sábado, julho 20, 2013

O “caso” do leão

A turma que foi a Cannes. Da esquerda para a direita: Luciana Vendramini, um diretor de arte da Thompson (que não lembro o nome), Alexandre Machado, Lucia Ritto, João Bosco (ao seu lado o bastão do domador), Adilson Xavier, Fábio Fernandes, Eduardo Martins e Karen. Na frente, o leão...

Foi quando a gente ia publicar o Jornal do Clube, lá pelos idos de 1989. Mauro Mattos era o presidente. O Cristóvão Martins, a  Maria Célia Salgado e eu tínhamos peitado a parte gráfica. Era um corre corre danado. Reuniões de pauta, reuniões para diagramação; noites e madrugadas adentro. Naquele tempo ainda não havia Macintosh pelas bandas do Rio de Janeiro. O Zé Gui - coordenando tudo -, e todos envolvidos naquele desafio. "Vamos botar o jornal na rua. Ele tem que sair, ele tem que sair!" Bom, ele saiu. Aliás, pra quem não conheceu, um senhor número! Tamanhão tablóide, muita matéria, entrevistas polêmicas. E um trabalho do cão... ou do leão.

Um belo dia, me liga o Henrique Meyer. "Jonga. Pra fechar o jornal... tá quase tudo pronto... só falta mesmo fazer uma foto com o pessoal que foi a Cannes." Resumindo, a foto ia ser no Handam na noite daquele dia mesmo.
Lá pelas oito, cheguei no estúdio do Handam. Aquela animação. "O jornal tá quase pronto, - era o comentário geral - vamos ver se na semana que vem a gente está estourando com ele nas agências." Um puta dum clima.
Começou a chegar o pessoal pra foto. Era a turma carioca que tinha ido a Cannes. Eduardo Martins, João Bosco, Fábio Fernandes. No meio, como figuração, a Luciana Vendramini. De repente o Henrique solta aquela: "Tá faltando o convidado mais importante da foto." Quem será o convidado mais importante? Pensei eu com meus botões. Mas, papo vai, papo vem a gente esqueceu isso. Comecei a conjecturar com o Handam, qual seria a melhor maneira para fazer o Anuário do Clube. Como viabilizar essa tarefa hercúlea e até então inédita. Foi um papo longo.

De repente o Henrique anuncia com um sorriso de um lado ao outro do rosto que o convidado mais importante acabara de chegar. Olhei na direção da porta e eis que vejo surgir um leão. Mas olha gentem, não era aquele leão ‘brocha’ dos comerciais do Imposto de renda não! Não era aquele leão velho, pulguento, sonolento que a gente estava acostumado a ver por aí. Era um leão de verdade, em carne, osso e mandíbulas. Um leão jovem, cheio de tesão e babante. Olhar fixo, persistente. Um leão de arrepiar.

"Não se apavorem. Tudo bem" - disse o Henrique firmemente - "O leão tem um domador ao seu lado. Ele é obediente. Fiquem calmos."
A essa altura, sentia minhas pernas bambearem e pensava o que eu, que tinha medo de cachorro, estava fazendo por aquelas bandas. É a mesma sensação de quando a gente está subindo na montanha russa, antes daquela primeira queda brusca.
Fiquei atrás da parede do bar. Pelo menos tinha a ilusão de que ali havia uma divisória entre mim e aquela fera assassina. E olha que ela, a fera, no seu instinto realmente selvagem chegou a morder a calça de couro da Lúcia Ritto, segundo o seu domador porque ela era de couro de animal africano ou coisa que o valha. Fato que não aconteceu com a Karin que estava com uma de couro artificial.

"E quando começarem os flashes?" Fiz esta pergunta ao Handam num determinado momento de lucidez. Meu medo era aquele bicho enlouquecer, desbundar numa overdose de luzes pipocantes.
No final da fita, entre mortos e feridos salvaram-se todos, suados, descabelados. Só respirei quando o leão finalmente cruzou a porta e eu ainda esperei um bom tempo pra colocar o pé no elevador e me mandar, para acabar uma história que, literalmente, foi dose pra leão.
 
Este texto foi publicado no Jornal do CCRJ em 1998 e neste blogue em 2006


5 comentários:

Anita disse...

Jóia. Não canso de reler este seu "causo".....

Cantídio disse...

A Luciana Vendramini estava novinha em folha nesta foto. Deve ser do tempo que ela foi "Garota do Fantástico", antes de fazer "Vamp", que se não que foi sua primeira novela.

Anônimo disse...

Muito bom este "case"... Eu ja havia lido e gostado, mas continuo a curtir.

Anonymous
New York

Glaucia disse...

Você esqueceu de dizer que o domador foi assassinado no affaire daquela paraguaia, lembra?

John Lane disse...

Essa historinha é muito boa!