terça-feira, dezembro 06, 2011

Quadrinhos era a sua cachaça*

Quando visitamos o Flavio Colin em Curitiba (1987)
Da esq para a dir Flavio, Vi, Gustavo, eu e Norma

Por acaso conheci o Flavio Colin antes de começar em publicidade. Havia o pai de uma amiga que o conhecia de outras épocas. Épocas em que o Colin militava na luta pela nacionalização das histórias em quadrinhos no Brasil, e tinha como companheiro , na empreitada, nada mais nada menos do que o Maurício de Sousa...
Nesta ocasião ele morava na Humaitá, a apenas três quarteirões da casa de meus pais, e criamos uma amizade que tornou-se maior quando o encontrei na McCann-Erickson; ele ilustrador e eu estagiário naquela agência.
Passei a ir visitá-lo quase todos os fins de semana, principalmente aos sábados à noite, ficando íntimo dele, da Norma e dos dois filhos –crianças à época. E o detalhe é que o estúdio dele, na casa (térrea) de uma bucólica vila, ficava frente à área interna (um pátio), com uma janela. Sua prancheta bem embaixo dela, e ao fundo uma estante repleta de HQs e livros diversos.
E ali, naquele pedaço, ele virava as noites desenhando seus “frilas”, inclusive quadrinhos, como Vizunga (2) por exemplo. E eu, principiante e curioso, ficava a observar sua habilidade artística e a ouvir seus “causos” maravilhosos (3), dosados com seu fino humor e detalhes nas descrições e detalhes, muito bem regados a várias “estupidamente geladas”.
Capa d’O Anjo e uma auto caricatura...
Geralmente saia de lá, meio  trocando as pernas, o sol já estando a lançar seus primeiros raios dourados pelas ruas. Num tempo (que existiu mesmo!) em que um adolescente “bebum” andava “pelai” sem lenço, sem documento... E principalmente sem medo!
Mas HQ sempre foi o sonho do Flávio, ao qual, sem dúvida empenhou grande parte de suas forças até o fim da vida (1). Embora realce aqui que ele sempre desempenhou de forma exemplar tudo que se referisse a ilustrações e desenhos. Como no caso dos empregos que teve em agências como a McCann e posteriormente a Deninson.

Fazendo uma breve retrospectiva de sua vida, a partir de 1959 ele conseguiu dedicar-se profissionalmente à sua paixão. Em maio daquele ano, foi lançada a primeira edição de As Aventuras do Anjo, a adaptação quadrinística de um popular seriado diário da Rádio Nacional. Já nessa primeira série, o desenhista exibia um traço sintético que valorizava os contrastes entre massas de preto e branco. Uma influência de mestres como Milton Caniff (Terry e os Piratas) e Chester Gould (Dick Tracy), Colin não se limitava a copiá-los. Apresentando um estilo beirando o cartunístico, imprimiu ao Anjo um visual moderno.
No início dos anos 60, Flavio Colin firmou de vez sua técnica, em trabalhos com a adaptação do primeiro seriado televisivo produzido no país,  O Vigilante Rodoviário e a saga regionalista Sepé, além de suas primeiras HQs de terror e da série de tirinhas do Vizunga (3).
Vizunga, uma de suas grandes criações
Contudo, nos anos 1980, os altos e baixos do mercado editorial novamente afastaram Colin das bancas de jornal. Ainda assim, nas duas décadas seguintes, o Mestre nos presenteou com seu traço inconfundível em revistas de tiragem limitada ou edições independentes, como Hotel do Terror, A Mulher Diaba, No Rastro de Lampião, O Boi das Aspas de Ouro, Fawcett,  e Estórias Gerais –obras-primas do desenho em quadrinhos, que hoje inclusive constam de algumas antologias internacionais.

Colin faleceu no dia 13 de agosto de 2002, aos 72 anos, de problemas respiratórios agravados por um enfarte. Eu somente soube algum tempo depois, pois na ocasião encontrava-me em Recife, “recluso” numa campanha política, somente retornando em setembro.
O grande artista deixou saudades, pois além dos amigos, muitos fãs aprenderam a admirar seu inconfundível estilo. Ficou também a certeza de que Flavio Colin foi um daqueles talentos geniais que o Brasil produz, mas não sabe valorizar...

(*) Ele costumava dizer: “quadrinhos é a minha cachaça”.

