segunda-feira, julho 22, 2013

A primeira cachimbada a gente nunca esquece


Comecei a fumar cachimbo na Bahia em 1966. Ganhara dois cachimbos de um primo. Um era da marca Compass do tipo Apple, que eu tenho até hoje, passados 48 anos. O outro, também inglês, era do tipo billiard estampado com a famosa grife Dunhill. Um cachimbo excelente, que, infelizmente, e apesar do “sangue azul”, o tempo acabou por destruir.
O certo é que, naquela época, comecei a achar que jovem fumando cachimbo era meio pedante, pensamento agravado pelo fato de que havia o Gabriel, um conhecido do tipo que fazia uma puta duma pose para fuma-lo (1). Tambem achava que precisava haver uns cabelinhos brancos para justificar o hábito. Deixei de fumá-los, mas, guardei as preciosidades.

Em 1981 a minha pressão foi parar nas alturas. Bom, na ocasião eu fumava uns sessenta cigarros por dia, quase que acendia um no outro. Se acordasse no meio da noite, a primeira coisa que fazia era, ainda sonolento, esticar o braço, tateando em direção à mesa de cabeceira, colocar um cigarro na boca, e, mecanicamente, acende-lo quase sem sentir.
O médico, então, me aconselhou a deixar o vício, sob pena de piorar mais ainda, ou até morrer. Fiquei impressionadíssimo, e me lembro perfeitamente que quando saí do consultório, joguei a carteira de cigarros na primeira lixeira que encontrei. A decisão foi assim, súbita e radical, mas resolví mantê-la a qualquer custo. Inicialmente, comecei a comprar balas em quantidade. Recordo que entrava na Kopenhagen e saía com sacos e mais sacos das guloseimas. Comecei a ficar com medo de virar um elefante, pois se já era um tanto quanto gordinho, chupando balas daquele jeito, sabe-se lá onde ia parar?

Um belo dia lembrei-me das “velhas” pipas (2). Mas onde estavam? Ao chegar em casa, perguntei a minha mulher se os havia visto. Ela disse que nosso filho (então com uns quatro anos) os guardava numa caixa de brinquedos velhos. Gelei! Puz-me rapidamente a vasculhar a caixa à cata das preciosas peças. E depois de muito revirar o enorme depósito, os encontrei (inteiros) entre Playmobis e Legos esfacelados. O que me deixou numa felicidade indescritível.
E limpá-los? Como, se não tinha nada em casa para fazê-lo? Já era noite. Mas mesmo assim desci, peguei o carro e sai à procura de um lugar para comprar tabacos e apetrechos indispensáveis. Recordava-me de dois locais onde os poderia encontrar àquela hora: o Mercadinho Azul em Copacabana, e o Lamas no Flamengo. Achei que a segunda opção seria melhor para estacionar e me mandei para lá.
Na tabacaria, bem na entrada do boêmio e famoso restaurante, comprei um pacotinho de Bulldog, um de Tilbury e outro de Irlandês (3). Procurei um importado, tipo Prince Albert, London Dock ou Half & Half, mas, infelizmente não havia nenhum. Acrescentei um limpador de metal e uma embalagem daquelas de limpadores descartáveis de algodão, o que completaram a minha aquisição. Chegando em casa, limpei os dois cachimbos com uma expectativa e dedicação imensas. Depois, era somente acender e fumar. Importante: sem tragar. Eu sabia que nas primeiras vezes isto iria ser difícil, mas logo a gente se acostuma, pensava com meus botões.

O importante é que, após um banho curtido, vesti o roupão, refastelando-me com todo o conforto na melhor poltrona na sala, à meia luz... Afinal, com trinta e seis anos, principalmente com alguns esperados –e ainda poucos– fios de cabelos brancos, eu pude me entregar às baforadas de um delicioso billiard, fabricado pela famosa Dunhill.

1 Anos depois, por coincidência, um colega, Diretor de Arte espanhol, chamado Manolo Rodriguez, escreveu um livro chamado: “Como fumar cachimbo sem fazer pose”.

2 “Pipa” é cachimbo em espanhol e italiano. Em francês é “pipe”. Em inglês é “pipe” (pronuncia-se paipe). Ah essa língua portuguesa!

3 Bulldog e Tilbury, antigas marcas da Inducondor de Petrópolis eram então fabricados pela Souza Cruz, e Irlandês era, e ainda o é pela Wilder Finamore.

 

11 comentários:

Anita disse...

Muito bom!

Cantídio disse...

Que "causo" mais interessante. Conheci o Manolo. Que fim levou?

geraldo melo disse...

Seu blog esta uma maravilha meu amigo, parabens sempre.

Jonga Olivieri disse...

Obrigado, Geraldo. Um elogio assim vindo de você é um prêmio para o meu esforço de mante-lo desde 2006!

Cantídio disse...

Deu até vontade de fumar cachimbo.

Ernani disse...

Fumei cachimbo durante alguns anos.
Tambem porque havia deixado o cigarro, e comecei nas balinhas de forma compulsiva.
Mas hoje em dia já não fumo mais nada.

John Lane disse...

Muito bom este "caso", apesar de nao ter nada a ver com publicidade...

Selma disse...

Muito engraçada essa história.
Parabéns

Anônimo disse...

Mas e claro que tem a ver com publicidade e criacao. Tinham muitos criativos que fumavam cachimbo pelos corredores das agencias.

Anonymous
New York

Saulo Silveira disse...

Gostei e saboreio as tuas palavras, como as baforadas de um bom cachimbo.
Só não gosto de mulher fumando cachimbo, tenho uma linda amiga austríaca, que de vez em quando saca um cachimbo da bolsa e de linda, transforma numa velha feiticeira. Abraços

Jonga Olivieri disse...

Mas é um contexto cultural em toda a Europa... Eles teem até cachimbos femininos, com pedrinhas encrustradas e os cambáu. Eu via nas tabacarias quando morei aí!