terça-feira, julho 12, 2011

Um ser humano para não esquecer

O caso abaixo foi publicado duas vezes neste blogue. De Jackson Drummond Zuim, tenho outros inesquecíveis contados ao longo destes quase seis anos que mantenho esta publicação. Mas sua terceira inserção se deve ao fato de Zuim ter nos deixado no último sábado. Já recebi duas notas sobre isto neste blogue. Para além disso, alguns telefonemas de Beagá. Isto, porque para quem o conheceu ele foi um profissional e um sujeito para não se esquecer. Jamais.

“O caso do Barão”

Minas Gerais me abrigou por três anos (1). Foram anos em que fiz grandes amigos, sem dúvida. Amigos como o Luis Márcio Viana, o Sérgio Torres, o Roberto (Boca) Quintas, o Tonico Mercador, a Lúcia Lobo, o Newton Silva, o Juninho e a Claudinha (RTV’s da Livre), o Cid e tantos, mas tantos outros. Até hoje, quando volto por aquelas montanhas encantadas, tenho que reunir a moçada toda num almoço festivo, geralmente no Minas I, ou no Dona Lucinha (putz, a comida do Dona Lucinha!) para poder matar a saudade de todos eles ao mesmo tempo. Senão, não dá tempo.

Mas tem um redator que eu conhecí nas Gerais, uma figura inesquecível, marcante mesmo, que é o Jackson Drummond Zuim. O Zuim, como é conhecido.

Zuim tem uma característica ímpar. É extremamente sincero. Claro, além de ser um dos melhores redatores que eu conheci, e de ser, como todo bom mineiro um senhor papo e um puta levantador de copos. Além disso, tem a particularidede de chamar todo mundo de barão. Você está num papo com ele, e ele vira pra você e diz: "ô barão, o negócio é o seguinte..." e vai por aí a fora.

Quando fui eleito presidente do Clube de Criação de Minas, dividi a presidência com o Zuim. Criamos a "Zorra da Criação", que eram encontros nas agências, bancados pelas agências. Detalhe: toda agência mineira que se preze tem que ter uma boa cozinha, algumas com fogão de lenha, outras com churrasqueira ou coisa similar, e muito, muito chopp.

As reuniões semanais da diretoria do Clube eram feitas nos bares da vida. Muitas vezes chegava em casa já amanhecendo. Por isso eram quase sempre feitas às sextas.

Mas tem uma conta em Minas que é dose. Chama-se Credireal. Porque é dose? Olha, é aquele banco estatal com cara de Ministério da Transilvânia. Tem até sua "momenklatura" interna. Formalidade, cerimônia. Paúra mesmo. Quando você anda nos corredores você sente o peso da atmosfera reinante. Dá arrepios. A diretoria tem uma idade limite: não aceita membros com menos de 80 anos. E eu sei disso porque atendi a conta. Quando era diretor de criação na ASA tive que apresentar uma campanha lá. O negócio foi todo ensaiado na agência. Quem falava e quando. Mesmo assim eu tremia.

Agora, tem um caso do Zuim que realmente deve passar pra história da propaganda. Não só da mineira, em que ela já está devidamente registrada, mas de toda a nossa propaganda. Vale ressaltar aqui que este caso eu não presenciei, até porque ele aconteceu antes da minha chegada em Minas. Mas é fato corrente. Conversa nos bares.

Conta a lenda que Zuim foi certa vez apresentar junto com a equipe da agência em que trabalhava na época uma campanha no Credireal. Ali, na mesa de reunião (daquelas longas que chegam a ter linha do horizonte) estava reunido todo o staff da agência e a dita "momenklatura" do politbureau do banco. E, conversa vai, conversa vem, lá pras tantas o presidente do banco pede a palavra. Todos se viram para ele, e o ancião começa a tecer comentários sobre a campanha. E começa a cair de pau, coisa que era aliás sempre comum por ali. E o Zuim, autor da idéia, quietinho no seu canto, caladinho, se mordendo. De repente, surge aquela cabeça que se projeta para a frente, levanta o dedo como que pedindo um aparte na sala de aula de um ginásio inglês. O presidente se cala. As atenções voltam-se para o Zuim, e ele pausadamente com sua voz de baixo diz: "ô barão... isso aí não é bem o que você está pensando não, tá!".

Dá para imaginar o reboliço que foi. Bom. Quem conheceu o Credireal sabe. E, sem dúvida, foi uma atitude ousada e memorável dessa personalidade histórica que é o Jackson Drummond Zuim. O "barão".

1. Trabalhei em Minas nos períodos de 1985 a 1988 e 1999 a 2000. Este caso aconteceu no primeiro deles e foi postado neste blogue pela primeira vez em 24/08/2006 e posteriormente em 30/09/2009.

2 comentários:

Anita disse...

Já li mais de um caso deste seu amigo e os achei muito engraçados. Sinto muito pelo que aconteceu.

Jonga Olivieri disse...

O Zuim era um sujeito muito especial e também, até por isso mesmo, muito engraçado.