sexta-feira, junho 29, 2012

Edgar Melo, uma homenagem



Em 21 de novembro de 2006 publiquei neste blogue uma postagem intitulada “O ‘caso’ da After Six” que contava um pouco da trajetória de Edgard Melo, hoje considerado o verdadeiro fundador da publicidade mineira, no início de vida da sua agência.
Fiquei sabendo de seu falecimento, aos 81 anos, e a republico em homenagem a esta importante personalidade, com quem trabalhei em sua agência, a ASA, em Belo Horizonte.
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A história toda começou quando funcionários da McCann-Erickson de Belo Horizonte, entre outros Edgar Mello, Newton Silva, Hélio Faria, Paulo Venâncio, acharam que os seus freelances eram de tal volume, que valia a pena alugar uma sala, e, após o expediente, iniciar uma nova jornada de trabalho que certamente varava a noite e a madrugada. Mas que, sem dúvida, tinha lá suas compensações.

Assim, surgia a ASA (sigla que significava After Six Agency), que, alguns anos depois seria durante um bom tempo a maior agência mineira. E que até hoje é uma agência grande em Minas.

O trabalho que deu o start no desenvolvimento dela foi, sem dúvida a campanha do Pep’s. O Pep’s, para quem não conhece, era um grande magazine mineiro, muito bem localizado à época na rua da Bahia, bem no centro da cidade. Para se ter uma ideia do seu tamanho, hoje em dia, em seu lugar está um shopping center.

Bom, a tal campanha do Pep’s foi inovadora, revolucionária e chamou muita atenção. Deu o que falar na cidade toda, e tornou-se um ‘case’ no mundo da propaganda de varejo. Resumindo, projetou definitivamente a ASA como uma agência de sucesso.

Fui diretor de criação na ASA, algumas décadas após esses acontecimentos. Nesta época, “Seu” Melo já era um bem sucedido empresário, não só em publicidade, mas também no ramo da distribuição de cervejas, pois possuía uma das maiores revendedoras Brahma em terras mineiras. Além disso, por ser um gourmet, possuía também, em sociedade com seu amigo Targino vários restaurantes em Beagá. Um deles era ao lado do campo do Atlético, que nesta época ficava em região central, onde, aliás, hoje situa-se outro grande shopping da cidade. Neste, toda semana o mercado publicitário em peso ia experimentar a inconfundível cozinha mineira que servia, e começava com a famosa ‘Vaca Atolada’, e por aí afora, sempre com o toque pessoal e criativo dos mestres Edgar e Targino.

A própria ASA tinha uma cozinha profissional. Ali, Edgar preparava excelentes banquetes para seus clientes. Como diretor de criação da agência eu participava deles. Dos quais, aliás, tenho até hoje excelentes recordações.

Mas, uma vez me contaram um caso que é digno de nota.

A ASA, nos seus dias pioneiros, foi apresentar uma campanha em Goiânia. E a verdade é que “Seu” Mello saiu de Belo Horizonte com a campanha toda marcada e montada e foi apresenta-la naquela cidade. Botou as peças na mala e foi, dirigindo o seu Gordini.

Tempos heróicos da propaganda.

quarta-feira, junho 27, 2012

O "caso" do Monstro (republicação)



Comecei minhas atividades em publicidade com o pé direito. Na época em que entrei na McCann Erickson do Rio de Janeiro, em 1965, ela era uma agência escola.

Não é pra menos. Só a equipe. Na minha sala, que era colada à do diretor de criação, o argentino Oscar Gosso, ficavam o Mello Menezes, diretor de arte e ilustrador, o Vilmar desenhista, cartunista e ilustrador, o Humberto “Tatu”, letrista e o Antônio Celso, o Toninho, também diretor de arte, este ainda júnior.

Havia outra sala, também do departamento de arte. Nela ficavam o Victor Kirowsky, diretor de arte, o Mello (euro asiático nascido em Macau, e que depois mudou-se para o Canadá), diretor de arte especializado em TV e o Flávio Colin, ilustrador, que substituiu o Quiroga, argentino, que saiu dias depois que eu entrei para voltar à sua terra natal. O Benício - já conceituado ilustrador - acabara de mudar para a Denison (que era outra grande escola), junto com o Pêcego e o Waldo Mello, ambos diretores de arte. Só gente da pesada! Verdadeiros monstros!

O departamento de redação, naquele tempo era separado. Mas, pelo menos ficava no mesmo andar. O nono da rua México, 3. Ali ficavam o Pedrosa, o Mauro Matos... chega? Tinha mais. O Athayde, sobrinho do Austragésilo (ele mesmo, o presidente da ABI). E ainda o Pedro Camargo, que, além de redator publicitário, dava-se ao luxo de ser compositor. Compôs uma música que fazia sucesso: “A chuva”, tocada com muita bossa pelo conjunto “Os Gatos”.

Não é à toa que aquilo foi uma grande escola para mim. Em tempos de prancheta, guache e pincéis, um diretor de arte tinha muito o que ralar para adquirir a expertise da profissão. Era muito detalhe. Saber manchar (o nome que se usava para uma rápida ilustração do layout), marcar letras, calcular a área de texto, e por aí afora. Graças àqueles com quem tive a sorte de conviver e aprender tão de perto, ali eu me formei e até fiz mestrado nessas cositas. Sou-lhes, até hoje grato, pelo que fizeram por mim.

Mas tem um termo, que também comecei a falar, como todo mundo, que era “monstro”.

“Monstro”, vinha a ser um jingle mal tocado só para o cliente aprovar. Sim, porque naquele tempo, como não haviam esses sintetizadores musicais e os softwares de música que hoje existem às pamparras, um jingle, precisava de muitos músicos para ser realizado. O “monstro” era feito com simplicidade, um pianinho, ou um violão, só para dar o clima numa peça mais barata. Se o cliente não gostasse, não se gastava uma nota preta sem necessidade. Se gostasse, produzia-se o definitivo.

Mas o mais engraçado é como a gente fala as coisas, pensando em um lado, e esquecendo o mais elementar. Eu, e muita gente, achava que era “monstro” simplesmente por ser grotesco, primário, mal lapidado. Enfim, monstruoso.

Um belo dia, descobrí que a palavra era a tradução de demonster, que algum desavisado, um dia deve ter traduzido como the monster.

Ai, se o dr. Frankenstein soubesse disso.