos, que é o cartaz de ponto-de-venda, de buteco, mesmo, cujos leiautes eram montados 1x1, isto é, no tamanho natural em papel Paraná, com sobra tipo “pas-partout”, ou seja, virava um tremendo cartelão, quase do tamanho de uma janela e bem espesso.

Aqui, como diria o ex-governador do DF José Roberto Arruda, “vamos por partes”. Um dia, véspera de apresentação, alguns desses leiautes, como tantos outros materiais descartados, foram direto, inteirinhos, pros latões de lixo que ficavam na calçada esperando a passagem noturna dos garis da Comlurb (+1 parêntesis: a limpeza da agência era terceirizada), que os despejavam no caminhão.

Quem conhece a região – ruas Dona Mariana, Paulo Barreto, Sorocaba – sabe que, ao anoitecer, estas redondezas recebiam uns andarilhos que acabavam dormindo por ali mesmo, onde houvesse uma marquise, de preferência. Também catavam papéis e papelão e aí já se imagina o destino daqueles leiautões, com títulos e chamadas ainda segredo de estado, só conhecidos da agência e do cliente, que vinha, na manhã seguinte, bem cedinho, à agência, para ver a nova e alterada campanha.

Corta para Rua Voluntários da Pátria, dobrando pra Dona Mariana, chegando os carrões do cliente, parece que tinha até gringo na entourage. Esfregam os olhos pra ter certeza do que estavam vendo: mais pro lado de uma agência bancária, na esquina, que só abria às 10, o que vinha sendo discutido a sete chaves, motivo de inúmeros telexes, telefonemas, discussões e faxes, talvez até em código, entre a sede e a filial BR, agora servia de colchão e coberta para um grupo de mendigos. Menos mal que alguns costumavam pernoitar em frente a um botequim – o MM – o que colocava o (pré) produto bem junto do seu ponto-de-venda ideal e as peças-cobertas funcionavam, no mínimo, como teaser.

Nada disso abalou a relação cliente-agência, a campanha de lançamento, com Renato Corte Real, foi um sucesso e vale registrar que esse “caso” não transparece nenhum “descaso”(!) da agência com o descarte de materiais, na maioria papéis, é que o sistema era mesmo esse: lixo posto na calçada, em latões, coleta noturna e frequentes passagens de catadores que já dormiam pelas cercanias, “aprovando” plenamente o material coletado para tal... fim.

14 comentários:

Anita disse...

Muito curiosa esta historinha da Kaiser. Um "kaso" do pouco caso com material sigiloso.
Os "sem-teto" pelo menos tiveram uma noite mais aquecida. kkkkkkkkk

Jonga Olivieri disse...

Anita, acho que este é o espírito da 'koisa'... hehehe!

André Setaro disse...

O 'kaso' é muito interessante. Como você, caro Jonga, bem o disse é preciso que se entenda o espírito da 'koisa' - lembrei-me agora de Glauber, que no fim da vida, escrevia com k e w. Li, hoje, domingo, vários 'posts' de uma vez. Sabe de uma coisa: os 'kasos' daqui deveriam ser publicados em livro, pois o blog está a se tornar um verdadeiro arquivo histórico da propaganda brasileira.

Avanti!

Jonga Olivieri disse...

Bem lembrado, André... Recordei da fase em que Glauber escrevia que o "kanzer" iria matá-lo, etc, em cartas a seus amigos e familiares no Brasil.
Mas obrigado. Primeiro por sua vinda a este blogue, caro professor. E em seguida pela força que mo deu ao referir a ele um elogio.
Sim, pretendia publicar um livro com os pouco mais de cinquenta "casos" que tinha no início de tudo, mesmo antes de fazer este blogue, nos idos de 2006, quando conheci este tipo de publicação via 'web' e optei por ele.
Mas, quem sabe um dia...

Jonga Olivieri disse...

A propósito: este "caso" não é de minha autoria, mas sim do Almir Gomes, profissional da publicidade nos seus tempos de MPM, então a maior agência do Rio (e do Brasil)...
Pois tenho alguns parceiros me ajudando a tornar esta memória da publicidade carioca uma realidade.

André Setaro disse...

Sim, vi que não era seu, mas, neste caso, os colaboradores ajudam a enriquecer o blog - que tem uma universalidade.

Jonga Olivieri disse...

Realmente, caro André... Inclusive porque a intenção era esta. Ou seja, abrir o blogue à colaboração de amigos (creio serem uns nove a 10) que falam a mesma linguagem de quem trabalhou (ou trabalha) em agências de publicidade, cujas peculiaridades são muitas...
Daí a sua "universalidade", como você bem definiu.

Jonga Olivieri disse...

E o Almir (que eu chamo de "Xará de meu pai) Gomes tem sido dos mais presentes aqui, tendo um blogue dele marcado nos meus links: o "Puracatapora" que é muito interessante...

Cantídio disse...

Puta Kaso este!
Como você sempre diz: toda boa idéia é simples. Nos casos também.

Jonga Olivieri disse...

O que é simples é bem mais claro e compreensível... Elementar, meu caro Watson! Quer dizer, Cantídio...

Anônimo disse...

Es gibt Bier so lecker wie der Kaiser! Und ein Fall ist so gut wie diese!

Willëm

Jonga Olivieri disse...

Estranho, estranhísimo mesmo. Ontem havia respondido a este "Alemôn Anonym", e sei lá por que sumiu a minha resposta!
Mas fica aqui (+ou-)o registro de ter recebido seu 'kommentar', também com "k", que apesar de não ser todo entendido, ficou meio claro que ele gostou quando diz:"gut wie diese".

almagro disse...

"International" Jonga, tbém em "germanês", muito legal. Certo é que o "Helmut" aí (ou seria Wolfgang?) não é "da Bavaria", rsrs, ou smls, smls.

Jonga Olivieri disse...

Almir, o seu "kaso" está fazendo sucesso. Bom que o anima a mandar outros.
Quanto ao "germanês" deve ter sido um 'engraçadinho' que usou o Google Translate. Ihhh, com esta ferramenta já mandei textos em hebraico para uma amiga que mora em Israel. Aliás, a Denise, que está na foto da postagem anterior.
O Helmut, conheci um em Beagá...
Será o mesmo? Bom, como você já rodou Brasil, talvez seja!