sábado, outubro 15, 2011

O “caso” do ‘gólo’ em Maputo

Jurandir Persichini é de Belo Horizonte e me enviou este “caso” do inesquecível amigo Jackson Drummond Zuim, que publico abaixo. Detalhe: no título, lembrei que ele sempre falava esta palavra ao se referir a gole.

Trabalhei com o Zuim na 1ª campanha multipartidária de Moçambique, por volta de 94, junto com o Almir Sales e o Francisco Meira, a empresa mista que montaram lá no Continente Africano - a AFROVOX.

Numa sexta feira, depois de um dia quente e de muito trabalho fomos - eu o Zuim e um "desenhador" local (arte finalista) perambular pelos bares mal enjambrados da Maputo, cidade que havia sido totalmente saqueada e descaracterizada em sua guerra entre irmãos. Uma cidade sem energia elétrica, sem vida e sem opções. Mas que ainda mantinha um pouco do charme da antiga Lourenço Marques colonial. E nós estávamos lá para levantar a moral da população com nosso trabalho de propaganda política e tentar soerguer o espírito de cidadania.

Sem perda de tempo entramos logo numa cantina cheia de cadeiras e mesas quebradas. Fechamos os olhos à realidade, que poderia nos tirar todo nosso entusiasmo a um trago e perguntamos ao jovem maltrapilho que se apresentava como garçom. Fizemos pose como estivéssemos num "boulevard":

“Tem cerveja?”
Claro que tinha... para nós, estrangeiros, brancos e relativamente bem vestidos.
Mas o gajo foi logo avisando: "olhas aqui como não temos geladeira a cerveja fica ali na terra e jogamos água para esfriar um pouco. Então, vai querer uma Laurentina?
Laurentina era uma antiga cerveja fabricada lá mesmo pelos portugueses que um dia foram donos daquele país.
“Traga logo então, meu jovem!”

Quando veio a cerveja, uma garrafa bojuda de um litro e meio, o Zuim, já trêmulo de sede, foi logo pegando na Laurentina e balbuciou com sua voz tonitroante: "vou experimentar e depois passo meu veredicto procês".

Menino, numa só golada, como se estivesse num campeonato o Zuim sorveu tudo. E, em frações de segundos deu um arroto, olhou prá nós e disse: "Presta não!"
“Como assim, Zuim? essa cerveja tem gosto de que?”
"Sei não!"
“Moço, traga outra cerveja pra nós!”
"Tem não, senhor, aquela era a última.

Caçamos noite inteira uma Laurentina pra beber. E nada! O Zuim bebericou todo o estoque num só gole.

No outro dia fomos á um pub tomar sorvete. Você já viram fazer sorvete sem energia?... bem, aí é outra história.

Tenho saudades do Zuim!

6 comentários:

Cantídio disse...

Um causo pra muito golo mesmo. E que golo!

Jonga Olivieri disse...

E é isso mesmo. Estive em muito bar como o Zuim e ele traçava...

Anônimo disse...

Impagável!
António

Jonga Olivieri disse...

Concordo"

Anita disse...

Li outros casos do Zuim que você contou neste blog. Sinto muito o seu desaparecimento, pois ele devia ser uma pessoa muito engraçada a julgar por todos os outros já publicados.

Jonga Olivieri disse...

O Zuim, só quem conheceu sabe de sua cultura e criatividade.
Mas era uma figura que não tinha meios termos; era direto e sem sutilezas... E por isso mesmo foi uma figurra inesquecível!
Este caso do "golo" é típico de sua verve!