domingo, dezembro 09, 2012

Da série relembrando Zuim: o “caso” do clube etílico



Quando cheguei a Beagá, em 1985 para assumir a direção de criação da ASA, estava com todo o gás. Afinal, era a primeira vez que eu alcançava este posto. Apesar de quase vinte anos de janela e exatos quarenta de vida, fiquei preocupado com a nova função e a responsabilidade a ela inerentes. Afinal, eram três duplas de criação, um estúdio (que nem me lembro de quantos profissionais), além da produção gráfica, o tráfego e o RTVC, tudo sob o meu comando. E eu não conhecia ninguém, pois também nunca trabalhara no mercado mineiro.

Em determinada ocasião, algum tempo antes, fizera uma investida em Belo Horizonte, visitando a Setembro. Estive na época com o Almir Salles, por indicação do meu sogro, que o conhecia, e fui apresentado ao David Paiva, que era o diretor de criação. Na mesma ocasião rodei bolsinha pela L&F, ocasião em que conheci o Bosco e o Jura. Mas, minhas férias acabaram e eu não fechei nada de concreto. Daí, voltei para o Rio de Janeiro.

Mas, anos após, estava eu ali na ASA. Carlos Areias, com quem trabalhara na Salles, me chamou para lá. Fui, conversei com o Edgard Mello, e, quando voltei, pedi demissão da Contemporânea, explicando ao Mauro, que a minha saída era por um motivo justo. Eu ia ser diretor de criação. Em suma, uma nova oportunidade em minha carreira. Claro que o Mauro ficou chateado, mas isso são outros quinhentos (1).

Alguns meses depois, já devidamente entrosado com minha equipe de criação, que incluía o Sérgio Torres, a Lucinha Lobo, e outros profissionais de primeiro time, tive o convite para me candidatar a presidente do Clube de Criação de Minas. O clube estava meio parado, segundo eles. O Daniel de Freitas, muito ocupado com as tarefas de sua nova agência, a DNA, não tinha muito tempo para se dedicar às tarefas e desafios constantes de um clube que precisava se firmar no cenário da publicidade mineira.

Acabei topando. Falou-se com o Daniel e me candidatei. Mas, fiz a proposta de dividir a presidência com dois profissionais. Seria um “triunvirato”. Entraram na jogada o Jackson Drummond Zuim, diretor de criação da Livre (2), na época a agência mais criativa do mercado e o Marcus Vinícius um RTVC da SMP&B, outra agência que despontava no cenário.

Fomos eleitos. Pouco tempo depois, o Marquinhos voltou a Goiânia, sua terra natal, pois recebera uma proposta irrecusável. Na verdade nem chegou a assumir o cargo. No seu lugar, entrou o Jenner Leite, um jovem diretor de arte que estava na RC, outra agência crescendo em Belô. Criamos, o Zuim e eu, um anúncio gostosíssimo com a frase do Groucho Marx: “Eu não entro para um clube que me aceite como sócio”, e um texto brilhante do Zuim, o que não era novidade.

Mas, havia um problema seríssimo. O clube não tinha sede. De início sacamos a idéia de fazer as “Zorras de Criação”. As “zorras” eram eventos que aconteciam uma vez por mês, patrocinados pelas agências, que bancavam um churrasco, ou uns salgadinhos regados a muita cerveja e “golos” da boa pinga mineira. Porque, detalhe, o clube também não tinha reserva nem capital de giro. Começamos a organizar as associações, cobrar as mensalidades, emitir carteirinhas, em suma fazer com que aos poucos tivéssemos algum dinheiro em caixa.

Paralelamente realizávamos uma reunião de diretoria por semana. Em bares, e cada um pagando as suas despesas. E eram reuniões que começavam às oito da noite, e, às vezes acabavam com o raiar do dia. Ainda bem que geralmente eram feitas às sextas. Mas, até hoje não sei como não bati o carro, não me estoporei todo numa dessas, pois saia das reuniões pra lá de Bagdá. Muitas das vezes, começávamos num bar e íamos de um para o outro. Na maioria dessas reuniões, conversas sobre o clube começavam e terminavam no primeiro bar. Daí em diante era papo de bêbado, piadas e risadas. Um clube etílico. Na acepção da palavra.

Mas, eu sei que deixamos uma caixa legal. No ano seguinte quando convocamos as eleições, confesso que estava cansado pra cacête. Doido para deixar o cargo, mas, apesar dos porres me sentia vitorioso. E a vitória era tão evidente que fui chamado pelo Chico Bastos, eleito o novo presidente, para ser o vice-presidente. Não pude recusar, mas... bom aí é outra história. Um dia desses eu conto.

1. O Mauro Matos nunca gostou que profissionais saíssem da sua agência. Anos depois, em entrevista ao site do CCRJ ele confirmou isso.

