sexta-feira, julho 27, 2012

O "caso" do Capitão Aza

O Capitão Aza (assim com zê mesmo), era aquele cara que na TV Tupi concorria com o Capitão Furacão da TV Globo. Costumava aparecer na televisão num suposto avião, com capacete, nuvenzinhas e tudo a que tinha direito. Além do que, como seu principal rival, apresentava os principais desenhos animados e demais entretenimentos para a garotada de então.

Eram figuras folclóricas naquela época. E tinham, ambos, casos muito estranhos. Conta-se, que o Capitão Furacão num determinado dia sorteou alguns dos seus ‘grumetes’ para navegar numa escuna pelos mares da vida. O Capitão Furacão era caracterizado como um "velho Lobo do Mar’, e tinha como sua principal ajudante uma garotinha, a Elisangela. Sim, aquela mesma!

Pois bem. Iniciada a tal viagem, o tal do ‘comandante’, começou a enjoar, passar mal, e no final foi resgatado por um helicóptero em alto mar. Um puta dum vexame!

Mas, voltando ao Capitão Aza. Era uma figura. Fazia propaganda da FAB. Enaltecia a "gloriosa força aérea", era um estardalhaço. E, até dava o maior dos ibopes.

Bom. Um determinado dia, nosso colega Victor Kirowsky trafegava em sua inconfundível Variant de cor vinho, quando esbarrou num Puma. Esbarrou é o modo de se dizer. Bateu mesmo. Abriu-se a porta e sai de lá o comandante in self. Começa então uma discussão de quem era ou não o culpado do incidente. Dizem que o capitão era meio violento. Até contavam as más línguas que ele era membro do SNI. O Vic, certamente, com o seu cachimbo à boca, no melhor estilo Jacques Tati, ouviu a presopopéia toda do apresentador televisivo, que no final, virou-se para ele e falou em altos brados:

- Sabe com quem está falando? Com o Capitão Aza!!!.

Victor Kirovisky baforou seu cachimbinho, olhou para o cara e respondeu:

- Prazer... Capitão Marvel.

Fechou a porta da Variant e arrancou sem dizer mais nada.

sexta-feira, julho 20, 2012

O “caso” do Nelson Rodrigues


Este texto foi publicado no Jornal do CCRJ (Clube de Criação do Rio de Janeiro) em 1998 e eu considero um dos melhores deste blogue, sendo que fazia parte do projeto inicial do livro que pretendia lançar até que tive a ideia deste blogue.

A campanha de TV do Banco Nacional naquele ano de 1979 ficou inédita. Quer dizer, na verdade entrou no ar uma colcha de retalhos com cenas - nada inéditas, se bem que inesquecíveis - de filmes que marcaram época na história do banco. Até aí tudo bem. Afinal era uma campanha de aniversário e o que foi pro ar não deixou a gente envergonhado não. Mas é que a campanha original, a que o Favilla e eu tinhamos bolado era simplesmente do caralho. Tinha depoimentos de pessoas que estiveram de alguma forma envolvidas com um banco que sempre apoiou a cultura, os esportes, etc. Entre elas João Saldanha, Grande Otelo e Nelson Rodrigues. E com um detalhe: a gente produziu parte da campanha em vídeo para mostrar ao cliente.

A gravação do Grande Otelo por exemplo foi tão emocionante que deixou gente chorando e arrepiada. Foi desses momentos inesquecíveis. A do Saldanha teve uma característica marcante que foi o seu cronômetro mental. A gente dizia fala aí 10 segundos e ele falava 10 segundos. Depois a gente pedia para ele falar 35 segundos e ele falava os 35 segundos cravados. Foi uma coisa fantástica.

Mas o melhor mesmo foi o dia em que nós fomos fazer o vídeo com o Nelson Rodrigues. Fora tudo marcado no apartamento dele, lá no Leme. Chegamos pontualmente, na hora marcada. Aquele clima de se estar na casa de um gênio era uma coisa emocionante. Entramos e lá estava o dito cujo sentadão numa poltrona, com aquela voz que ninguém igualou até hoje. Aquele falar compassado, aquele tom cavernoso. O pessoal da produtora montando toda a parafernália de som e luz. Um puta dum reboliço no ar.