1. Flávio Barbosa Mavignier Colin, conhecido como Flavio Colin, nasceu no Rio de Janeiro em 20 de junho de 1930. Começou a carreira de quadrinhista aos 26 anos na “Rio Gráfica e Editora”.  Adaptou para os quadrinhos radionovelas, desenhou historirtas de terror e posteriormente publicou “bandas Desenhadas” na Bélgica, Itália e Portugal. Em seus 46 anos de carreira como quadrinhista e ilustrador desenvolveu um traço marcante e exclusivo e foi (sempre) um grande defensor dos quadrinhos nacionais, sendo considerado  no mundo um dos mais importantes artistas dos quadrinhos brasileiros.

2. Em meados dos anos 1960, Colin estava prestes a abandonar os quadrinhos. Ele havia sido um dos artistas mais engajados na luta pela valorização (e nacionalização) das HQs no Brasil, e, devido a isso, sofreu boicotes e passava por sérias dificuldades na vida financeira. Maurício de Sousa foi o único autor que atravessou o período de maneira tranquila e estável, sendo ele o responsável por convidar Flavio a desenvolver com total liberdade uma série de tiras diárias para a Folha de São Paulo (4). Desta forma surgiu "Vizunga", que com o passar do tempo se tornou um “cult” dos quadrinhos brasileiros. Eu me orgulho de ter acompanhado muitos dessas “tirinhas” do personagem.

3. Flavio foi um dos melhores contadores de “causos” e piadas que conheci.

4. Maurício começou nesta época, inicialmente com tirinhas do Bidú e depois da Mônica, personagens inspirado em sua filha e no cachorrinho dela.

9 comentários:

Anônimo disse...

Saudades do Flávio Colin, com quem trabalhei muito em publicidade. Assim como o Noguchi e o Benício - só para lembrar os nomes que baixam neste teclado -, ele era sempre requisitado para ilustrar campanhas e fazer storyboard. Visitei-o algumas vezes em sua casa de Saquarema, onde morou por uns tempos. Flávio Colin também tinha a virtude da boa conversa, com um senso de humor extraordinário.
Antônio Torres

Cantídio disse...

Flavio Colin é uma lenda nos quadrinhos brasileiros.
"Sepé" e "Vizunga" são conceituados no mundo inteiro, principalmente pela narrativs cuja característica da mudança no estilo quando o personagem conts suas histórias (todas tipo de pescador) e o desenho é "cartoon".

Mas não sabia que você o conheceu tão bem assim!

Jonga Olivieri disse...

Sim, Cantídio. O Flavio desenvolveu de fasor esta dupla interpretação, até por este motivo mesmo: Vizunga, por ser um "contador de histórias", um "farofeiro" era transformado em cartum no momento em que as narrava.
Em outras palavras, a caricatura era o lado "imaaginativo" e fantasioso do Viunga.

Jonga Olivieri disse...

Fui àquela casa em Saquarema desde o tempo em que aquele paraíso do jardim nos fundos era uma imensidão de terra e areia (lá pelos 1965, mais ou menos).
Na primeira vez que lá fui, atravessamos a barca, pegamos um ônibus, de Niterói até lá... E um detalhe, como não havia água corrente da rua, tínhamos que ficar puxando na bomba manual. Dose! Mas como eu curti mesmo assim!
Depois,só voltei lá depois de casado, quando o meu filho tinha uns oito meses e ela (a casa) era uma beleza e havia aqueles caminhos em meio a plantas, muito aconchego e conforto.
Parecia algo como um conto de fadas, em que se esperava que os anõezinhos iriam surgir a qualquer instante.

Anônimo disse...

Jonga,
Acho lindas essas materias que vc coloca para relembrar pessoas mais velhas e ja esquecida por tantos!!! Parabéns irmão por tão lindo post...
Cecé

Jonga Olivieri disse...

Amigos nunca morrem, enquanto estão vivos em nossas memórias!
O Flavio é lembrado demais. Alem do seu humor, sua leveza, havia a sua arte singular e brilhante...

Anônimo disse...

Flavio Colin e conhecido em todo o mundo, nao ha a menor duvida.
Mas infelizmente nao foi reconhecido em vida. Como voce bem o disse no fim do post.

Anonymous
New York

Anônimo disse...

Nada sabia a respeito do Flavio Colin, o que é natural pois vivi os anos de vida laboral muito distante da publicidade, exceto por aquele curto período que estagiei na firma de propaganda onde você era o Diretor de Arte, lembra?
Gostei de ler a respeito dele e também apreciei a foto, na qual D. Norma se destaca com um semblante de extrema simpatia. Imagino como deve ser bom para seus colegas da velha guarda relembrar esses "causos" tão interessantes.

Anamarlua

Jonga Olivieri disse...

Um grande sujeito! Mas eu nem me lembrava deste seu estágio... Foi em que agência?