2. Depois da saída do Zuim da direção de criação da Livre, assumi o seu posto naquela agência.



sábado, dezembro 01, 2012

Da série relembrando Zuim: O “caso” do Barão


Este “caso” já foi contado neste blogue. No entanto, adaptei o tempo dos verbos para o passado em função do desaparecimento do Zuim.


Minas Gerais me abrigou por três anos (1). Foram anos em que fiz grandes amigos, sem dúvida. Amigos como o Luis Márcio Viana, o Sérgio Torres, o Tonico Mercador, a Lúcia Lobo, o Newton Silva, o Juninho e a Claudinha (RTV’s da Livre), o Cid e tantos, mas tantos outros. Até hoje, quando volto por aquelas montanhas encantadas, tenho que reunir a moçada toda num almoço festivo, geralmente no Minas I, ou no Dona Lucinha (putz, a comida do Dona Lucinha!) para poder matar a saudade de todos eles ao mesmo tempo. Senão, não dá tempo.

Mas havia um redator que eu conhecí nas Gerais, uma figura inesquecível, marcante mesmo, que foi o Jackson Drummond Zuim. O Zuim, como era conhecido.
Zuim tinha uma característica ímpar. Era extremamente sincero. Claro, além de ser um dos melhores redatores que eu conheci, e de ter sido, como todo bom mineiro um senhor papo e um puta levantador de copos. Além disso, tinha a particularidede de chamar todo mundo de barão. Você estava num papo com ele, e ele virava pra você e dizia: "ô barão, o negócio é o seguinte..." e ia por aí a fora.

Quando fui eleito presidente do Clube de Criação de Minas, dividi a presidência com o Zuim. Criamos a "Zorra da Criação", que eram encontros nas agências, bancados pelas agências. Detalhe: toda agência mineira que se preze tem que ter uma boa cozinha, algumas com fogão de lenha, outras com churrasqueira ou coisa similar, e muito, muito chope.

As reuniões semanais da diretoria do Clube eram feitas nos bares da vida. Muitas vezes chegava em casa já amanhecendo. Por isso eram quase sempre feitas às sextas.

Mas tinha uma conta em Minas que era dose. Chamava-se Credireal. Porque era dose? Olha, era aquele banco estatal com cara de Ministério da Transilvânia. Tinha até sua "momenklatura" interna. Formalidade, cerimônia. Paúra mesmo. Quando você andava nos corredores você sentia o peso da atmosfera reinante. Dava arrepios. A diretoria tinha uma idade limite: não aceitava membros com menos de 80 anos. E eu sei disso porque atendi a conta. Quando era diretor de criação na ASA tive que apresentar uma campanha lá. O negócio foi todo ensaiado na agência. Quem falava e quando. Mesmo assim eu tremia.
Agora, tem um caso do Zuim que realmente deve passar pra história da propaganda. Não só da mineira, em que ela já está devidamente registrada, mas de toda a nossa propaganda. Vale ressaltar aqui que este caso eu não presenciei, até porque ele aconteceu antes da minha chegada em Minas. Mas é fato corrente. Conversa nos bares.

Conta a lenda que Zuim foi certa vez apresentar junto com a equipe da agência em que trabalhava na época uma campanha no Credireal. Ali, na mesa de reunião (daquelas longas que chegavam a ter linha do horizonte) estava reunido todo o staff da agência e a dita "momenklatura" do politbureau do banco. E, conversa vai, conversa vem, lá pras tantas o presidente do banco pediu a palavra. Todos se viraram para ele, e o ancião começou a tecer comentários sobre a campanha. E a cair de pau, coisa que era aliás sempre comum por ali. E o Zuim, autor da idéia, quietinho no seu canto, caladinho, se mordendo. De repente, surgiu aquela cabeça que se projetou para a frente, levantou o dedo como que pedindo um aparte na sala de aula de um ginásio inglês. O presidente se calou. As atenções voltaram-se para o Zuim, e ele pausadamente com sua voz de baixo disse: "ô barão... isso aí não é bem o que você está pensando não, tá!".

Dá para imaginar o reboliço que foi. Bom. Quem conheceu o Credireal sabe. E, sem dúvida, foi uma atitude ousada e memorável dessa personalidade histórica que foi o Jackson Drummond Zuim. O "barão".
 
1. Trabalhei em Minas nos períodos de 1985 a 1988 e 1999 a 2000. Este caso aconteceu no primeiro

segunda-feira, novembro 26, 2012

Da série relembrando Zuim: um texto poético sobre o poeta!