De repente Nelson, o próprio, o dito cujo, himself, diz que queria ver o texto do comercial. E ele enfiou a cara no texto. Leu, releu, parou, olhou em todas as direções e perguntou: “De quem é esse texto?”. Favilla levantou-se e encaminhou-se à mesa da sala de jantar, onde o mestre estava sentado. Humildemente, encolhidinho, tal qual fosse um aluno na sala de aula levantou o dedo e disse que era dele. Ele virou-se lentamente na sua direção e retrucou: “Esse texto tem um problema grave...”. - Todos gelaram atônitos. Favilla cada vez diminuindo de tamanho - “...Nelson Rodrigues não é um dos maiores autores de teatro do Brasil... Nelson Rodrigues é o maior autor de teatro do Brasil!”. Finalizou, olhando em torno com ar desafiante. Foi um tal de conserta daqui, pigarreia dali, até que o silêncio instalou-se por alguns infindáveis segundos na sala.

O que se seguiu foi um tentar desfazer o que se tinha feito, um jogar panos quentes, uma sucessão de sorrisos amarelos, “não é nada disso” e por aí afora. E a gente vendo a hora do cara falar “não ga-ra-vo” no melhor estilo Alberto Roberto. O que afinal de contas e graças aos deuses, ou sei lá o quê, acabou não acontecendo. Ufa!

Bom, a verdade é que o comercial foi gravado e ficou supimpa. Como aliás ficou toda aquela campanha que acabou não saindo. Well, as a matter of fact eu sei lá quantas campanhas do cacete a gente cria e não vão para o ar. Faz parte da vida da gente. A Y&R tem até uma premiação interna em Nova Iorque para esse tipo de trabalho. Mas a verdade é que dói quando eu me lembro desta inédita na minha vida. E na do Favilla, do Eugênio e sua produtora. Enfim... Coisas da propaganda.

domingo, julho 15, 2012

Um bom layout é para sempre


Modéstia à parte, mas como diretor de arte, acho que um bom layout pode valorizar um texto sofrível. Porem, os anúncios postados aqui não estão neste caso, pois todos têm bons redatores por trás .
    
   
Não importa a data. O mais importante é bater o olho e achar que é bonito, tem boa leitura, e, principalmente não está ultrapassado. O anúncio acima (IBC), com o texto de Luiz Favilla (foto de Geraldo Melo) é um caso assim. Leiautei entre 1980 e 1982, período em que trabalhei na Salles. E até hoje, confesso não o acho com “cara de reclame”.

  
 

É o caso deste acima para uma promoção do JB e Iberia (Contemporânea 1984) em dupla com Bernardo Mariani, abrilhantado ainda pela ilustração do Mello Menezes. Ou do anúncio ao lado, um pouco mais recente (1989), mas mesmo assim do século passado, ilustrado pelo Saulo Silveira, hoje em Portugal onde exerce as funções de pintor.


 
O que vale é a ideia que há por trás de um anúncio. No caso do criado para a Rede Manchete com o Marcos Ferraz na VS, o importante é saber que após tantos anos ele continua, se não moderno, pelo menos um clássico.

  

O da bola de futebol (acima), leiautado em 1998 na Doctor, criei em parceria com o Claudio Ortman para vender a equipe do Jornal do Brasil na Copa daquele ano, tambem considero um layout pra ficar. Só que, sinal dos tempos, a foto já foi de um arquivo de imagens.


  
E para finalizar este para um encontro de ex-funcionários da VS leiautei este ano e criei em parceria com a Lucinha (Lucia Matuschka) para ser veiculado no FaceBook. A logomarca do evento é tambem de minha autoria.




quarta-feira, julho 11, 2012

O “caso” da apresentação à galega (Republicação)


Desembarquei em Portugal. Chegava ali em pleno verão europeu. Sem dúvida, bem mais ameno que o nosso. Quer dizer, em alguns aspectos. Ao chegar lá, fui recebido no aeroporto pelo redator brasileiro que já estava lá e por um account(1) da agência.

