quarta-feira, junho 27, 2012

O "caso" do Monstro (republicação)



Comecei minhas atividades em publicidade com o pé direito. Na época em que entrei na McCann Erickson do Rio de Janeiro, em 1965, ela era uma agência escola.

Não é pra menos. Só a equipe. Na minha sala, que era colada à do diretor de criação, o argentino Oscar Gosso, ficavam o Mello Menezes, diretor de arte e ilustrador, o Vilmar desenhista, cartunista e ilustrador, o Humberto “Tatu”, letrista e o Antônio Celso, o Toninho, também diretor de arte, este ainda júnior.

Havia outra sala, também do departamento de arte. Nela ficavam o Victor Kirowsky, diretor de arte, o Mello (euro asiático nascido em Macau, e que depois mudou-se para o Canadá), diretor de arte especializado em TV e o Flávio Colin, ilustrador, que substituiu o Quiroga, argentino, que saiu dias depois que eu entrei para voltar à sua terra natal. O Benício - já conceituado ilustrador - acabara de mudar para a Denison (que era outra grande escola), junto com o Pêcego e o Waldo Mello, ambos diretores de arte. Só gente da pesada! Verdadeiros monstros!

O departamento de redação, naquele tempo era separado. Mas, pelo menos ficava no mesmo andar. O nono da rua México, 3. Ali ficavam o Pedrosa, o Mauro Matos... chega? Tinha mais. O Athayde, sobrinho do Austragésilo (ele mesmo, o presidente da ABI). E ainda o Pedro Camargo, que, além de redator publicitário, dava-se ao luxo de ser compositor. Compôs uma música que fazia sucesso: “A chuva”, tocada com muita bossa pelo conjunto “Os Gatos”.

Não é à toa que aquilo foi uma grande escola para mim. Em tempos de prancheta, guache e pincéis, um diretor de arte tinha muito o que ralar para adquirir a expertise da profissão. Era muito detalhe. Saber manchar (o nome que se usava para uma rápida ilustração do layout), marcar letras, calcular a área de texto, e por aí afora. Graças àqueles com quem tive a sorte de conviver e aprender tão de perto, ali eu me formei e até fiz mestrado nessas cositas. Sou-lhes, até hoje grato, pelo que fizeram por mim.

Mas tem um termo, que também comecei a falar, como todo mundo, que era “monstro”.

“Monstro”, vinha a ser um jingle mal tocado só para o cliente aprovar. Sim, porque naquele tempo, como não haviam esses sintetizadores musicais e os softwares de música que hoje existem às pamparras, um jingle, precisava de muitos músicos para ser realizado. O “monstro” era feito com simplicidade, um pianinho, ou um violão, só para dar o clima numa peça mais barata. Se o cliente não gostasse, não se gastava uma nota preta sem necessidade. Se gostasse, produzia-se o definitivo.

Mas o mais engraçado é como a gente fala as coisas, pensando em um lado, e esquecendo o mais elementar. Eu, e muita gente, achava que era “monstro” simplesmente por ser grotesco, primário, mal lapidado. Enfim, monstruoso.

Um belo dia, descobrí que a palavra era a tradução de demonster, que algum desavisado, um dia deve ter traduzido como the monster.

Ai, se o dr. Frankenstein soubesse disso.

3 comentários:

Anita disse...

Um caso fora-de-série!

Cantídio disse...

E assim como este, quantos termos e palavras devemos usar errados?

Anônimo disse...

Muito bom isto...
Anonymous
New York