sexta-feira, fevereiro 24, 2012

O Baile de Máscaras






Minha amiga Denise Motta Feit (foto) mandou o texto referente ao primeiro capítulo (abaixo) de seu livro "Amor em Campo Minado" . A capa acima foi criada por mim em conversas com ela para a referida publicação e mostra os duas faces de uma mesma guerra: a sua (o lado feminino e delicado) e a outra (crua, agressiva e violenta), que exprime a guerra tal e qual ela é...
Mas Denise resume o início de tudo isso com a frase: "saí da propaganda para entrar na história!".


Tel-Aviv, 17 de janeiro de 1991

Dormia quando a sirene de guerra tocou.
Seu som agonizante se misturou com as antigas canções de carnaval que embalava meu sono.

Sonhava com o que tinha sido minha realidade no Brasil: um alegre desfile num bloco de rua.

Mascarados e encapuzados me arrastavam harmoniosamente pelos paralelepípedos trepidantes da pequena cidade.
Ricos, pobres, brancos e negros se espremiam pelas calçadas, entre mulatos de fé e crenças variadas.

O cheiro de suor se misturava com o cheiro da água-ardente e embriagava tanto quanto o cheiro do lança perfume.

Era embalada ao ritmo dos corações pulsantes de euforia, quando vi uma foliã parada no meio da multidão.

Me aproximei da triste Colombina que borrava sua maquiagem de purpurina lilás ao esfregar cada lágrima que escorria pelo seu rosto jovem.
Me aproximei ainda mais. Queria pergunta-la porque estava tão triste.
Mas o rugido do alarme de guerra finalmente conseguiu me acordar.

E pouco antes de conseguir matar minha curiosidade, despertei!
Meu sangue gelou e meu coração mudou de ritmo.
Saiu do compasso das marchas de carnaval para acompanhar o ritmo do pânico e do terror que se apossavam de mim e fazia meu corpo paralisar.

Vi a cara fria da morte estampada na máscara de gás que coloquei em frente ao espelho. Seus vidros redondos se embaçavam mais e mais, a cada lágrima que escorria de meus olhos.
Estava completamente cega de paixão, e agora, também pronta para morrer asfixiada de amor.
O barulho dos mísseis iraquianos que caíam perto de mim me fez parar de sonhar acordada. Corremos para o quarto que estava preparado de acordo com as instruções de segurança do exército de Israel em caso de ataque químico.
A suspeita do ataque existia, mas ninguém acreditava que aquilo realmente ia acontecer.

Eles estão bombardeando, eles estão bombardeando!  Gritava Ora.
Fitas autocolantes e plásticos nas janelas e portas vedavam o possível ar contaminado que poderia estar lá fora.
Seguíamos as coordenadas do departamento de segurança de Israel, transmitidas pelo rádio em idiomas diferentes.
Olhei através do vidro embaçado da minha máscara de gás e mal conseguia distinguir entre Alon, sua mãe, e seu pai que me olhavam incrédulos a me perguntar que diabos eu estava fazendo ali?
Era carnaval no Brasil, e eu era turista fantasiada numa guerra que não era minha, detida pela cilada de um amor.
O som abafado da minha respiração se fazia mais ofegante, mas mesmo assim escutei quando o telefone tocou.

"Mãe! Não posso falar agora." Gritei desligando o telefone.
Peguei a Torah e o Sidur e comecei a rezar as primeiras rezas que havia aprendido já nas primeiras aulas do curso de conversão do Rabinato oficial de Israel:
“Shemá Israel Adonai Eloqueino Adonai Errad..."
Ouvindo isso os pais de Alon o fuzilaram com o olhar e Bem-Ami não conseguindo se controlar explodiu:
"Se não fosse suficiente você nos trazer uma goia (1) para dentro de casa, o pior é que agora ela vai acabar virando uma docit (2) !!!"

A continuar...


1. Uma "não judia".

2. Apelido pejorativo para descrever uma pessoa religiosa em Israel.

12 comentários:

Anita disse...

Muito bom. mas muito bom mesmo!

Jonga Olivieri disse...

A Denise tem uma narrativa que envolve. Não à toa que ela exercia o ato e a arte da escrita antes de "sair da propaganda pra entrar na história" (sic)...

Cantídio disse...

Realmente muito bem escrito pela escriba de mão cheia!

Jonga Olivieri disse...

Ok, Cantídio. Tambem acho isto. Aliás, era colega dela na VS e sempre a considerei uma profissional de primeira, talentosa e criativa.
Hoje, Denise é uma de minhas Musas. Merecidamente, e em todos os sentidos...

Anônimo disse...

Nao vejo um texto tao bem narrado ha muito tempo.
Excelente forma de contar algo tao dramatico em estilo tao claro, ate leve e ilustrativo. Vi as cenas se formarem em minha cabeca a medida que lia.
Parabens, Denise!

Anonymous
New York

Jonga Olivieri disse...

Tambem acho que a narrativa é muito boa! Simples e objetiva, sem muitas presopopéias. Em suma: moderno.

Ernani disse...

Demaisssssss!

Jonga Olivieri disse...

A Deni deverá mandar mais capítulos... Aguardemos o desdobramento.

Anônimo disse...

Por que não criar um Blog somente para o livro?
Shirley

Jonga Olivieri disse...

Boa ideia. Mas será que a Denise vai ler aqui? Em todo caso, vou conversar com ela sobre esta possibilidade.

almagro disse...

Lembro, minha filha tinha nascido (aí no RJ), 1 semana antes, dia 9, rolava o Rock'n Rio II e Bush father-fodher mandando bala e iraquianos mandando scud (...Bêb. ñ tem dono, cfe. turma do casseta&praneta) o q dá vontade de ler + da obra, se souberes editora, preu tentar achar aqui pelas bandas do Pantanal, assim que lançado, deve valer a pena, boa dica.

Anônimo disse...

Adorei a capa!
Suely