Minha amiga Denise Motta Feit (foto) mandou o texto referente ao primeiro capítulo (abaixo) de seu livro "Amor em Campo Minado" . A capa acima foi criada por mim em conversas com ela para a referida publicação e mostra os duas faces de uma mesma guerra: a sua (o lado feminino e delicado) e a outra (crua, agressiva e violenta), que exprime a guerra tal e qual ela é...
Mas Denise resume o início de tudo isso com a frase: "saí da propaganda para entrar na história!".
Tel-Aviv, 17 de janeiro de 1991
Dormia quando a sirene de guerra tocou.
Seu som agonizante se misturou com as antigas canções de carnaval que
embalava meu sono.
Sonhava com o que tinha sido minha realidade no Brasil: um alegre
desfile num bloco de rua.
Mascarados e encapuzados me arrastavam harmoniosamente pelos
paralelepípedos trepidantes da pequena cidade.
Ricos, pobres, brancos e negros se espremiam pelas calçadas, entre
mulatos de fé e crenças variadas.
O cheiro de suor se misturava com o cheiro da água-ardente e embriagava
tanto quanto o cheiro do lança perfume.
Era embalada ao ritmo dos corações pulsantes de euforia, quando vi uma
foliã parada no meio da multidão.
Me aproximei da triste Colombina que borrava sua maquiagem de purpurina
lilás ao esfregar cada lágrima que escorria pelo seu rosto jovem.
Me aproximei ainda mais. Queria pergunta-la porque estava tão triste.
Mas o rugido do alarme de guerra finalmente conseguiu me acordar.
E pouco antes de conseguir matar minha curiosidade, despertei!
Meu sangue gelou e meu coração mudou de ritmo.
Saiu do compasso das marchas de carnaval para acompanhar o ritmo do
pânico e do terror que se apossavam de mim e fazia meu corpo paralisar.
Vi a cara fria da morte estampada na máscara de gás que coloquei em
frente ao espelho. Seus vidros redondos se embaçavam mais e mais, a cada
lágrima que escorria de meus olhos.
Estava completamente cega de paixão, e agora, também pronta para morrer
asfixiada de amor.
O barulho dos mísseis iraquianos que caíam perto de mim me fez parar de
sonhar acordada. Corremos para o quarto que estava preparado de acordo com as
instruções de segurança do exército de Israel em caso de ataque químico.
A suspeita do ataque existia, mas ninguém acreditava que aquilo
realmente ia acontecer.
Eles estão bombardeando, eles estão bombardeando! Gritava Ora.
Fitas autocolantes e plásticos nas janelas e portas vedavam o possível
ar contaminado que poderia estar lá fora.
Seguíamos as coordenadas do departamento de segurança de Israel,
transmitidas pelo rádio em idiomas diferentes.
Olhei através do vidro embaçado da minha máscara de gás e mal conseguia
distinguir entre Alon, sua mãe, e seu pai que me olhavam incrédulos a me
perguntar que diabos eu estava fazendo ali?
Era carnaval no Brasil, e eu era turista fantasiada numa guerra que não
era minha, detida pela cilada de um amor.
O som abafado da minha respiração se fazia mais ofegante, mas mesmo
assim escutei quando o telefone tocou.
"Mãe! Não posso falar agora." Gritei desligando o telefone.
Peguei a Torah e o Sidur e comecei a rezar as primeiras rezas que havia
aprendido já nas primeiras aulas do curso de conversão do Rabinato oficial de
Israel:
“Shemá Israel
Adonai Eloqueino Adonai Errad..."
Ouvindo isso os pais de Alon o fuzilaram com o olhar e Bem-Ami não
conseguindo se controlar explodiu:
"Se não fosse suficiente você nos trazer uma goia (1) para dentro de casa, o
pior é que agora ela vai acabar virando uma docit (2) !!!"
A continuar...
1. Uma "não judia".
2. Apelido pejorativo para descrever uma pessoa religiosa em Israel.
A continuar...
1. Uma "não judia".
2. Apelido pejorativo para descrever uma pessoa religiosa em Israel.


12 comentários:
Muito bom. mas muito bom mesmo!
A Denise tem uma narrativa que envolve. Não à toa que ela exercia o ato e a arte da escrita antes de "sair da propaganda pra entrar na história" (sic)...
Realmente muito bem escrito pela escriba de mão cheia!
Ok, Cantídio. Tambem acho isto. Aliás, era colega dela na VS e sempre a considerei uma profissional de primeira, talentosa e criativa.
Hoje, Denise é uma de minhas Musas. Merecidamente, e em todos os sentidos...
Nao vejo um texto tao bem narrado ha muito tempo.
Excelente forma de contar algo tao dramatico em estilo tao claro, ate leve e ilustrativo. Vi as cenas se formarem em minha cabeca a medida que lia.
Parabens, Denise!
Anonymous
New York
Tambem acho que a narrativa é muito boa! Simples e objetiva, sem muitas presopopéias. Em suma: moderno.
Demaisssssss!
A Deni deverá mandar mais capítulos... Aguardemos o desdobramento.
Por que não criar um Blog somente para o livro?
Shirley
Boa ideia. Mas será que a Denise vai ler aqui? Em todo caso, vou conversar com ela sobre esta possibilidade.
Lembro, minha filha tinha nascido (aí no RJ), 1 semana antes, dia 9, rolava o Rock'n Rio II e Bush father-fodher mandando bala e iraquianos mandando scud (...Bêb. ñ tem dono, cfe. turma do casseta&praneta) o q dá vontade de ler + da obra, se souberes editora, preu tentar achar aqui pelas bandas do Pantanal, assim que lançado, deve valer a pena, boa dica.
Adorei a capa!
Suely
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