A imagem é meramente figurativa

“Saudade do Jackson Drummond Zuim
  
Um dia eu olhei para a aquela velha máquina Remington, enorme, gorda, do modelo que equipou tantas redações importantes e pensei com os meus botões: mas essa máquina é do Zuim! Quando o Zuim veio trabalhar na minha agência, que naquela época se chamava Contacto, ele exigiu que eu comprasse aquele trambolho pré-histórico com o qual conquistou prêmios, deixou enormes recordações de sensibilidade e profissionalismo, e, principalmente, deixou  um publicitário melhor, porque me ensinou muito de publicidade, da boa publicidade. Mandei embrulhar a máquina em um enorme papel celofane, amarrado com uma também enorme fita vermelha e enviei para ele, na Sabiá (1), acompanhada de um bilhete que dizia que ninguém mais era digno de tocar naquela máquina, além dele. Não tive a menor resposta. Tempos depois, talvez anos, eu estava em minha sala, absorto em um texto qualquer, quando senti uma inesperada presença na minha frente. Levantei a cabeça e me deparei com um sujeito carrancudo, de dedo em riste e pronto pra dizer alguma coisa, que parecia não ser nada de bom. Fiquei lívido de susto. E o Zuim falou: – Eu só vim aqui pra dizer que você é meu amigo e que eu gosto muito de você. Antes de eu esboçar qualquer resposta, virou as costas e foi embora. Esse era o Zuim. E hoje eu chorei porque estou com muita saudade dele. E com um imenso remorso em ter sido tão relapso com esse grande companheiro, por não tê-lo procurado nos últimos anos. Agora, não vou vê-lo nunca mais. E a saudade está doendo em mim.
José Maria Vargas
Diretor da Agência Staff de Publicidade, Sindicato das Agências de Propaganda do Estado de Minas Gerais - Sinapro-MG e Federação Nacional das Agências de Propaganda – Fenapro
http://sinapromg.com.br/index.php
   
Em tempo: O publicitário e poeta Jackson Drummond Zuim, faleceu no dia 09 de julho, em Belo Horizonte, vítima de um câncer na garganta.”

NOTA: Não conheço José Maria Vargas, mas achei o seu texto tão bonito e emocionante que o reproduzi aqui com os devidos créditos a ele e à Sinapro-MG.

1. Sabiá foi a agência fundada pelo Zuim (a nota é minha).

sábado, novembro 24, 2012

Zuindo de genial



A última fotoque tenho do Zuim (1) num jantar no Minas Tênis Clube em 1999
Postagem publicada originalmente neste blogue no dia 28 de novembro de 2008, foi adaptada em função de fatos...

Conheci poucos profissionais como o Jackson Drummond Zuim. Tenho alguns casos contados neste blogue sobre este criativíssimo redator mineiro. Como por exemplo: “O ‘caso’ do Barão”, postado em agosto de 2006 ou “O ‘caso’ do clube etílico”, este em março de 2007. Mas, para além desses e de um ou outro que eu tenha esquecido de relacionar aqui, ele é citado em diversas historinhas aqui transcritas.

Com o Zuim, participei do Clube de Criação de Minas, e, apesar de levarmos nossos cargos muito a sério, nos divertimos às pamparras. Pelo menos bebemos muitas... ou “todas”, isso posso garantir. Aliás, quando me indicaram para ser presidente daquele clube, topei, mas com a condição da formação de um triunvirato em que os presidentes eram, além de mim, o Zuim e o Marcos Vinícius, um RTVC de Goiás, que logo voltou para sua terra natal, nos deixando em dueto.
Como não tínhamos sede própria, a diretoria se reunia invariavelmente nos bares da vida. Nossos companheiros mais frequentes eram o Jener e o Orlandinho. Mas vez por outra apareciam outros, como o Tonico ‘Mercador’, o Pedro, o Wanderley ou o Luis Márcio. Olha, varávamos as noites, e, claro, as reuniões começavam muito bem, mas depois de uma certa hora era um pileque só.

A última vez que encontrei o Jackson Zuim, nos cruzamos na Savassi. Foi em 2000, quando eu trabalhava em Beagá. Paramos e ficamos a conversar por mais de meia hora. Ele com aquele vozeirão (um tremendo dum baixo) e sempre chamando a gente de “barão”... Um amigo nosso o apelidou de “o açougueiro da propaganda”. Mas o mais engraçado é que o cara com o seu jeitão de “Fred Flintstone” era um poeta sensível, que se defendia por trás de uma aparência rude. Tanto que montou uma agência de publicidade e a batizou de “Sabiá”.
Em julho do ano passado soube por amigos que o Zuim havia falecido. Já sabia de sua doença e do quanto ele sofreu com aquilo...

Em sua homenagem, publico aqui esta homenagem a ele. E aproveito para finalizar este artigo transcrevendo abaixo um poeminha descompromissado de sua autoria, que li no “Pastelzinho”, o blogue do Maurilo (link ao lado), outro redator mineiro que conheci em época mais recente... Mas, apesar disso é uma sujeito decente. E talentoso.

