quinta-feira, setembro 15, 2011

O "caso" da sessão de cinema


Têm "casos" que valem a pena ser republicados. Este, cuja postagem foi em agosto de 2006 é um deles!

Era um filme de suspense. Mozart dos Santos Mello e senhora entraram no cinema e o filme já estava começando. Sentaram-se quietinhos e ficaram atentos ao enredo que era daqueles de provocar arrepios na espinha.

Lá pelas tantas, a senhora Santos Mello ouviu algum ruído e voltou-se para o lado. Um clarão, no filme escuríssimo e ela identificou uma silhueta que lhe era familiar de alguma forma. Ficou a refletir por alguns instantes e sussurrou no ouvido do marido:
"Acho que conheço a pessoa que está aqui ao lado..."
Mozart inclinou-se discretamente para frente. Outro clarão. Voltou-se para a esposa e sussurrou também:
"Parece o Vic!"

Ela olhou novamente na direção daquela figura que permanecia imóvel e profundamente atenta ao filme, e confirmou que realmente era o Vic, o Victor Kirovisky, diretor de arte da McCann. Santos Mello, por alguns instantes não sabia se falava ou não com o colega de trabalho, até que decidiu falar com ele, dizendo baixinho o seu nome para não atrapalhar o bom andamento da sessão.

Qual não foi o seu espanto, quando ao fazê-lo e colocar levemente a mão no seu ombro, ouviu-se aquele berro no cinema.
Bom, dizem alguns que até as luzes se acenderam. Mas isto talvez seja apenas a versão do fato. O que é verdade verdadeira mesmo, é que houve o berro.

sábado, setembro 10, 2011

Uma carona com Mr. Magoo

Havia um contato (1) na Salles. Apesar de não ser nada de mais, mas prefiro não citar o nome dele. Vou chamá-lo de Mr. Magoo, até porque ao ler este “caso” isto vai ficar claro.
O negócio é que ele enxergava mal pra cacete. Sim, quando lia um texto ou olhava um leiaute, encostava o olho na referida peça e a vasculhava. E isso de óculos. Aliás, falar em óculos, ele tinha alguns específicos para as mais variadas ações. O simples fato de ir a uma sessão de cinema o obrigava a levar uns óculos que mais pareciam um binóculo. Mr. Magoo era assim, um gajo quase cego.

Às vezes eu ia sem carro pro trabalho. Aliás, nunca fui dotado de uma personalidade automotiva. Sempre tinha Fuscas e outros carros simples... Não é à toa que hoje em dia faço parte daquela minoria que acha que o automóvel é bem pior do que o cigarro como agente poluidor, causador de doenças e da destruição da natureza.
Mas, como estava dizendo, ia bastante sem esta engenhoca trabalhar. Ida e volta de busão, na maioria das vezes, e de quando em vez, quando estava com pressa, um táxi.
Algumas ocasiões, encontrava o Mr. Magoo que me oferecia uma carona. Não, não!!! Sem risco nenhum de me deparar com algum modelo de óculos completamente diferente. Acontece que ele tinha um motorista particular.

Uma tarde, ao descer o elevador e encontrei Mr. Magoo.
-- Quer uma carona? Ofereceu gentilmente...
Eu concordei e descemos. Achei estranho porque paramos num dos andares de garagem. Até aí tudo bem, o motorista poderia ter chegado com antecedência e estar esperando ali.

Qual não foi a minha surpresa quando entramos no carro e vi que ele ia dirigir. Deu vontade de sair correndo; quem sabe me esconder e no dia seguinte convencê-lo de que teve uma alucinação e que não me ofereceu carona droga nenhuma. Mas era tarde. Gelei, mas entrei.
Ele ia mais longe e eu ficaria na Humaitá, perto de casa. Mas acontece que do Flamengo até lá foi uma viagem longa e suada. Ele me perguntava as coisas mais óbvias do tipo a cor do sinal ou se a curva era fechada ou não. E começou a me ocorrer que deveria acompanhá-lo até mais perto de sua casa, ideia que logo afastei da minha cabeça porque era em São Conrado.

Resumo da ópera, fiquei no meu ponto –ainda bastente assustado-- e no dia seguinte fui ver se o cara havia sobrevivido à empreitada. Ufa, pelo menos estava lá, vivinho da silva!

1. Naquele tempo o atendimento era popularmente conhecido como contato.

domingo, setembro 04, 2011

O "caso" do sutor

Ora bem, aproveitando que estava a falar do português de Portugal, lembrei-me deste caso que postei em setembro de 2007 e o republico abaixo

Existe uma grande diferença entre se ouvir uma piada de português, e viver uma delas. Olha, gente, adoro aquele povo d’além mar, mas eles têm coisas deveras engraçadas. Por exemplo: apesar de viverem dizendo que, nós brasileiros, temos o hábito de não traduzir determinados termos se outras línguas (do inglês em particular), eles também caem no mesmo vício. Daí, redator lá ser copywriter, contato ser account... e até em um “caso” que já contei aqui (1), estoque ser stock. Mas eles pronunciam sitoque.

Os lusos têm expressões muito curiosas, não somente em publicidade, mas em todas as áreas. Chegam a ser engraçadas. E por falar em engraçado, lá, alguém pode de repente falar que sua roupa está engraçada. Não, por favor, não se ofenda. Porque roupa engraçada por aquelas bandas não significa que você esteja vestido de palhaço. Mas, simplesmente ela tem graça... É que nem frescura. Frescura é aquilo que nós chamamos de frescor. “Hoje está tão gostoso, está uma frescura deliciosa!”. Há de dizer um lusitano, macho por sinal, a sorrir em sua direção. Não o confunda!

Registro é registo. Equipe é equipa. Goleiro é guarda-redes, soutien é porta-seios e cardápio é Ementa. Se você pedir um Menu, ou a Carta ao garçon, que lá é respeitosamente chamado de Senhor, o gajo vai ficar a olhar pra você com um ar estupefato. E parada de ônibus que é paragem? Fumante é fumador. Nunca peça por um durex, a não ser numa farmácia, porque é um preservativo. O nosso durex lá é fita-cola. E Isopor que é esferovite? Isso sem contar as mais conhecidas por aqui como a bicha que é simplesmente uma fila. “Peguei uma bicha hoje!”, dizem comumente... Cu não é chulo por lá. Se estiver com o traseiro encostado em algum balcão de loja, a distinta vendedora pode virar-se para você e dizer com a cara mais lavada do mundo: “Ó pá, desencosta o cu daí, se faz favor!”

Um dia, ia a uma reunião com meu patrão português, ele virou-se para mim e disse: “Caraças, hoje vamos nos reunir com o sutor engenheiro Motta, lá na Motta e Companhia.” Que diabos vinha a ser sutor? Não sabia, e, por outro lado não lhe perguntei. Antes de mais nada porque ele o disse com tanta espontaneidade e segurança que até fiquei sem jeito de questionar. Bom, é o sutor... é daí? Um sutor é um sutor e tá acabado...

Fomos, fizemos a reunião, correu tudo bem. Sutor pra lá, sutor pra cá. E eu sem saber. Tive vergonha de perguntar, e, juro fiquei dias sem sabê-lo. Uma noite, em casa, conversando com meu filho ele disse que a sutora diretora tinha falado alguma coisa no colégio. Imediatamente indaguei: “Mas afinal de contas, o quê é sutora? Tem algo a ver com sutor?” Aí caiu a ficha. Sutor, era nada mais nada menos do que Senhor Doutor. Fácil, não?

1. http://jongaoliva.blogspot.com/2006/08/o-caso-do-estoque.html