No caminho para o trabalho, já fiquei sabendo que meu verão europeu seria tão quente quanto o nosso tropical. Enquanto me familiarizava com a paisagem da "mui leal, heróica e invicta" cidade do Porto, ia escutando um relato de alguns problemas que estavam acontecendo por aquelas plagas d’além-mar. Para início de conversa, a agência, por estar sem Director Criativo já havia algum tempo, estava uma bagunça. Ou seja, todo mundo criava um pouco. Afinal, "de ‘criativo’ e louco, todo mundo tem um pouco".

Trocando em miúdos, eu estava a entrar numa autêntica “zorra”. De imediato tínhamos dois problemas graves a serem sanados para um mesmo cliente, que era um fabricante de jeans. O primeiro deles era até meio insolúvel. Tinha uma campanha criada por alguém, que não me lembro mais, e que havia sido aprovada pelo cliente. O produto era o jeans "Mako". O drama é que o filme era uma sucessão de lugares comuns. Aquela coisa meio antiga, no ritmo de "Um homem, uma mulher", realmente uma ideia cheia de clichês. Não tinha muito jeito. Era apenas uma questão de produção.

Fui informado de que, ao chegar na agência, já teria uma reunião com a produtora que realizaria o filme, e que estaria embarcando para Lisboa daí a dois dias, para tentar junto com a referida produtora, transformar aquela bosta de roteiro num filme “inesquecível”.

O segundo era um pouco menos pior. O cliente não havia aprovado a ideia do filme para o outro produto. "Big Wit" era o seu nome. Teríamos que criar uma nova campanha para este. Com um pequeno detalhe: a apresentação da campanha já estava marcada para o dia seguinte pela manhã, no cliente. Ao chegarmos na agência, juro que mal deu tempo de ir ao banheiro lavar o rosto e me recompor da viagem transatlântica, e lá estava eu na mesa de reunião junto com a empresa produtora do filme e o patrão que eu ainda não conhecia.

A produtora - Nova Imagem, era o seu nome, aliás, uma das melhores e maiores em Lisboa - estava representada pelo seu diretor e também realizador(2) do filme, o Norberto.
O papo foi muito profissional. O Norberto já tinha uma série de ideias para salvar o filme. Após tê-las exposto, e haver uma concordância geral, partimos para o outro problema. Aí, eu pedi um certo tempo. Precisava me reunir com o redator e criar uma nova campanha. Não tinha como sair uma nova proposta, naquele momento, sem nem conhecer o problema por completo.
Bom. Fui almoçar após uma breve apresentação a todos na agência. Comi um excelente bacalhau, no típico bairro da Ribeira, bem alí ao pé da ponte Dom Luiz e à margem do rio D’Ouro, enquanto me inteirava melhor do briefing.

Voltamos para a agência e arregaçamos as mangas, rumo ao desafio. Tínhamos pouco tempo e sabíamos disso. A campanha constava de um outdoor, um anúncio de página de revista, algum material de ponto-de-venda e um filme. Sim, mas um filme de oito segundos. Uau! Era completamente estranho para mim filmes de oito segundos. Mas era uma coisa muito comum na mídia portuguesa. Pelo menos naquela época. O nosso produto era destinado ao público jovem, masculino e feminino, sendo que tinha uma linha infantil. Pensávamos o quanto seria difícil dizer tudo isso em oito segundos. Mas, depois de algumas idas e vindas surgiu uma ideia simples. O filme consistia num travelling. O cenário era feito de biombos em que viam-se pendurados jeans. O movimento do carrinho começava no homem, passava para a mulher e continuava num terceiro biombo que só tinha roupas penduradas. Quando chegava aí, saía um menino de seus oito anos. Detalhe: completamente pelado. O locutor em off dizia: “Descubra-se com Big Wit”.