Poeminha Abstêmio

Depois que parei de beber

Minha vida mudou
Do vinho para a água
  
Jackson Drummond Zuim

1. Infelizmente a foto não é boa porque foi escaneada de um Newsletter (impresso em jato de tinta) que fizemos de um Encontro de Criativos Mineiros ao qual compareceram mais de 30 profissionais.

sexta-feira, novembro 16, 2012

O “caso” do cenário teatral

Esboço do cenário. O desenho ao fundo é meramente ilustrativo
Uma conhecida minha me chamou para criar e executar o cenário de uma peça de teatro amador. Confesso que fiquei muito feliz com isso. Afinal, aposentado, estou a deixar a publicidade, tendo apenas dois clientes que mantenho quase que por diletantismo e, no momento, dedico-me à pintura; ramo em que, aliás, venho obtendo bons resultados.

Arregacei as mangas, baseado em uma ideia, que, se não for inédita, pelo menos a considero bastante original. E parti para as ruas atrás de materiais, lojas e fabricantes de produtos que se adequassem ao cenário por mim pensado.
Aproveitando para falar da ideia: pensei em um fundo de palco branco com os cenários (eram dois ambientes) desenhados em preto e posteriormente plotados. Passei em três gráficas rápidas até conseguir o melhor preço.
Exemplo (simplificado) para o cenário

Depois foram os blocos (tipo puf) que serviam de assentos e ao mesmo tempo, remanejados, formariam as mesas do ambiente. Inicialmente, pensara em madeira, porem nem cheguei a orçar porque sabia que madeira é caríssimo. Fiz os orçamentos em caixas de papelão que, segundo o fornecedor aguentariam o peso de um adulto sentado. Bom, pelo menos eu (92 quilos), sentei, mexi pra lá e pra cá, e me pareceram confiáveis. Alem do mais eram dobráveis e fáceis de guardar por ficarem planos.
Não conformado, cheguei a uma descoberta ao pesquisar no Google: blocos de Isopor. Fui na loja –na Praça Tiradentes–, e os achei muito resistentes ao peso, e, apesar de não serem quadrados eram possíveis de serem usados.
Havia ainda a pintura desses acessórios. Optei pelo “Pó Xadrez”, que misturado à água torna-se semelhante à tinta acrílica e eram bem mais em conta. Rolinhos para a pintura dos cubos completavam o material para a confecção do cenário.

Resumo da ópera, os custos ficaram em:
Total com caixas de papelão: R$ 3.344,40 (três mil, trezentos e quarenta e quatro reais e quarenta centavos).
Total com cubos de isopor: R$ 4.790,40 (três mil, trezentos e quarenta e quatro reais e quarenta centavos).
Blocos (cadeiras e mesa)

Em reunião com a cliente, ela achou muito caro e fora de seu budget. Como não havíamos falado em orçamento, parti então para um novo levantamento de materiais tentando reduzir para os R$ 500,00 (quinhentos reais) que ela (então) fixou como limite. Um desafio, mas a minha vida em publicidade sempre esteve marcada por clientes com pouca verba... E como ganhei prêmios com anúncios e campanhas com soluções criativas, porém baratas. Os anúncios Alltype (1) foram um exemplo disto!
  
Fui à luta! 
  
A primeira coisa que pensei foi em fazer os fundos de palco pintados com a mesma tinta “Pó Xadrez”, mas no caso apenas pretas. Ao custo de R$ 6,50 cada caixa, a coisa já ia ficar mais barata aí. Alem disso, orcei estes painéis em gorgurão e plástico. O plástico ganhou disparado. Os dois painéis ficariam em R$ 226,80 (duzentos e vinte e seis reais e oitenta centavos), contra os R$ 3.120,00 (três mil, cento e vinte reais) da plotagem.
Rolinhos e tintas eram baratinhos e pouco mudaram no montante. Precisaria alugar um Retroprojetor para ampliar os desenhos, mas o aluguel tambem pouco somava no total. O resultado é que o preço caiu para R$ 340,90 (trezentos e quarenta reais e noventa centavos). Quer dizer: mamão com açúcar. O total ficou abaixo do budget...

Infelizmente a cliente resolveu não concretizar o trabalho. Por e-mail, comunicou-me a decisão de desistir do projeto. Fiquei a pensar se não gostou. Mas nas reuniões que fizemos ela não havia manifestado isto, somente se fixando na questão dos custos, não tendo em momento algum criticado a ideia. Ou será que apareceu um outro cenógrafo com mais know how na área?
De qualquer maneira registrei os cenários ainda ontem, e aproveito esta postagem para anunciar que este projeto está à disposição de quem queira comprá-lo (2). Podemos negociar, certo?

1. Anúncios em que se usavam apenas letras, evitando as fotos, muito caras na época.

2. Detalhe: como era um grupo amador não estava a cobrar nada do meu trabalho...