sábado, setembro 10, 2011

Uma carona com Mr. Magoo

Havia um contato (1) na Salles. Apesar de não ser nada de mais, mas prefiro não citar o nome dele. Vou chamá-lo de Mr. Magoo, até porque ao ler este “caso” isto vai ficar claro.
O negócio é que ele enxergava mal pra cacete. Sim, quando lia um texto ou olhava um leiaute, encostava o olho na referida peça e a vasculhava. E isso de óculos. Aliás, falar em óculos, ele tinha alguns específicos para as mais variadas ações. O simples fato de ir a uma sessão de cinema o obrigava a levar uns óculos que mais pareciam um binóculo. Mr. Magoo era assim, um gajo quase cego.

Às vezes eu ia sem carro pro trabalho. Aliás, nunca fui dotado de uma personalidade automotiva. Sempre tinha Fuscas e outros carros simples... Não é à toa que hoje em dia faço parte daquela minoria que acha que o automóvel é bem pior do que o cigarro como agente poluidor, causador de doenças e da destruição da natureza.
Mas, como estava dizendo, ia bastante sem esta engenhoca trabalhar. Ida e volta de busão, na maioria das vezes, e de quando em vez, quando estava com pressa, um táxi.
Algumas ocasiões, encontrava o Mr. Magoo que me oferecia uma carona. Não, não!!! Sem risco nenhum de me deparar com algum modelo de óculos completamente diferente. Acontece que ele tinha um motorista particular.

Uma tarde, ao descer o elevador e encontrei Mr. Magoo.
-- Quer uma carona? Ofereceu gentilmente...
Eu concordei e descemos. Achei estranho porque paramos num dos andares de garagem. Até aí tudo bem, o motorista poderia ter chegado com antecedência e estar esperando ali.

Qual não foi a minha surpresa quando entramos no carro e vi que ele ia dirigir. Deu vontade de sair correndo; quem sabe me esconder e no dia seguinte convencê-lo de que teve uma alucinação e que não me ofereceu carona droga nenhuma. Mas era tarde. Gelei, mas entrei.
Ele ia mais longe e eu ficaria na Humaitá, perto de casa. Mas acontece que do Flamengo até lá foi uma viagem longa e suada. Ele me perguntava as coisas mais óbvias do tipo a cor do sinal ou se a curva era fechada ou não. E começou a me ocorrer que deveria acompanhá-lo até mais perto de sua casa, ideia que logo afastei da minha cabeça porque era em São Conrado.

Resumo da ópera, fiquei no meu ponto –ainda bastente assustado-- e no dia seguinte fui ver se o cara havia sobrevivido à empreitada. Ufa, pelo menos estava lá, vivinho da silva!

1. Naquele tempo o atendimento era popularmente conhecido como contato.

5 comentários:

Jonga Olivieri disse...

Recebi por e-mail o comentário de Carlos Pedrosa (que não neessita apresentações) e me permiti o direito de transcrevê-lo abaixo. Afinal, comentários do pedrosa valem muito!

Gostei do caso M. Magoo. Os dos portugueses idem. Aquela coisa do paralítico também aconteceu comigo quando uma redatora portuguesa veio me mostrar seu portfólio. "por que será que esses portugueses terminam sempre seus filmes com um paralítico? " foi o meu primeiro e burro reflexo.Depois que entendí comecei a pensar também no vice-versa: um diretor de criação português lendo roteiros de redatores brasileiros e pensando: "por que é que esses brasileiros terminam sempre os comerciais com a imagem de uma geladeira?
Era uma época em que, lá como cá, todos, eu disse to-dos os anúncios de tv acabavam com a imagem congelada.Um freeze ,ou um paralítico,como preferir.

Jonga Olivieri disse...

Pedrosa,
Gostei demais do seu comentário que o publiquei aqui... Às vezes faço isto. desculpe por não ter pedido sua autorização...
Abs

Jonga Olivieri disse...

Ainda aguardo o primeiro comentário nesta postagem. Mas aproveito, neste ínterim, para agradecer a minha irmã Maria Célia, meu amigo mMrcos Ferraz e minha prima Ana Maria os e-mails enviados pela publicação...
Obrigado a todos!

André Setaro disse...

Um 'caso' muito interessante!

Jonga Olivieri disse...

Muito interessante ter um comentário seu aqui no blogue, meu caro professor Setaro...
Também gosto deste caso e o Mr. Magoo sempre foi um sujeito muito legal... Agora tem muitos anos que não o vejo!