quarta-feira, julho 11, 2012

O “caso” da apresentação à galega (Republicação)


Desembarquei em Portugal. Chegava ali em pleno verão europeu. Sem dúvida, bem mais ameno que o nosso. Quer dizer, em alguns aspectos. Ao chegar lá, fui recebido no aeroporto pelo redator brasileiro que já estava lá e por um account(1) da agência.

No caminho para o trabalho, já fiquei sabendo que meu verão europeu seria tão quente quanto o nosso tropical. Enquanto me familiarizava com a paisagem da "mui leal, heróica e invicta" cidade do Porto, ia escutando um relato de alguns problemas que estavam acontecendo por aquelas plagas d’além-mar. Para início de conversa, a agência, por estar sem Director Criativo já havia algum tempo, estava uma bagunça. Ou seja, todo mundo criava um pouco. Afinal, "de ‘criativo’ e louco, todo mundo tem um pouco".

Trocando em miúdos, eu estava a entrar numa autêntica “zorra”. De imediato tínhamos dois problemas graves a serem sanados para um mesmo cliente, que era um fabricante de jeans. O primeiro deles era até meio insolúvel. Tinha uma campanha criada por alguém, que não me lembro mais, e que havia sido aprovada pelo cliente. O produto era o jeans "Mako". O drama é que o filme era uma sucessão de lugares comuns. Aquela coisa meio antiga, no ritmo de "Um homem, uma mulher", realmente uma ideia cheia de clichês. Não tinha muito jeito. Era apenas uma questão de produção.

Fui informado de que, ao chegar na agência, já teria uma reunião com a produtora que realizaria o filme, e que estaria embarcando para Lisboa daí a dois dias, para tentar junto com a referida produtora, transformar aquela bosta de roteiro num filme “inesquecível”.

O segundo era um pouco menos pior. O cliente não havia aprovado a ideia do filme para o outro produto. "Big Wit" era o seu nome. Teríamos que criar uma nova campanha para este. Com um pequeno detalhe: a apresentação da campanha já estava marcada para o dia seguinte pela manhã, no cliente. Ao chegarmos na agência, juro que mal deu tempo de ir ao banheiro lavar o rosto e me recompor da viagem transatlântica, e lá estava eu na mesa de reunião junto com a empresa produtora do filme e o patrão que eu ainda não conhecia.

A produtora - Nova Imagem, era o seu nome, aliás, uma das melhores e maiores em Lisboa - estava representada pelo seu diretor e também realizador(2) do filme, o Norberto.
O papo foi muito profissional. O Norberto já tinha uma série de ideias para salvar o filme. Após tê-las exposto, e haver uma concordância geral, partimos para o outro problema. Aí, eu pedi um certo tempo. Precisava me reunir com o redator e criar uma nova campanha. Não tinha como sair uma nova proposta, naquele momento, sem nem conhecer o problema por completo.
Bom. Fui almoçar após uma breve apresentação a todos na agência. Comi um excelente bacalhau, no típico bairro da Ribeira, bem alí ao pé da ponte Dom Luiz e à margem do rio D’Ouro, enquanto me inteirava melhor do briefing.

Voltamos para a agência e arregaçamos as mangas, rumo ao desafio. Tínhamos pouco tempo e sabíamos disso. A campanha constava de um outdoor, um anúncio de página de revista, algum material de ponto-de-venda e um filme. Sim, mas um filme de oito segundos. Uau! Era completamente estranho para mim filmes de oito segundos. Mas era uma coisa muito comum na mídia portuguesa. Pelo menos naquela época. O nosso produto era destinado ao público jovem, masculino e feminino, sendo que tinha uma linha infantil. Pensávamos o quanto seria difícil dizer tudo isso em oito segundos. Mas, depois de algumas idas e vindas surgiu uma ideia simples. O filme consistia num travelling. O cenário era feito de biombos em que viam-se pendurados jeans. O movimento do carrinho começava no homem, passava para a mulher e continuava num terceiro biombo que só tinha roupas penduradas. Quando chegava aí, saía um menino de seus oito anos. Detalhe: completamente pelado. O locutor em off dizia: “Descubra-se com Big Wit”.

Com a ideia na cabeça, vendemos para o nosso patrão e dono da agência. Fomos marcar a campanha toda. Esta campanha foi em 1990. O primeiro Mac da Opal foi comprado no ano seguinte, um IICi de saudosa memória para mim. Ela foi toda marcada a mão. Algo do tipo primeiro dia, primeira virada. Mas valeu. De madrugada estávamos admirando o fruto de nossa façanha

Fui dormir, porque afinal ninguém é de ferro, e na manhã seguinte eu ia sair com o Rente (o dono da agência) para apresentar a campanha.

E chegou o momento. Cedinho, tipo oito da manhã, estávamos todos a postos para ir ao cliente. Porque além de tudo não era bem na cidade, e sim em outra localidade, a cerca de 20 minutos dali.

Chegamos finalmente ao local da reunião e sede da Mako Jeans. Estava lá toda a diretoria da empresa numa sala de reunião até bastante bem montada. O combinado é que eu ia apresentar a campanha, mas o Rente faria uma introdução, até por ser ele o dono da agência e amigo do cliente. Ele, compenetradamente, tomou a palavra e disse:

- Senhores! Estamos cá com a nossa campanha...
... Não sei se é o melhor que já viram, mas é o melhor que pudemos fazer!

Olha, a vontade que eu tive foi de me enfiar debaixo da mesa e não sair mais. Nunca mais. Mas, entre mortos e feridos, salvaram-se todos. Ou seja, consegui apresentar e aprovar a ideia, com aplausos, aliás. Segui para Lisboa no dia seguinte, e o filme foi produzido, aliás com primor pelo Norberto e sua equipe. E foi ao ar. Apesar daquela inesquecível apresentação "à galega".

1.  Lá, quer dizer contato.
2.  Em Portugal, realizador é o diretor do filme.

 O outdoor da campanha

6 comentários:

Nun'Alvares disse...

Tu ficas a gozar... De facto temos cá algumas conclusões à Lavoisier!

Cantídio disse...

Ora pois, pois!

Anita disse...

À galega mesmo!

Anselmo de Castro Neves disse...

Tenho amigos que trabalharam em Portugal e contam cada caso. Realmente eles são muito cartesianos. Aliás, caro Nuno, você talvez tenha querido dizer Descartes!

Anônimo disse...

Gostei muito da campanha de Big Wit. E o outdoor e como se fosse um resumo do filme.
Mas os portugueses sao ingenuos demais. Eles sao mesmo capazes de dizer uma frase como a dele e nao representar para os outros o que representariam para qualquer um de nos.

Anonymous
New York

Ana Paula Duarte disse...

Muito bom o out-door.
O caso, nem se fala!