Com a ideia na cabeça, vendemos para o nosso patrão e dono da agência. Fomos marcar a campanha toda. Esta campanha foi em 1990. O primeiro Mac da Opal foi comprado no ano seguinte, um IICi de saudosa memória para mim. Ela foi toda marcada a mão. Algo do tipo primeiro dia, primeira virada. Mas valeu. De madrugada estávamos admirando o fruto de nossa façanha

Fui dormir, porque afinal ninguém é de ferro, e na manhã seguinte eu ia sair com o Rente (o dono da agência) para apresentar a campanha.

E chegou o momento. Cedinho, tipo oito da manhã, estávamos todos a postos para ir ao cliente. Porque além de tudo não era bem na cidade, e sim em outra localidade, a cerca de 20 minutos dali.

Chegamos finalmente ao local da reunião e sede da Mako Jeans. Estava lá toda a diretoria da empresa numa sala de reunião até bastante bem montada. O combinado é que eu ia apresentar a campanha, mas o Rente faria uma introdução, até por ser ele o dono da agência e amigo do cliente. Ele, compenetradamente, tomou a palavra e disse:

- Senhores! Estamos cá com a nossa campanha...
... Não sei se é o melhor que já viram, mas é o melhor que pudemos fazer!

Olha, a vontade que eu tive foi de me enfiar debaixo da mesa e não sair mais. Nunca mais. Mas, entre mortos e feridos, salvaram-se todos. Ou seja, consegui apresentar e aprovar a ideia, com aplausos, aliás. Segui para Lisboa no dia seguinte, e o filme foi produzido, aliás com primor pelo Norberto e sua equipe. E foi ao ar. Apesar daquela inesquecível apresentação "à galega".

1.  Lá, quer dizer contato.
2.  Em Portugal, realizador é o diretor do filme.

 O outdoor da campanha

quinta-feira, julho 05, 2012

O "caso" do enjoo



É isso aí... Aparentemente um cara sério. Aliás, um puta dum profissional, um senhor redator e diretor de criação com vasto currículo internacional. Mas o caso abaixo mostra um lado curioso de meu amigo Marcos Ferraz.

O Marquinhos fez dupla comigo na VS durante mais de um ano.
Começamos a parceria quando eu tinha pouco mais de um mês de casa, e ele já colocou os pés lá dentro com histórias curiosas.

A primeira delas, que não é tão engraçada assim, foi a do dia do pagamento, que coincidiu com o da festa que a agência fazia para comemorar os aniversários do mês. Ao chegar em casa e parar o carro na porta da garagem, o redator foi assaltado. Levaram o seu carro, e detalhe, um envelope. Dentro deste estava o seu salário.
Mas têm casos engraçados mesmo. Um deles por exemplo era o dos poemas e pensamentos que ele escrevia pelas paredes da nossa sala. Eu até delimitei o ponto até o qual ele poderia "grafitar" à vontade, e o meu limite. Coisa que ele sempre respeitou. Além da linha não havia pichação. No entanto, em pouco tempo, o Marquinhos já estava pichando até as paredes do estúdio.
Um belo dia, o Marcos Vinícius voltou do almoço com um puta dum enjôo. Passando mal mesmo! E o pior é que nós tinhamos uma reunião marcada com um cliente.
Enquanto esperávamos, eu comecei a gozar a situação:

- Pô, cara, já pensou você abrir a porta da sala, na hora da reunião, e vomitar na mesa?

E daí, começamos a viajar nesta brincadeira.

Concluindo, houve a reunião e tudo correu às mil maravilhas, não houve nada. Ficaram só umas boas risadas para trás.

Algum tempo depois ele mudou-se para São Paulo.
Um dia, encontrei o Marquinhos no Rio. E, conversa vai, conversa vem e ele me solta esta:

- Sabe, Jonga, eu tenho que lhe confessar uma coisa...

Parou por alguns instantes, o olhar cabisbaixo, envergonhado.
E prosseguiu:

- ... Lembra daquele caso da vomitada?... Bom, seguinte... eu tava com uma galera lá em Sampa... sabe né, eu contei a história como se tivesse realmente acontecido... (pausa maior)... só que eu contei como se houvesse sido com você.