sexta-feira, julho 20, 2012

O “caso” do Nelson Rodrigues


Este texto foi publicado no Jornal do CCRJ (Clube de Criação do Rio de Janeiro) em 1998 e eu considero um dos melhores deste blogue, sendo que fazia parte do projeto inicial do livro que pretendia lançar até que tive a ideia deste blogue.

A campanha de TV do Banco Nacional naquele ano de 1979 ficou inédita. Quer dizer, na verdade entrou no ar uma colcha de retalhos com cenas - nada inéditas, se bem que inesquecíveis - de filmes que marcaram época na história do banco. Até aí tudo bem. Afinal era uma campanha de aniversário e o que foi pro ar não deixou a gente envergonhado não. Mas é que a campanha original, a que o Favilla e eu tinhamos bolado era simplesmente do caralho. Tinha depoimentos de pessoas que estiveram de alguma forma envolvidas com um banco que sempre apoiou a cultura, os esportes, etc. Entre elas João Saldanha, Grande Otelo e Nelson Rodrigues. E com um detalhe: a gente produziu parte da campanha em vídeo para mostrar ao cliente.

A gravação do Grande Otelo por exemplo foi tão emocionante que deixou gente chorando e arrepiada. Foi desses momentos inesquecíveis. A do Saldanha teve uma característica marcante que foi o seu cronômetro mental. A gente dizia fala aí 10 segundos e ele falava 10 segundos. Depois a gente pedia para ele falar 35 segundos e ele falava os 35 segundos cravados. Foi uma coisa fantástica.

Mas o melhor mesmo foi o dia em que nós fomos fazer o vídeo com o Nelson Rodrigues. Fora tudo marcado no apartamento dele, lá no Leme. Chegamos pontualmente, na hora marcada. Aquele clima de se estar na casa de um gênio era uma coisa emocionante. Entramos e lá estava o dito cujo sentadão numa poltrona, com aquela voz que ninguém igualou até hoje. Aquele falar compassado, aquele tom cavernoso. O pessoal da produtora montando toda a parafernália de som e luz. Um puta dum reboliço no ar.

De repente Nelson, o próprio, o dito cujo, himself, diz que queria ver o texto do comercial. E ele enfiou a cara no texto. Leu, releu, parou, olhou em todas as direções e perguntou: “De quem é esse texto?”. Favilla levantou-se e encaminhou-se à mesa da sala de jantar, onde o mestre estava sentado. Humildemente, encolhidinho, tal qual fosse um aluno na sala de aula levantou o dedo e disse que era dele. Ele virou-se lentamente na sua direção e retrucou: “Esse texto tem um problema grave...”. - Todos gelaram atônitos. Favilla cada vez diminuindo de tamanho - “...Nelson Rodrigues não é um dos maiores autores de teatro do Brasil... Nelson Rodrigues é o maior autor de teatro do Brasil!”. Finalizou, olhando em torno com ar desafiante. Foi um tal de conserta daqui, pigarreia dali, até que o silêncio instalou-se por alguns infindáveis segundos na sala.

O que se seguiu foi um tentar desfazer o que se tinha feito, um jogar panos quentes, uma sucessão de sorrisos amarelos, “não é nada disso” e por aí afora. E a gente vendo a hora do cara falar “não ga-ra-vo” no melhor estilo Alberto Roberto. O que afinal de contas e graças aos deuses, ou sei lá o quê, acabou não acontecendo. Ufa!

Bom, a verdade é que o comercial foi gravado e ficou supimpa. Como aliás ficou toda aquela campanha que acabou não saindo. Well, as a matter of fact eu sei lá quantas campanhas do cacete a gente cria e não vão para o ar. Faz parte da vida da gente. A Y&R tem até uma premiação interna em Nova Iorque para esse tipo de trabalho. Mas a verdade é que dói quando eu me lembro desta inédita na minha vida. E na do Favilla, do Eugênio e sua produtora. Enfim... Coisas da propaganda.

10 comentários:

Anônimo disse...

Cheguei na agencia de manha e tive a surpresa de ler este caso.
Posso lhe garantir que nao havia lido algo tao interessante antes.
E e historico. Preciso ir aos casos mais antigos porque pelo jeito sao muito bons. Nao que os atuais nao sejam, mas talves, no intuito de escrever o livro tenha tido mais inspiracao.

Anonymous
New York

Anita disse...

Já havia lido este caso. Acho que o segundo blogue postado em 2006 e acho simplesmente SEN-SA-CIO-NAL!

Cantídio disse...

Brilhante!

Anônimo disse...

Conheci o Nelson Rodrigues e tinha um péssimo humor. Com um detalhe: foi piorando cada vez mais! Imagino a cena!

Carlos

Ernani disse...

Lembro de ter lido isto da primeira vez no Jornal do CCRJ mas sempre que o relia neste blog me deliciava.
Tambem gostei muito da ilustração.

Jonga Olivieri disse...

Grande este!
W.O.

Nun'Alvares disse...

Imagino a emoção que os acometeu ao situar-se frente a frente com tão famosa e emblemática personalidade.
Muito fixe!

almagro disse...

Pessoal do Pasca - Jaguar & Cia. - dizia q ele era exemplo de quem "escrevia bem, mas pensava mal", opinião deles, um tanto motivada pela época e circunstâncias, claro, ditadura, milicos no poder, conservadorismo exarcebado, coluna nOGlobo... + 1 grande post, Jonga, abs.

Manuel Pinto disse...

Alem Mar, quer dizer aí no Brasil ainda corre a madrugada. Porem, ao acordar verás que escrevo-lhe para elogiar esta tua crónica de cá, do outro lado do Oceano Atlantico.
Poucas as vezes que li algo tão giro a envolver uma personalidade tão conhecida como este conceituadoo autor teatral brasileiro.
E fico a imaginar a situação de teu colega, o Luiz, ao aproximar-se do famoso "humor" de Nelson Rodrigues, pois que esta fama tambem cá chegou!

André Setaro disse...

Momento inesquecível o encontro com o grande Nelson.